Diogo Mateus Garmatz
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MEDITAÇÕES DO QUIXOTE DE JOSÉ ORTEGA Y GASSET

Gasset, José Ortega Y. Meditações do Quixote. Campinas-SP: Vide Editorial, 2019.

RESUMO

     José Ortega y Gasset (1883-1955) foi um proeminente filósofo espanhol, um dos filósofos mais célebres de todo século XX. Ortega nasceu ainda no Século XIX em Madrid e presenciou as duas grandes guerras mundiais que aconteceram no Século XX. Estudou Filosofia na Alemanha, onde a corrente dominante preconizava uma volta aos postulados de Immanuel Kant confrontados com o idealismo de Georg W. F. Hegel. Foi na Alemanha que Ortega teve o privilégio de ter como professor o pai da fenomenologia, Edmund Husserl. Em sua concepção pedagógica, sempre foi incisivo em apontar a degradante situação educacional da Espanha comparada ao restante da Europa. Como promotor cultural, fundou a Revista do Ocidente, que se tornou um referencial cultural em todo o Velho Continente. No livro Meditações do Quixote, o autor faz um ensaio sobre a obra mais importante da literatura espanhola, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), obra esta que figura sempre entre as listas de leituras obrigatórias da literatura mundial. É justamente nesse ensaio, que Ortega y Gasset (2019, p. 32) vai dizer a famosa frase que condensa muito do seu pensamento filosófico: “Eu sou eu e minha circunstância”.


Palavras Chaves: Raciovitalismo, Ser, Circunstância, Literatura, Realidade.

A FILOSOFIA DE ORTEGA Y GASSET

     O filósofo José Ortega y Gasset se destaca, dentre outros aspectos, por sua escrita clara, acessível e envolvente. Para ele, a clareza é uma cortesia que o filósofo deve oferecer. É bem visível em seus escritos que esse era mesmo um alvo perseguido por ele, como se em sua forma de escrever ele lutasse para ser de tal modo claro, que o leitor, ao ler suas ideias, tivesse a impressão de que ele próprio as estivesse pensando. Dono de uma obra abrangente que permeia vários aspectos da experiência humana, Ortega y Gasset expõe com seu trabalho um brilhantismo filosófico excepcional. Sua obra foi, na verdade, uma vida de dedicação que resultou, de forma fluídica e natural, em uma singular e preciosa contribuição para a cultura filosófica universal.
     A filosofia orteguiana pode ser vista como uma superação do subjetivismo moderno e do realismo clássico, pois, ao fundir essas duas vertentes, Ortega cria o raciovitalismo, uma filosofia nova e original no panorama filosófico universal, uma fusão entre o ser pensante e o mundo pensado, entre a razão e a vida com todas as suas circunstâncias e aspectos, por menores que sejam. Duas correntes filosóficas até então problemáticas e isoladas são, enfim, coadunadas no pensamento de Ortega. Toda essa construção acaba por se transformar em uma metafísica caracterizada pela razão vital e chega muito próximo de se tornar um perspectivismo. Mas ainda que o ponto de vista do ser subjetivo seja uma das bases da filosofia orteguiana, o filósofo permanece afastado do relativismo, sendo ele, inclusive, um ferrenho crítico dessa escola epistemológica.

