Diogo Mateus Garmatz
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OBJEÇÕES AO LIVRE ARBÍTRIO DE JACOBUS ARMINIUS

     Em primeiro lugar, quando se diz que Deus olha para o futuro, o que se está fazendo é um antropomorfismo descabido de Deus, ainda que conferir comportamentos e formas humanas a Deus não se configure nenhuma heresia, pois a Bíblia mesma fala em Deus como tendo mãos, olhos, pés, e é perfeitamente compreensível a linguagem antropomórfica nessas passagens. Todavia, quando se vai além e é criada uma imagem de um Deus que olha através do telescópio do tempo e espia o futuro, está-se decepando dele a atemporalidade. Passado, presente e futuro para Deus é a mesma coisa. Essa percepção linear do tempo é exclusiva da mente humana, não cabe a Deus. Esse é apenas um exemplo de antropomorfismo falacioso. Há ainda que se refutar ideias como as de que Deus pensa da mesma forma como o homem pensa, como se precisasse raciocinar ou observar para daí aprender e tomar decisões, a ideia de que há em Deus alguma potência, no sentido aristotélico, para vir a ser alguma coisa que ainda não é ou decidir algo que ainda não decidiu.
     Ora, é Ele quem sustenta a realidade e o tempo, e se é possível perceber, ter a ideia e nomear os tempos que ainda estão por vir como futuro, é porque o próprio Deus colocou o futuro lá e o sustenta. Nesse sentido, se Deus realmente olha para o futuro antes de determiná-lo, o que ele vê é algo fixo, fático e inalterável pela ação humana, o que acaba, por fim, sendo mais um argumento a favor do destino do que uma objeção a ele.
     Em segundo lugar, se Deus determina o destino dos homens de acordo com aquilo que ele vê no futuro, o mérito ou o demérito de tais destinos cabem aos homens, o que acaba por dar a razão às acusações antigas das quais os arminianos eram alvos quando eram chamados de pelgianos ou mesmo semipelagianos, pois colocam tanto a predestinação para a salvação quanto para fins do cumprimento dos desígnios divinos nas ações humanas, surgindo assim a meritocracia. Meritocracia que foi tenazmente combatida por Paulo na epístola aos Romanos, quando o apóstolo esclareceu que não há o menor espaço para ela nos desígnios divinos, e o fez usando o exemplo de Jacó e Esaú, dois gêmeos ainda no ventre da mãe, com destinos já traçados por Deus ainda antes de seus nascimentos, sem terem feito ainda nem mal nem bem, e isso, para que o mérito não recaísse em suas ações, antes, exclusivamente na escolha soberana de Deus:
 
Que diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.
Romanos 9:14-16
 
     Se Deus destina alguém à salvação ou a ser uma ferramenta em suas mãos, isso não passa por nenhum ato de justiça que esse alguém possa ter feito, ou por sua bondade, ou por seus méritos, mas passa única e exclusivamente pela misericórdia de Deus, que escolhe quem quer e usa quem quer; sem dever, por isso, satisfação a ninguém.
     Em terceiro lugar, se Deus olha para o futuro e vê quem terá fé e daí predestina quem será salvo, além de colocar o mérito na ação humana, isso também coloca Deus como um vigarista trapaceiro.
     Seria o mesmo que alguém, podendo vislumbrar o futuro, soubesse quem seria o campeão da copa do mundo e, depois de ter essa ciência, dissesse que determina o campeão, sendo que na verdade não determina nada, apenas espia o futuro e vê o resultado, resultado esse que em nenhum momento dependeu dele nem foi por ele escolhido, muito menos ainda determinado. Quando Deus determina o destino, ele determina mesmo. Quando Deus escreve o princípio já sabendo o fim, é porque ele é o Senhor, e não os homens. Quando Deus cria o tempo e se coloca nele e também para além dele, ele está se entronizando como soberano da história, e não está no homem o protagonismo do desenrolar dos eventos existenciais. Pouco espaço resta para a liberdade humana no decurso dos eventos, como Jesus mesmo disse: “Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão se não for da vontade de Deus.” (Mateus 10:29).
     Nada escapa à providência e ao controle de Deus, nada existe à parte dele, a soberania sempre será dele. É saudável, até mesmo indispensável, registrar que a salvação de alguém não passa pelo sistema soteriológico alvo de crença e fé, mas depende apenas da fé em Cristo Jesus. Esses sistemas também não servem de armas para opor protestantes entre calvinistas e arminianos, eclodindo embates que dividam entre estes e aqueles. A confissão de fé entre um sistema ou outro não é condição necessária para que alguém seja alcançado pela misericórdia de Deus, professar o arminianismo não condena ninguém nem faz dele um herege digno das fogueiras inquisitórias, assim como professar o calvinismo não o priva da salvação nem leva ninguém às chamas eternas. As duas correntes teológicas partem de uma premissa que gira em torno do livre arbítrio, em seus primeiros pontos, admitido o livre arbítrio, todo o sistema arminiano terá sua coerência interna e encadeamento lógico, negado o livre arbítrio, o sistema calvinista terá, por sua vez, sua lógica e densidade estrutural. O calvinismo prevaleceu por muito tempo nas igrejas históricas, até que, com a chegada do pentecostalismo, o arminianismo ressurgiu de tal monta que, hoje, é maioria, e mesmo entre as igrejas reformadas, os calvinistas são um grupo bem reduzido.
     O livre arbítrio parece se apresentar como uma intuição empírica, que dispensa argumentos para ser percebido, e é notável a dificuldade de se acreditar em um destino, até mesmo porque ele parece contraintuitivo. No entanto, hodiernamente, há uma vivificação do calvinismo, de sorte que até membros de igrejas pentecostais e neopentecostais têm olhado com bons olhos e reconhecido a coerência bíblica do sistema calvinista, talvez, devido à crise que o pentecostalismo enfrenta nos dias de hoje, não só em função do semipeligianismo, do sincretismo religioso, do misticismo e da disseminação desenfreada de toda sorte de heresias, mas também da necessidade urgente de se olhar novamente para os primórdios da reforma protestante em busca de bases sólidas onde lastrear a fé.
 
