Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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O TEMPO É INEXORÁVEL

    quando um condutor é parado por um policial rodoviário e lhe é solicitada a documentação do veículo e a habilitação, surgem os incompossíveis: o condutor pode ser solícito e colaborar com o policial entregando a documentação, pode acelerar o carro e fugir em disparada desencadeando uma perseguição, pode sacar uma arma e trocar tiros com o policial, pode, ainda, sair do carro e desacatar a autoridade, e por aí vai. Todas essas possibilidades estão latentes até que o motorista escolha uma delas e jogue as outras para sempre na inexistência. Quando o condutor escolhe desacatar o policial, o que se segue daí é a prisão do motorista e o posterior processo penal. O motorista pode se arrepender depois, sentir vergonha do que fez, vergonha de contar aos outros o episódio, julgar o acontecido como uma página a ser esquecida na história de sua vida, pode desejar com toda sua alma voltar no tempo e mudar sua escolha, agir diferente, mas, aquela possibilidade actualizada está para sempre fixa em uma armadura metafísica de impossibilidade, não há volta, ele não pode desacontecer. Quando ele actualizou uma possibilidade, todos os outros incompossíveis que ele tinha à disposição para fazer diferente foram jogados de uma vez por todas e para sempre no vazio da inexistência e das impossibilidades.
     Se, ignorando a estrutura da realidade, o motorista tentar voltar à mesma situação e fazer diferente, mesmo assim, isso não vai substituir o que já aconteceu nem fazer desacontecer. É muito mais comum do que se pensa esse tipo de atitude, acontece o tempo todo, há pessoas que vivem o resto de suas vidas tentando fazer algo desacontecer, tentando recriar uma situação para modificar uma coisa que já não lhes pertence mais, que já entrou para a eternidade. O motorista pode recriar toda a situação, mesmo carro, mesmo veículo, mesmo policial, mesma roupa, mesmo horário, pode agir da maneira mais gentil e exemplar e se despedir do policial com um sorriso no rosto desejando-lhe um bom trabalho: nada mais pode mudar o que já aconteceu. O desacato, as algemas, a cela, o processo, tudo que foi desencadeado estará para sempre como um fato acontecido e impossível de desacontecer.
     Há pessoas que voltam para cidades de onde saíram tentando recriar situações que se arrependeram de ter deixado para trás, querem morar na mesma casa, frequentar os mesmos lugares e trabalhar na mesma empresa. Muitas vezes o que se encontra lá são portas fechadas, a situação não está mais lá esperando pela pessoa. E, mesmo quando se consegue fechar o pacote e recriar o contexto anterior, isso não faz com que ela volte ao passado, ela não vai conseguir reviver aquilo que a fez sentir arrependimento e remorso por ter deixado para trás, não da mesma forma que antes, não como se nunca tivesse saído de lá, como se nunca tivesse sentido remorso, como se nunca tivesse que se esforçar para voltar e correr atrás de tudo que uma vez abandonou.
     As coisas não permanecem rígidas, submissas à vontade da pessoa, o contexto muda, as pessoas mudam, a paisagem muda, a própria pessoa muda, o tempo não para. Um casal, depois de uma briga feia, pode se reconciliar e envelhecer junto, mas a briga, a dor, a mágoa e o sofrimento que experimentaram, embora esquecidos e superados, estarão para sempre escritos em suas histórias e nada há que possam fazer para apagá-los ou riscá-los da existência.
     Quando se leva em conta as possibilidades compossíveis e incompossíveis para analisar a questão do destino frente ao livre arbítrio, pode-se pensar em livre arbítrio enquanto existem as possibilidades residindo na escolha do agente, mas até mesmo essas possibilidades são limitadas a um recorte bem específico de escolha, há um círculo bem restrito de ações para o sujeito escolher. Ora, ainda usando o exemplo do condutor abordado, o motorista não poderia sair do carro, abrir um par de asas nas costas e sair voando, tampouco poderia apertar um botão e teleportar-se junto com seu veículo para dentro da garagem de sua casa, há um conjunto de possibilidades e de impossibilidades delimitando as ações do motorista, ou seja, há um círculo de latência.[1] Não é porque existem as possibilidades que nada está determinado, o próprio conjunto de possibilidades disponíveis à escolha do agente já é pré-determinado. Os incompossíveis não se atualizam em conjunto, apenas um vem à existência, e uma vez vindo à existência, ele é eterno e rigidamente indestrutível. Mais ainda, o incompossível atualizado é a passagem por uma ramificação para o futuro, ele acaba por determinar muito do que acontecerá depois. O motorista que opta pelo desacato tem suas mãos algemadas e passa a noite em uma cela. Aquilo que parecia ser sua mais expoente expressão de liberdade de agência termina por se mostrar um terrível fator de determinação e aniquilação da sua liberdade, no sentido mais cruel e real que se pode experimentar, com direito a algemas e grades.
     Quando os incompossíveis são levados em conta no dia a dia, o sujeito é guiado em suas ações por uma responsabilidade moral. E isso de forma alguma contradiz a ideia de destino para tornar o livre arbítrio um aspecto absoluto da existência; como dizia São Francisco de Assis, a sabedoria reside justamente em saber distinguir entre as coisas que estão ao alcance do sujeito e podem pelas ações dele serem livremente escolhidas e mudadas e entres as coisas que fogem do domínio do sujeito, não podendo por ele serem modificadas, como os aspectos que o cercam e o condicionam em direção a um destino. Assim rezava São Francisco de Assis: “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.
     Mário F. dos Santos legou à posteridade parágrafos dignos de emolduração a respeito dos incompossíveis, de tal monta que sua citação, aqui, se torna imprescindível:
 