AS MEDITAÇÕES DE QUIXOTE

     No livro que Ortega toma como referência em seu ensaio, é famosa a passagem em que o personagem Quixote confunde um moinho de vento com um monstro gigante, pois ele pensa ser um cavaleiro em um mundo em que, todavia, não existem mais cavaleiros. É essa dissonância que o filósofo toma como base para o seu ensaio. Analogamente, Ortega traz à análise vidas pautadas pelo puro subjetivismo, que vivem em realidades ideais, onde a realidade mesma que forma o contexto da vida nua e crua do ser é praticamente desprezada. Para Ortega, viver desprezando as circunstâncias é viver em um mundo paralelo. É interessante observar o quanto isso não é nem de longe um fenômeno isolado ou raro de ser presenciado, ao contrário, é algo que acontece de forma muito corriqueira, seja por inércia, seja inconscientemente. Todas as vezes em que são desprezadas as coisas pequenas que cercam a experiência do ser e que o ser se desvia da sua realidade com os olhos fitos em ideais mais altos ou diversos, o ser está condenando à perdição suas circunstâncias e, em última instância, está condenando à perdição a si mesmo. Acerca dessa atitude, escreveu Ortega y Gasset (2019, p. 31): “Para quem o pequeno não é nada, o grande não é grande”.
     Na verdade, a sentença orteguiana ― “eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo não me salvo eu” (GASSET, 2019, p. 31) ― é uma nova forma de conceber o ser, uma ideia inovadora para se pensar a ontologia. Para o filósofo espanhol, não existe um ser subjetivo sem a realidade que o rodeia. As circunstâncias que cercam o ser subjetivo fazem parte daquilo que ele é, a ponto de serem consideradas como a outra metade do ser subjetivo.
     Sujeito e objeto coexistem na realidade, assim, somente através dessa metade o ser pode completar-se como ser em sua inteireza, pois, parafraseando o próprio Ortega, se o ser não salva a circunstância de sua vida, não salva também e tampouco a si mesmo. É justamente essa coexistência consciente e efetiva que é, definitivamente, a realidade primeira para o filósofo madrilenho.
     O que se vê em sua escrita é uma demonstração agradável que leva a uma devoção e um amor pela realidade que cerca o ser em toda a sua inteireza. Ortega ensina que a vida deve ser vivida a partir do lugar que se ocupa no mundo, algo que lembra muito a vida de Epiteto, um filósofo estoico que viveu como escravo em Roma e que mesmo nessa situação, e não apesar dela, se valeu dessa condição para legar ao mundo a sua obra, abraçando com amor e abnegação o destino inevitável que lhe sobrevinha e as circunstâncias que formavam aquilo que era a sua vida.
Ortega reconhece que as circunstâncias escapam ao controle e que o ser tem que jogar com as cartas que a própria vida põe em suas mãos depois baralhá-las. A maturidade esfrega no rosto do ser que a maior parte das circunstâncias da vida é anárquica à vontade do ser, e que, por isso mesmo, a atitude deve ser de amor a elas e não de revolta. Nas palavras do próprio Ortega, assim se lê em seu ensaio:

 
Precisamos viver só um pouco para já tocar os confins de nossa prisão. No mais tardar aos trinta anos reconhecemos os limites dentro dos quais se moverão nossas possibilidades. Tomamos posse do real, que é como ter medido em metros a corrente que prende nossos pés. (GASSET, 2019, p. 125).

UMA NOVA FORMA DE VER A VIDA

     Salvar a circunstância, por esse prisma, é dar um sentido a ela, é ajudá-la, é entregar-se a ela, é aceitá-la como uma parte do próprio ser, é tecer uma ligação entre ela e o ideal sonhado, é dar-se integralmente a ela, é vivê-la com toda a intensidade e ao mesmo tempo envolvê-la em um abraço. É exatamente dessa forma que Ortega olha para a sua terra, para o seu solo pátrio, para a circunstância da sua vida, e busca dar ao seu país o melhor que ele poderia dar, sem transformar sua obra em uma utopia ou em sonhos divagantes que promovem uma fuga da realidade. Ortega sempre se entregou à realidade que o cercava; ali onde nasceu, saiu nadando. Surge com esse filósofo extraordinário a ideia de que a vida, ou seja, a biografia de um filósofo, é um eixo central da sua própria filosofia, a circunstância e a historicidade do filósofo são peças imprescindíveis na construção de uma filosofia que pretenda ser profícua e fazer bem ao mundo. Nas palavras do próprio Ortega:

 
Temos de buscar nossa circunstância, tal qual ela é, precisamente no que tem de limitação, de peculiaridade: o exato lugar na imensa perspectiva do mundo; não nos determos perpetuamente em êxtase frente aos valores hieráticos, mas sim conquistar para a nossa vida individual o posto oportuno entre eles. Em suma: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem. (GASSET, 2019, p. 31).
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 01/05/2021
Alterado em 01/05/2021
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