COMO UM DOS ÚLTIMOS frisos deste capítulo, é prudente registrar que, embora o homem não tenha o seu arbítrio livre absoluto, ele continua sendo um ser moral, cabendo responsabilização por seus atos. Mesmo que suas escolhas e decisões sejam condicionadas e inclinadas, ele continua colhendo o que planta. Quando surgem os questionamentos de que se Deus destina alguém para ser um vaso de desonra, então seria injusto responsabilizá-lo e puni-lo por ações que lhe fugiram à liberdade, o resultado é uma inescapável antinomia, ou seja, Deus continua sendo soberano em seus propósitos, e o homem, ainda assim, é responsável por suas ações. Mesmo que as duas premissas pareçam contraditórias e paradoxais, mesmo que a mente tenha resistência e uma forte disposição a não conciliar as duas verdades, elas existem ao mesmo tempo, sendo ambas verdades, sem se contradizerem. Se fosse o homem absolutamente livre, essa condição, por si, já seria uma determinação, o ser estaria amarrado inexoravelmente a essa condição. Ao mesmo tempo, o determinismo absoluto não é o que se verifica na condição humana. O destino amarra o homem a uma finalidade, mas não o determina em todos os seus aspectos nem tolhe a totalidade da sua liberdade, como escreveu Viktor Frankl:
 
Se o defensor alega que o acusado não era livre quando cometeu o crime, o juiz também pode dizer que não é livre quando pronuncia a sentença. Na realidade, os criminosos, depois de proferida a sentença, não gostam de ser considerados vítimas de mecanismos psicodinâmicos ou de processos de condicionamento.
Como Scheler destacou certa ocasião, o homem tem o direito de ser considerado culpado e de ser punido. Encontrar uma explicação para a culpa considerando-o como vítima das circunstâncias significa também tirar-lhe a dignidade humana. Eu diria que é uma prerrogativa do homem a de tornar-se culpado.[1]
 
