Diogo Mateus Garmatz
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IDEIAS VERSUS FATOS
 
     A totalidade da história sempre foi e ainda é uma dança entre fatos e ideias. Quando da queda do Império Romano do Ocidente, fora esse fato que inspirou Santo Agostinho a escrever uma das maiores obras que este mundo já conheceu, “A Cidade de Deus”; neste caso, foi o fato histórico que determinou as ideias. Séculos mais tarde, quando Carlos Magno adota o livro de Santo Agostinho como sua Bíblia e o coloca na cabeceira de sua cama, é o inverso que acontece; em um mundo marcado pela barbárie e pela violência, Carlos Magno se apega às ideias do Bispo de Hipona para moldar um novo mundo, para promover o que ficou conhecido como o Renascimento Carolíngio, trazendo para o seio da Alta Idade Média o legado civilizacional da cultura greco-romana. Assim, um fato histórico impulsionou uma ideia; essa ideia, por sua vez, difundiu-se e deu causa a novos fatos históricos.
     Mas examinemos agora um exemplo onde a dança da história tenha começado por uma ideia e não por m fato. Quando Rousseau escreveu “Do Contrato Social”, ele teorizou sobre os princípios de uma sociedade justa e igualitária e quais seriam os inimigos a serem abatidos quando essa nova sociedade se erguesse das entranhas do solo francês. Mais tarde, o líder revolucionário Robespierre adotou esse livro como um guia para suas aventuras e fez das ideias de Rousseau um fato histórico, a Revolução Francesa. O impacto das ideias de Rousseau é tão grande que o grande conquistador e imperador Napoleão Bona-parte chegou a dizer que se Rousseau não tivesse escrito o referido livro, ele próprio, Napoleão, não seria Napoleão. Observando o fato ocorrido na França, o filósofo britânico Edmund Burke teceu novas ideias, precisamente o pensamento político que chegou até nós conhecido como conservadorismo. Eis um exemplo onde a dança histórica teve como música uma ideia que determinou os fatos, e fatos que acabaram determinando novas ideias. A história é dinâmica e cíclica nessa dança entre ideias e fatos. Esse aspecto dicotômico da história não é apresentado aqui como sendo taxativo, trata-se sim de um dos muitos aspectos e componentes que movem as engrenagens do desenrolar histórico.
     Os fatos, por terem existência concreta e uma vez acontecidos serem impossíveis de desacontecer, deveriam ter uma superioridade hierárquica sobre as ideias que, enquanto tal, são puras abstrações. A realidade, porém, deixa claro que essa superioridade nem sempre consegue ser efetiva e, assombrosamente, não raro acontece de as ideias subverterem os fatos e subjugá-los. Refiro-me aqui aos episódios em que uma ideia é desmentida pelos fatos e mesmo assim continua sendo difundida e operando seus efeitos a tal ponto que é como se o fato nunca houvesse acontecido, tamanho o desprezo com o qual ele é minado. Não se trata de percepções distorcidas da realidade ou de equívocos na leitura dos fatos, não, trata-se de ter a mais plena e a mais perfeita ciência e consciência dos fatos e, a partir daí, construir, acreditar e difundir ideias completamente destoantes. Quem adota uma pedra como animal de estimação, quem a cobre para que não sinta frio, quem a molha para que sacie a sede e quem coloque grãos e frutas ao redor dessa pedra para que ela se alimente é tido como mentecapto; mas quem, mesmo sabendo que uma pedra não passa de uma pedra, faz um esforço hercúleo para se convencer de que ela é um animal de estimação é mais do que um louco, é um sabotador da realidade, um mágico que tenta por suas ideias alquímicas transformar ferro em ouro.      E a história está repleta de sabotagens, está repleta de pensamentos mágicos, há magoa e demônios escondidos em peças úmidas e escurar espiando a humanidade por entre as frestas. Os sabotadores brotam do inferno e vêm a este mundo com o objetivo de espalhar a destruição, a magia negra e a loucura. O mundo estaria condenado a ser um subúrbio do Hades povoado por cadáveres em decomposição se, em contrapartida a esses mensageiros infernais designados para matar, não se erguessem aqueles que estavam dispostos a dar a própria vida pela realidade, pela verdade e por suas ideias. Foi para isso que a filosofia adentrou a história, foi para isso que aqueles que amam contemplar a verdade entregaram suas vidas nos altares da existência.

     “Seja como for, nessa perspectiva só se é verdadeiro filósofo se se tem condição de mostrar plena coerência (harmonia e acordo) entre doutrina e existência, ou, para falar como Sócrates, entre teoria e modo de viver (e de morrer).
     Aliás, verdadeiro filósofo não é tanto aquele que sabe pensar e criar sistemas de ideias, mas, antes, aquele que sabe viver e morrer de acordo com o próprio pensamento.
     Sistemas de ideias e forma de vida devem “harmonizar-se” de maneira perfeita. As obras primas de não poucos filósofos antigos foram não apenas seus sistemas (ou seus livros), mas, sobretudo, também seus modos de viver e de enfrentar a morte.
[1]
 
CITAÇÃO:

[1]
     REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Sabedoria Para os Tempos Atuais. Tradução de Silvana Cobucci Leite. 4° Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014. Pág. 76.[1]
 
 
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 06/01/2021
Alterado em 06/01/2021
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