Diogo Mateus Garmatz
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O COMUNISMO E A "JUSTIÇA SOCIAL"

     Não só é inexoravelmente impossível aplicar a justiça em casos particulares de mal extremo como também o é em casos coletivos, como quando se fala em justiça social. Há um episódio bíblico que ajuda a trazer luz ao que quero dizer. Quando Jesus estava ceando em Betânia, Maria, irmã de Lázaro, derramou sobre seus pés um per-fume de nardo puro que, segundo texto do Evangelho de João, era muito caro, e enxugou os pés de Jesus com os próprios cabelos. Judas Iscariotes, vendo a cena, perguntou, então, por que aquele perfume caro fora desperdiçado daquele jeito sendo que poderia ser vendido e o dinheiro ter sido revertido aos pobres. Diante dessa fala, Jesus assim respondeu: “Quanto aos pobres, vós sempre os tereis convosco...” (João 12:8). Há ainda outro texto no Pentateuco que faz paralelo ao que Jesus falou, em Deuteronômio 15:11 está escrito: “Pois nunca deixará de haver pobre na terra...”. Constatar que a igualdade ou justiça social é uma quimera, uma utopia impossível de ser alcançada não depende do crédito ou descrédito que alguém possa dar ao livro cristão ou da confissão de fé adotada, é algo que pode ser verificado na história da humanidade e nas experiências políticas observadas nos mais variados lugares e tempos. O comunismo falhou, o socialismo falhou, o capitalismo falhou. Não há esperança na monarquia, não há esperança na república, tampouco na democracia. A busca pelo sistema de governo ideal, no entanto, é irrefreável e irreversível; o mundo aguarda atônito pelo líder e pelo governo que trará a unidade política, econômica e social. Mas a chegada desse esperado messias ainda não é o fim, é apenas o princípio das dores. Mais uma vez a fome e a sede por justiça permanecem e tendem a permanecer insaciadas, mais uma vez os famintos fixam o olhar em um plano escatológico. Como dizia o sábio rei Salomão, “Muitos desejam os favores do governante, mas é do senhor procede a justiça.” (Pro-vérbios 29:26).
     Ora, não é uma sociedade que tem ser justa, mas cada sujeito em particular é que o tem de ser. É impossível que uma sociedade tida conceitualmente como um conjunto de cidadãos seja justa sem que cada um de seus componentes também o seja, no entanto, é possível que cidadãos tomados em suas individualidades sejam justos independentemente de a sociedade ser ou não justa, até mesmo porque o atributo de justo ou injusto não cabe a um conceito abstrato como é o termo sociedade, justo ou injusto só cabe como atributo a um individuo tomado em sua individualidade concreta, pois são suas ações que vão condicionar o atributo que lhe cabe. Platão explicitava o caráter subjetivo da justiça ao conceituá-la (subjetivo no sentido de pertencimento a um sujeito), conforme explica Giovanni Reale:

     “Eis, portanto, o conceito de justiça “segundo a natureza”: “Cada um faça aquilo que lhe compete fazer”, os cidadãos e as classes de cidadãos, na Cidade, e as partes da alma, na alma. A justiça só existe exteriormente, nas suas manifestações, quando existir interiormente, na sua raiz, ou seja, na alma.[1]
 
     A expressão “justiça social” como é usada hoje em dia vem carregada de ideias marxistas, ou seja, diz respeito principalmente ao espectro econômico, ignorando-se puerilmente que, ainda que todos tivessem acesso às riquezas em uma sociedade, mesmo assim ela poderia ser extremamente injusta em outros aspectos. Mas, fazendo essa concessão, admitindo que a justiça social resida em fatores econômicos, dificilmente esse problema será amenizado nos moldes como o problema é posto, onde os ricos são tidos como os injustos e os pobres como os injustiçados. Como se pode lutar por justiça social apoiando-se na velha ideia de luta de classes marxista, onde o objetivo não é de maneira alguma alcançar a justiça, mas promover uma revolução violenta com o objetivo explícito de moldar uma sociedade onde não existam classes?

     “Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade burguesa vigente até o ponto em que estala abertamente uma revolução e o proletariado estabelece seu domínio pela derrubada violenta da burguesia.”[2] “Os comunistas se recusam a ocultar suas opiniões e seus propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pela transformação violenta de toda a ordem social até hoje existente. Que as classes dominantes tremam ante uma revolução comunista![3]

     Já faz muito tempo que Ludwig Von Mises demonstrou que a arma mais eficaz para se combater a pobreza é atrair fontes de riquezas. Ao invés de apresentar os detentores de riquezas como vilões injustos que devem ser odiados, é sugestivo fazer, antes, o exercício de ir a uma cidade pequena e pouco desenvolvida e perguntar a cada morador s eles não concordariam em ter ali fábricas e empresas para gerar empregos, fomentar a economia e trazer desenvolvimentos à cidade onde moram. A própria ideia de ódio ao capitalismo acaba por cimentar a pobreza, quebra a espinha de uma sociedade e a condena à miséria. O que resta é um exército de paraplégicos que espuma pela boca com os olhos esbugalhados murmurando o quanto são injustiçados e o quanto o mundo é injusto. A mesma ideologia que se põe como defensora e promotora da justiça social é a mesma que calcifica as mentes e as condena à miséria não só econômica, mas principalmente intelectual.