CONQUANTO SEJA O HOMEM responsável por suas ações, ainda persiste um problema: Por que existe o mal? Se Deus é que sustenta e determina todo o desenrolar da história e não se põe à distância para observar o drama humano, como pode existir tanto sofrimento e injustiças? Por que Deus não interfere para acabar com a fome e os genocídios? Se ele pode, mas não faz, então ele é um Deus mal, proporia alguém. Se ele não pode e por isso não faz, então ele não é onipotente. Trazendo mais pra perto da questão do destino, como pode Deus destinar seres para um destino sombrio, para o sofrimento, para a guerra, para trazerem destruição, e mesmo assim permanecer isento de todo esse mal, sem que caiba a ele a autoria do mal?
O livro sagrado do cristianismo e dos judeus relata histórias de pessoas que foram alvo de destinos que o levaram a pedir a própria morte e a amaldiçoar o dia em que nasceram, preferindo nunca terrem vindo à existência. Chegou a hora de despir a questão do destino de qualquer aspecto lírico, romântico ou utópico, é hora de encará-lo em toda sua crueza e terribilidade.
     Mesmo sendo a maioria das pessoas que viveram na idade média, pessoas simples, camponeses, pessoas dedicadas a tarefas comuns do dia a dia, quando alguém procura alguma arte mística para saber quem foi em uma vida passada, quase nunca essa pessoa ouve que foi um camponês que nasceu plantando alface e morreu plantando batata em uma existência das mais simples possíveis, sem nenhum ato de glória ou expressão na sociedade da época, mas, ao contrário, a pessoa sempre ouve que foi ou um príncipe, ou um cavaleiro, ou um banqueiro, ou um senhor feudal, enfim, sempre se dá alguma notoriedade a essa vida passada. O porquê é assim? Vá-se saber! Mas é notória a falta que todos sentem dos camponeses. Ora, como alguém se sentiria se soubesse que em sua vida passada foi um Zé Ninguém? Talvez pediria ao místico o seu dinheiro de volta. O que acontece é que a ideia de vidas passadas está carregada de uma expectativa que enobrece a pessoa, que a faz sentir importante, que a coloca no fluxo histórico como uma peça chave, e é claro que, inevitavelmente, tudo se torna romantizado. Quando se trata do destino, o mesmo acontece. Sempre está envolvido algum ato glorioso, alguma ação que mudará o curso da história, algo que eternizará um nome, um evento épico ou um heroísmo.
     Todavia... (feita uma pausa para que a conjunção “todavia” seja assimilada), o destino pode se mostrar com uma face nada benevolente, ele não precisa ser necessariamente algo bom ao destinado, nem sempre ele traz medalhas para pendurar em pescoços, nem sempre ele traz prazer, alegria, satisfação, glória ou sucesso. Entre os exemplos que podem ser listados estão Elias, Jó, Jeremias, Jonas, Judas, o próprio Jesus, dentre outros.
     Elias durante seu ministério profético experimentou um sentimento que foi assim registrado:
 
E ele [Elias] se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu em seu ânimo a morte e disse: Já basta, ó SENHOR; toma agora a minha vida, pois não sou melhor que meus pais. E deitou-se e dormiu...
I Reis 19:4, 5a
 
     Jó, cujo livro aborda a questão de o porquê sofre o justo, diante de um esmagador sofrimento, assim falou:
 
Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem! Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz! Contaminem-no as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; negros vapores do dia o espantem! A escuridão tome aquela noite, e não se goze entre os dias do ano, e não entre no número dos meses! Ah! Que solitária seja aquela noite e suave música não entre nela! Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, que estão prontos para fazer correr o pranto. Escureçam-se as estrelas do seu crepúsculo; que espere a luz, e não venha; e não veja as pestanas dos olhos da alva! Porquanto não fechou as portas do ventre, nem escondeu dos meus olhos a canseira. Por que não morri eu desde a madre e, em saindo do ventre, não expirei? Por que me receberam os joelhos? E por que os peitos, para que mamasse? Porque já agora jazeria e repousaria; dormiria, e, então, haveria repouso para mim (...) ou, como aborto oculto não existiria; como as crianças que nunca viram a luz. Ali, os maus cessam de perturbar; e, ali, repousam os cansados. (...) Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo, que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos; que de alegria saltam, e exultam, achando a sepultura?
Jó 3:3-13, 16, 17, 20-22
 
     Jeremias, que ouviu de Deus “Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei e às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:5), quando abraçou seu destino experimentou dores que o fizeram sangrar por dentro. Seu destino foi profetizar a ruína do seu próprio povo, dirigir aos seus compatriotas as mais duras palavras em nome de Deus, como, por exemplo:
 
Os cadáveres deste povo servirão de pasto às aves dos céus e aos animais da terra, e ninguém os espantará.
Até os cadáveres dos homens jazerão como esterco sobre a face do campo.
Mostrar-lhes-ei as costas e não o rosto.
Eu os visitarei com quatro gêneros de males, diz o Senhor: com espada para matar, e com cães, para os arrastarem, e com as aves dos céus e os animais da terra, para os devorarem e destruírem.
E lhes frei comer a carne de seus filhos e a carne de suas filhas, e cada um comerá a carne do seu próximo.
Jeremias 7:33; 9:22; 15:3; 18:17; 19:9;
 
