Diogo Mateus Garmatz
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A ABOLIÇÃO DO HOMEM, DE C. S. LEWIS
 
     Clive Staples Lewis (1898-1963) foi um dos maiores ícones da intelectualidade do século XX e um dos escritores mais talentosos da língua inglesa durante sua vida. Lewis ensinou Literatura Inglesa na Universidade de Oxford antes de ser escolhido para lecionar Inglês Medieval e Renascentista na Universidade de Cambridge. Autor de mais de trinta livros, ainda hoje Lewis conquista uma variada gama de leitores e admiradores de suas obras. No livro “A Abolição do Homem”, uma das mais conhecidas e debatidas obras desse autor britânico, Lewis aborda o relativismo moral e estético difundido de forma escamoteada entre a literatura popular de sua época e defende a existência de valores morais absolutos que transcendem o tempo, a geografia e a cultura. Denunciando e demonstrando com singular maestria as consequências do relativismo moral na sociedade, o autor leva o leitor a percorrer escritos antigos das mais variadas civilizações, isoladas entre si não só geograficamente, mas também temporalmente por séculos de distância. É nessa viagem entre os mais variados povos antigos que Lewis aponta com precisão a evidência de que há virtudes morais comuns a todos eles e que, portanto, uma moral absoluta parece ser mesmo inata a todo ser humano.
 
O IMPULSO PARA A ESCRITA DA OBRA
 
     C. S. Lewis conta já nas primeiras páginas do livro que o impulso para a escrita de “A Abolição do Homem” se deu quando ele recebeu em mãos um livro de gramática e língua inglesa para que tecesse um comentário avaliativo sobre a obra. Era apenas um despretensioso livro didático destinado a alunos do ensino primário das escolas inglesas, algo que hoje seria as séries finais do ensino fundamental. Mas chamou a atenção de Lewis um texto que ele leu naquele livro enquanto folheava a obra em busca de familiarização, um texto que de forma velada e quase que imperceptível pouco tinha a ver com uma sincera preocupação com o ensino da língua inglesa, antes, tratava-se de uma história onde tanto os valores estéticos quanto morais eram relativizados. Tudo ficou mais evidente quando um segundo texto também se ocupava de relativizar valores morais, sendo que, a partir daí, Lewis sentiu a obrigação de trazer à tona o que estava vendo, de atacar tais ideias e de fazer previsões sobre o rumo que a sociedade tomaria se tais ideologias continuassem sendo difundidas entre crianças nas escolas.
     O aludido livro didático foi chamado por Lewis em sua obra de “Livro Verde” e seus autores pelos pseudônimos de Tito e Gaio, tudo para não expor ao ridículo seus dois autores, pois eram professores que já haviam dedicado, não obstante suas limitações, toda uma vida ao ensino e ainda lecionavam em escolas inglesas. O que estava sendo dito no Livro Verde, em suma, era que os objetos e o mundo que se apresentam ao ser não têm valores morais e estéticos em si mesmos, não passando de meras subjetividades e expressões de sentimentos individuais sem nenhum referencial concreto com a realidade. Foi a isso que Lewis se opôs, foi isso que ele se esforçou em combater.

 
A ABOLIÇÃO DO HOMEM

    O escritor britânico literalmente profetizou o relativismo estético que permeia toda a arte moderna e apontou com precisão cirúrgica o andar cambaleante do mundo que estava a abraçar com ingênua solicitude o relativismo moral. Lewis se mostra preocupado principalmente pelo fato de o Livro Verde ser destinado a crianças, porque tais pessoas em desenvolvimento ainda não possuem uma estrutura psicológica e cognoscitiva que as tornem capazes de diferenciar o que é uma informação do que é uma sugestão, além de serem extremamente permeáveis a tudo o que lhes é ensinado como sendo bom ou mau. Percebida a abrangência que essas ideologias já tinham tomado, não só na Inglaterra, mas na universalidade do pensamento filosófico como um todo, restava constatada a desoladora realidade: toda uma geração cresceria acreditando que certo e errado são meras construções subjetivas e relativas. Era esse o germe da máxima que diz que tudo é permitido conquanto traga felicidade.
     Depois de apontar a chaga e as consequências da ideologia relativista, Lewis passa a demonstrar como e por quais razões essa ideia está errada. E o que chama a atenção do leitor nessa etapa é que o autor frisa que, conquanto seja cristão, não é baseado nas crenças do cristianismo que ele passará a defender a existência de uma moral absoluta. Lewis anuncia que tomará como ferramentas e instrumentos a própria historicidade da humanidade, a própria carga cultural de povos que tinham as mais variadas religiões, além de códigos morais de civilizações antigas e dos mais remotos confins do planeta.