     “O capitalismo não pôde se desenvolver nas nações atrasadas porque as pessoas não gostavam do capitalismo, e porque lá os empresários estavam expostos a perigos que não existiam no ocidente, onde havia o Estado de Direito. O principal para esses países atrasados, que eram em sua maioria orientais, era mudar radicalmente sua mentalidade, o que pensavam sobre economia. Eles tinham que reconhecer que quanto maior o número de ricos, melhor para os pobres, e que a presença de pessoas ricas é necessária para a abolição da pobreza das massas. Mas essa ideia não entrava na cabeça das pessoas. Quanto mais longe eles ficavam da Europa, menos percebiam que a essência do desenvolvimento capitalista não era o conhecimento tecnológico e os bens de capital, mas a mentalidade que possibilitou a acumulação em larga escala de capital e de bens de capital.[4]

     Mas por que mesmo com uma refutação tão devastadora como a oferecida por Mises o comunismo continuou fazendo discípulos e chegou a ocupar um terço de todo o globo terrestre? Por que mesmo depois de os regimes comunistas acumularem milhões de mortos, o comunismo continua sendo defendido e propagado como uma ideia para salvar o mundo das desigualdades e das injustiças? A resposta é que o comunismo há muito deixou de ser uma corrente política e se transformou em uma cultura. Há muito o comunismo preteriu a violência e priorizou a revolução cultural. Estamos diante de um caso em que uma ideia sobrepujou a pujança dos fatos. A dança histórica entre ideias e fatos que deveria fazer com que os fatos posteriores ao surgimento das ideias comunistas gerassem novas ideias, distintas e supressoras das primeiras, foi sufocada e esmagada pelas táticas de guerra cultural. Contra fatos não há argumentos, é o que se diz; aquele que patenteou essa máxima com certeza não tinha conhecimento do que a manipulação da cultura é capaz. “Os fatos são obstinados, dizia Lenin. As ideias são ainda mais obstinadas, e os fatos são esmagados por elas com mais frequência do que as ideias são esmagadas pelos fatos.[5]
     É fácil observar como a cultura marxista se espraiou por todas as áreas, tomando o cuidado de não deixar absolutamente nada de fora; há hoje não só política marxista, há economia marxista, justiça marxista, educação marxista e até religião marxista. Ora, para toda e qualquer área e para todo e qualquer aspecto da sociedade a que se volte o olhar, sempre vai ser encontrado ali alguma antítese, alguma oposição, algum antagonismo, algo que o marxista apontará de pronto como sendo a comprovação e a evidência de uma luta de classes. Partindo do princípio de que há sempre e inexoravelmente uma classe opressora e uma oprimida, os teóricos marxistas não só observaram, mas difundiram como cultura, a ideia de que, no âmbito judiciário, os criminosos são os oprimidos e a sociedade é a classe opressora; no âmbito educacional, os alunos são os oprimidos e os professores com seus conteúdos e tarefas são os opressores; no âmbito religioso, apresentam as ideias de Jesus como uma aquiescência às ideias comunistas. No Brasil, a cultura marxista sempre encontrou um terreno fértil e todo o sistema educacional está tomado pelas ideias de Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido; por sua vez, a religião foi assaltada pela cultura marxista por meio da Teologia da Libertação, especialmente difundida em nosso solo pátrio por Leonardo Boff. Como este não é o lugar para tratar desse assunto em profundidade, encerrarei por aqui a enumeração dos setores da sociedade onde o marxismo se instalou e citarei, aproveitando a oportunidade, o que escreveu Eric Voegelin sobre Jesus e o suposto envolvimento dEle com os ideias comunistas:

     “A escatologia marxista trata, certamente, de uma ordem social; a ordem social tem que ser mudada e as características sociais do proletário são a base para a perspectiva escatológica. O Evangelho trata de um evento na ordem divina do mundo; a qualificação das pessoas para pertencer ao reino é incidental à questão essencial da transformação da alma. O reino do Evangelho estará livre da aflição terrena (trabalho, sexo, morte) e está “iminente” -; espera-se que venha nesta geração e pode chegar a qualquer dia. As questões sobre propriedade, portanto, não tem qualquer importância no ensino de Jesus. Na comunidade cristã primitiva, não há qualquer objeção ao rico como tal, embora se espere dele, como sintoma da sua metanoia sincera, que compartilhe a riqueza com os seus irmãos porque, de qualquer maneira, não tem utilidade terrena para ele. Portanto, é estritamente impossível derivar qualquer ideia “comunista” do Evangelho, se entendermos o comunismo como a repartição da propriedade numa ordem social duradoura; o “comunismo” cristão primitivo é um fenômeno escatológico, não é um programa de reforma social.[6]


CITAÇÕES:

[1]     REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia, Vol. 1: Filosofia Pagã Antiga. Tradução de Ivo Storniolo. Coleção História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003. Pág. 161.

[2]     MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução, prefácio e notas de Edmilson Costa. 3° Edição. São Paulo: Edipro, 2015. Pág. 76.

[3]     Ibidem. Pág. 104.
 
[4]     MISES, Ludwig Von. Marxismo Desmascarado. Tradução de Alexandre S. Campinas: Vide Editorial, 2015. Pág. 142.

[5]     REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Sabedoria Para os Tempos Atuais. Tradução de Silvana Cobucci Leite. 4° Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. Pág. 71.
 
[6]     VOEGELIN, Eric. História das Ideias Políticas - Vol. 1: Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo. Tradução de Mendo Castro Henriques. São Paulo: É Realizações, 2012. Pág. 210, 211.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 08/01/2021
Alterado em 11/01/2021
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