     Foi, por isso, acusado de desencorajar seus compatriotas de amarrar as mãos dos soldados. Sua vida era regada a lágrimas, provou calabouços, cisternas, ameaças, e mesmo quando suas profecias se cumpriram, o que era para ser a maior alegria da vida de um profeta, se tornou no seu maior fardo de dor. Depois que a primeira leva de prisioneiros foi levada de Jerusalém os generais babilônicos promoveram um terrível cerco à cidade. Já não bastasse a fome intramuros de Jerusalém que levava mulheres a cozinhar os próprios filhos para comer, quando os generais de Nabucodonosor terminaram o cerco e derrubaram os muros da cidade, o templo foi destruído, mulheres, velhos e crianças foram brutalmente assassinados, o sangue escorria pelas valetas, o rei foi cegado depois de ver seu filho sendo degolado na sua frente e os que sobreviveram foram obrigados a uma marcha humilhante de mais de oitocentos quilômetros pelo árido deserto até a Babilônia. Quando os portões da Babilônia se abriram, como um raio em um céu cinzento, e os antigos cativos viram a longa coluna de novos cativos que passavam sob os portões de Ishtar, os velhos deportados se juntaram aos novos para chorar Jerusalém em um pranto sem esperança, compartilhando a notícia de que a cidade fora incendiada, seus muros destruídos e de que o Templo de Salomão fora saqueado e estava em ruínas. Mesmo cativos na Babilônia, os israelitas não ouviram palavras de vingança de Jeremias, ele não apontou o dedo a ninguém jogando na cara que estava certo, tampouco alimentou um levante ou uma insurgência, na verdade, ele não pode encorajar seu povo a retornar para casa, mas mais uma vez levantou sua voz, agora com ternura e consolação, para adverti-los a construírem casas e constituírem famílias mesmo em uma terra estranha, porque, por setenta anos, aquele lugar seria também os seus lares. Muito do que Jeremias passou está registrado no livro que leva seu nome e no livro de Lamentações:
 
Prouvera a Deus a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos, em uma fonte de lágrimas! Então, choraria de dia e de noite os mortos da filha do meu povo. Sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim.
Por essas coisas, choro eu; os meus olhos, os meus olhos se desfazem em lágrimas; porque se afastou de mim o consolador que deveria restaurar a minha alma.
Já se consumiram os meus olhos com lágrimas, turbada está a minha alma, o meu coração se derramou pela terra, por causa do quebrantamento da filha do meu povo; pois desfalecem os meninos e as crianças de peito pelas ruas da cidade.
Jazem em terra pelas ruas o moço e o velho; as minhas virgens e os meus jovens vieram a cair à espada; tu os mataste no dia da tua ira; degolaste-os e não te apiedastes deles.
Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do seu furor. Ele me levou e me fez andar em trevas e não na luz. Fez envelhecer a minha carne e a minha pele, quebrantou os meus ossos.
Até os chacais abaixam o peito, Dão de mamar a seus filhos; mas a filha do meu povo tornou-se cruel como os avestruzes no deserto.
As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhe de alimentos na destruição da filha do meu povo.
Forçaram as mulheres em Sião; as virgens na cidade de Judá.
Jeremias 9:1; 20:7; Lamentações 1:16; 2:11, 21; 3:1-4; 4:3, 4, 10; 5:11 
 