Quando surgimos ao mundo, mais amplo é o nosso prometeico, as possibilidades futuras são inúmeras. Mas as condições e os fatores predisponentes vão favorecer a atualização destas ou daquelas possiblidades, e não de outras. Essa atualização torna cada vez mais distante as possibilidades que até então pertenciam ao nosso prometeico, e passam, irremediavelmente, para o epimeteico, agravando-se a crise pela diácrise crescente.
As possibilidades não atualizadas recuam no tempo, e muitas vezes a lembrança de uma possível atualização nos é suficiente para encher de amargura. E é bem verdade, pois toda a nossa vida está povoada dos fantasmas das possibilidades não atualizadas, do possível não vivido, do “poderia ter sido assim”, dos “eu podia ter feito isso”, e das interrogações muitas vezes dolorosas dos “por que não fiz isso?”, “por que não segui esse caminho?”. Esse epimeteico é muito de nossa vida, cuja história não é composta apenas do que vivemos, do que experimentamos, mas também de tudo quanto um dia nos pareceu ter estado às mãos, e que se nos escapou no tempo fugidio, que cada vez se distancia mais de nós.
Somos também a recordação do que não fomos. E muitas vezes, quando a nossa imaginação acompanha aquelas possibilidades e lhes empresta o arremedo de uma realidade atual, sentimos satisfações, como sentimos medo e até terrores.
No instante preciso em que uma possibilidade se atualiza, uma e muitas possibilidades afastam-se de nós. Neste instante em que escrevo, quantas possibilidades que a ela caberiam não serão mais atualizadas, e passarão para o epimeteico de minha vida. E se hoje sou isto ou aquilo, deixei para sempre o que poderia ser. E pode alguém negar a nostalgia que nos causam aquelas possibilidades não atualizadas? O romance que não vivemos, a história que não foi nossa, os dias de arrebatamento juvenis que não nos pertenceram? E pode acaso o que hoje temos, abrandar a amargura das satisfações não sentidas, da vida não vivida?
Pois é assim o nosso mundo de crise. A cada instante que a síncrese se processa, aumenta uma diácrise. À proporção que o prometeico alcança o fugidio instante da atualidade, no epimeteico uma possibilidade se distancia, aumentando a diaàstema que dela nos separa.[2]
 
[1]O conceito filosófico de círculo de latência foi desenvolvido pelo filósofo Olavo de Carvalho.
 
[2]Santos, Mário Ferreira dos. Filosofia da Crise. São Paulo-SP: É Realizações, 2017. Pág. 112,113.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 30/03/2020
Alterado em 14/08/2020
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