 
VALORES ABSOLUTOS

     A relativização de antigos valores que acompanhavam a humanidade desde seus primórdios tempos era uma carga explosiva que quando incendiada arremessaria aos ares os próprios homens que juraram devoção a ela. As maiores vítimas dessa ideia perniciosa, segundo Lewis, seriam os próprios homens, que iludidos diante de uma aparente evolução social e humanística consumir-se-iam uns aos outros pensando estarem subindo os degraus mais altos da escada evolutiva. Uma sociedade que avançava a passos largos para o mundo tecnológico, se abraçasse o relativismo moral como uma bandeira inalienável, estaria fadada a confundir o poder sobre a natureza e a capacidade de moldar o mundo à sua volta com a opressão sádica daqueles que ficassem alheios ao desenvolvimento tecnológico. O autor estava prevendo que a tecnologia não se prestaria a ser apenas uma inofensiva ferramenta para melhorar a vida das pessoas, mas se converteria em um instrumento de poder sobre essas mesmas pessoas. Conforme escreveu C. S. Lewis,
 
     “Desse ponto de vista, o que chamamos de poder do Homem sobre a Natureza, revela-se como o poder exercido por algumas pessoas sobre as outras, tendo a Natureza por seu instrumento.” (LEWIS, 2017, p. 56).
 
     Ora, não é preciso muito esforço para perceber que os maiores avanços tecnológicos, as últimas descobertas e mesmo os mais brilhantes cientistas estão sempre a serviço de governos. Só depois que uma tecnologia se torna ultrapassada ou obsoleta é que ela fica ao alcance da sociedade civil. Isso evidencia que a tecnologia é um instrumento primeiro de poder, depois de melhoria da qualidade de vida da população. Toda descoberta tecnológica revolucionária está, primeiro, submissa aos interesses de poderosos que a torturam para que confesse alguma aplicação militar para o empreendimento. Só depois de constatado que tal descoberta não traz nenhum mecanismo de poder, ou seja, não coloca um Estado em condição de superioridade frente aos outros ou frente à sua própria população, é que ela pode ir parar nos lares de cidadãos comuns e que nada sabem sobre poder e dominação. Uma vez relativizados os valores morais, tudo isso será banalizado e tornado imperceptível, na verdade, será mais que tolerado, será aplaudido e reivindicado pela mesma população que está sob a égide do Estado.
 
      “Porque o poder do homem de torná-lo aquilo que ele quiser na verdade significa, como vimos, o poder de alguns homens de fazer o que eles quiserem de outros homens. [...] Mas os moldadores de homens da nova era estarão armados com os poderes competentes do Estado e a tecnologia científica. Nós teremos, ao menos, uma raça de manipuladores realmente capazes de moldar toda a posteridade segundo o que lhes aprouver.” (LEWIS, 2017, p. 60).

     Caminhando para o final de sua exposição, Lewis trata de atestar documentalmente como todas as sociedades humanas preexistentes sempre se pautaram por valores reais e absolutos de certo e errado. No apêndice do livro, inserido propositalmente nas páginas finais, como se fosse parte do miolo e de seu encadeamento lógico ascendente e não uma mera formalidade técnica, Lewis cita várias regras de conduta moral, como leis da benevolência geral e especial, deveres para com parentes, para com os mais velhos e ancestrais, para com os filhos e a posteridade, a lei da justiça, a lei da boa-fé e da veracidade, a lei da misericórdia e a lei da magnanimidade.
     Mas o que é mais importante na citação de tais registros é a fonte que Lewis aponta como originárias de tais aforismos que expressam regras morais, pois é nas fontes citadas que são percebidas as variedades dos povos, das épocas e das localizações geográficas. Encontram-se ali regras morais que foram compiladas na “Enciclopédia de Religião e Ética” (HASTINGS, 1927), dentre elas as originárias do nórdico antigo como o Volospá e o Hávamál; as originárias do chinês antigo como os Anacletos de Confúcio; as nativas do babilônico como o Hino a Samas e a Lista de Pecados; as provenientes do indiano antigo e do hinduísmo como o Bhagavad Gita e as Leis de Manu; as encontradas no egípcio antigo como as Confissões da Alma de um Justo e o Livro dos mortos; e as próprias da cultura indígena como o Le Jeune. Outras regras morais têm como fonte de compilação a obra “História Antiga do Oriente Próximo” (MASPERO, 1916), com origens que remontam o Egito Antigo como os Preceitos de Ptahhetep. Além dessas obras que compilavam muitos escritos antigos, Lewis cita também fontes avulsas como o Antigo Testamento judaico, os romanos Cícero e Juvenal, o Tratado Sobre o Governo Civil de John Locke, a Lista de Deveres do filósofo estoico Epiteto, a Ilíada de Homero, o Críton e o Fédon de Platão, as Institutas de Justiniano, a Eneida de Virgílio e a Ética a Nicômaco de Aristóteles.
     Com essa vasta gama de registros, Lewis demonstra, de maneira definitiva e inegável, que a moralidade não é, nem de longe, subjetiva ou relativa, mas algo que transcende o tempo e se mostra presente nas mais remotas civilizações, apresentando-se como um valor inato a todo ser humano. Algo que se aproxima muito do que escreveu o apóstolo Paulo na epístola aos Romanos:
 
     “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os.” Romanos 2:14,15.



BIBLIOGRAFIA:

LEWIS, Clive Staples. A abolição do homem. Tradução de Gabriele Greggersen. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 28/07/2020
Alterado em 13/02/2021
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