     Jonas, um exemplo de fugitivo do destino, quando já conformado de que não tinha escape, também sentiu a esmagadora sensação que um destino indigesto traz “e desejou com toda sua alma morrer, dizendo: melhor me é morrer do que viver.” (Jonas 4:8).
     O próprio Deus aparece na Bíblia como um juiz que determina o juízo sobre povos e nações. O próprio inferno foi por Ele criado para destinar para lá os pecadores, certo de que haveria habitantes para este lugar. De fato, “não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha, os seus passos.” (Jeremias 10:23). “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia mal.” (Provérbios 16:4).
     Seria prolixidade estender os exemplos, pode-se citar apenas como menção os casos de Judas que tinha como Destino trair Jesus, ou o próprio Jesus mesmo, que tinha como destino ser esmagado pela fúria e pela violência de uma crucificação. Há ainda registros onde Deus levanta nações para levar seu juízo a Israel ou mesmo a outras nações, como se lê em Isaías capítulo 10, onde é profetizada a ruína da Assíria, dentre outros casos.
Mas, ainda assim, o fato é que Deus não é o autor do mal. É evidente a dificuldade encontrada neste ponto, e ela não é exclusiva desta investigação que o leitor tem em mãos, mas este é um problema que ocupa os teólogos desde tempos remotos, assim como atormentou filósofos em diversas épocas, como Leibniz, Voltaire, Kant, Pascal, Unamuno, Hannah Harendt...       As grandes perguntas a serem respondidas são: Qual é a finalidade do mal no mundo? Como pode Deus ser bom e o mal existir no mundo? Como o mal pode ter uma função como parte do mundo? O apóstolo Paulo foi confrontado por filósofos epicureus quando esteve em Atenas, segundo o registro de Atos 17:18. Os epicureus eram discípulos do filósofo Epicuro, o qual é autor de um paradoxo sobre o problema do mal. O paradoxo de Epicuro começa com a premissa de que o mal existe e segue com algumas perguntas para as quais as respostas implicam ou conclusões contra Deus ou novas perguntas, conforme se segue: O mal existe.  Deus sabe que o mal existe? Se não, então ele não é onisciente, mas se sabe, Deus pode acabar com o mal? Se não, então ele não é onipotente, mas se pode, Deus quer acabar com o mal? Se não, então ele não é bom, mas se quer, então por que o mal existe? Se for para testar as pessoas, como poderia ele sendo onisciente já não saber os resultados e precisar testar as pessoas? Se for culpa de Satanás, sendo ele onipotente e bondoso, teria acabado com Satanás. Se for por causa do livre arbítrio, Deus poderia ter criado um universo com livre arbítrio e sem o mal? Se sim e não o fez, então ele não é bom. Se não, então ele não é onipotente. Foi com essa escola que Paulo foi confrontado.
 
E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição.
 
     A Filosofia é um trabalho árduo quando se encara os problemas de frente como eles se apresentam e há a determinação de não fugir deles. Se Deus sustenta toda a realidade e nada existe fora dele, sendo ele o sustentáculo último de tudo que é possível e também impossível, como pode existir não só o mal, mas Satanás? Se nenhuma criatura, nenhum aspecto da realidade poderia existir por si, se autogerando, à parte de Deus, em quê está, então, sustentada a possibilidade e a existência tanto do mal quanto de Satanás? Como encontrar sentido para a vida abraçando um destino se justamente esse destino pode trazer consigo a mais aterradora angústia e tristeza? Covardia e procrastinação são os impulsos a serem evitados agora. Por conveniência, a atenção será por hora mantida no problema do mal, e o conflito entre um destino de sofrimento e a busca por um sentido em tais condições será abordado na parte final desta obra.
 
HÁ UMA TRADIÇÃO FILOSÓFICA que trata do mal como uma contingência, uma contingência sem sentido, o mal, portanto, é a ação e o fato desprovido de qualquer sentido, o que Agostinho chamava de privatio boni. O mal é visto como uma privação do bem, da finalidade no sentido do télos aristotélico, a paixão para a qual todo ser se direciona. O mal seria, portanto, a ausência de finalidade, de bem e de sentido. É como alguém que pega um bebê pelo calcanhar e bate a cabeça dele em uma pedra: não há sentido, não há uma finalidade ontológica, não há um bem, só uma completa ausência de significado.
     Deus, como um Deus justo, bom e santo, não é apontado na Bíblia nem em seu encadeamento lógico como o autor do mal. Em verdade, a Bíblia não dá uma resposta definitiva e satisfatória, ela não explica qual é a origem do mal nem em que ele está sustentado. Se Deus sempre foi Santo e Bom, a antítese deste bem seria o mal, que só existiria teoricamente, como o contrário dos atributos divinos. Aqui se pisa em ovos, qualquer coisa que se diga no sentido de apontar a origem do mal é temerária, é preciso muita cautela com as especulações.
     Visto que há coisas que a Bíblia não diz, é nas coisas que ela diz, então, que as respostas devem ser procuradas. Quando da criação, conforme criava, Deus mesmo revia sua criação e sempre chegava à mesma conclusão, conforme se lê em todo o relato bíblico da criação: “E viu Deus que era bom.” (Gênesis 1:10, 12, 18, 21, 25).
     A avaliação só muda quando ele cria o homem, e, sendo ele a coroa de toda a criação, assim está escrito: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1:31). Daí Paulo ter escrito em I Timóteo 4:4 que “toda criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar.”.
 
[1]Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017. Pág. 54.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 25/03/2020
Alterado em 08/05/2020
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