Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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O SENTIDO DA VIDA

     O encontro de uma razão para viver, de um sentido para a vida, de um significado para a existência é o que propõe Viktor Frankl em sua Logoterapia, também endossada neste artigo. Todavia, o encontro de sentido não significa o fim do sofrimento, tanto o é, que os prisioneiros do campo de concentração encontravam sentido para continuar lutando e ainda continuavam prisioneiros, continuavam sofrendo. O sentido não anula a dor. É a falta de sentido que a intensifica e a torna insuportável. É a atitude diante do sofrimento que faz toda a diferença. Um exemplo dessa postura é registrado por Viktor Frankl, que conta a história de um médico durante uma guerra:
 
Durante a primeira guerra mundial um médico militar judeu estava sentado em uma trincheira ao lado de seu amigo não judeu, um coronel aristocrata, quando começou um bombardeio pesado. Com tom zombeteiro disse o coronel: “Você está com medo, não é mesmo? Aí está uma prova de que a raça ariana é superior à semita”. “É verdade, tenho medo”, respondeu o médico, “mas quem é superior? Se você, caro coronel, estivesse com tanto medo quanto eu, já teria fugido há muito tempo”. O que importa não são os temores e ansiedades enquanto tais, mas a atitude que adotamos diante deles. É essa atitude que é escolhida livremente.[1]
 
     O destino pode ser ele mesmo uma vida de sofrimento, uma vida de dor. Já foi dito antes que deveria ser o destino despido de qualquer aspecto lírico ou romântico e passar a ser visto em sua crueza. A esta altura, o sentido para a vida pode ser encontrado mesmo nas mais terríveis circunstâncias, e o destino a ser abraçado pode ser terrível e carregado de lágrimas, mesmo assim com significado. Não foi, por acaso, o que Jesus fez quando abraçou o seu cruel destino? Ele se entregou a uma morte violenta e sabia do grande sentido que todo o sofrimento que passou trazia consigo. Um soldado que se dispõe a correr o risco de ser alvo de rajadas de metralhadoras com o intuito de conseguir cortar pelo menos um único fio de arame no afã de abrir caminho para que, se preciso for, o resto do seu exército avance pisando sobre o seu corpo estraçalhado e do outro lado finque a bandeira da vitória, é também mais um exemplo de alguém que abraça seu destino e o sofrimento que vem com ele dando a isso um profundo sentido e significado. Quantos não são os que sofrem injustiças, perseguições e risco de morte por acreditarem no que fazem? Quantos não são os que estão dispostos a dar a própria vida por aquilo que acreditam, por abraçarem seus destinos? “Não devemos jamais esquecer que podemos descobrir um sentido na vida mesmo quando nos vemos numa situação sem esperança, na qualidade de vítimas sem nenhuma ajuda, mesmo quando enfrentamos um destino que não pode ser mudado”. [2]
     É, pois, possível encontrar sentido para a vida não importando quais sejam as circunstâncias. Pode-se viver com a coluna vertebral inclinada em prostração, mas com o espírito altivo e certo do que se veio fazer aqui. Há um propósito até mesmo no sofrimento. Como se lê na carta de Paulo aos Hebreus, houve heróis que “da fraqueza tiraram forças”. Muito da força de quem encontra sentido em meio ao sofrimento se deve à perda das ilusões deste mundo, a um elevado nível de espiritualidade e transcendência, a uma certeza de que o que o que realmente importa é o que a eternidade reserva. Quando o propósito existencial é encontrado, o ser o abraça com tanto vigor que não hesita em dar a vida por ele. Acaso não era o que se via no Coliseu quando os cristãos eram devorados pelas feras e ainda assim não negavam sua fé? Tais pessoas...
 
Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
Hebreus 11:34-38
 
     Esse fato do espírito humano ajuda a explicar, também, porque o conforto do mundo moderno é apontado como causa dos altos índices de suicídio. As facilidades da tecnologia tiraram do homem muitas de suas ocupações, colocando-o em uma inércia, em um ócio que em nada ajuda o sentimento de dignidade e de utilidade, sempre tão caros ao espírito humano. A sociedade moderna conta como luxo, como vantagem e até como uma propriedade material o tempo vago, o tempo dedicado a não se fazer nada. Esse tempo inutilizado pode causar uma neurose bem específica, a “neurose da desocupação”, como foi chamada pela primeira vez em 1933 por Viktor Frankl. A inutilidade que aterra o ser humano traz malefícios ao seu espírito e acaba por desencadear a perda do sentido da vida, ratificando que a posse de bens ou de tempo livre não basta para trazer significado à existência.
 
A sociedade afluente deu a vastos segmentos da população os recursos, mas as pessoas não conseguem perceber um objetivo, um sentido para o qual viver. Acresce que vivemos em uma sociedade do ócio. Cada vez mais as pessoas têm mais tempo livre, não há nada que possua um sentido pelo qual valha a pena gastá-lo. Tudo isso leva à conclusão óbvia que, na medida em que o homem economiza tensões e empenho, ele perde a capacidade de suportá-los. Nós vivemos em uma época em que o homem não necessita caminhar — ele toma um carro. Ele não necessita subir escadas — ele toma o elevador.[3]
 
     Daí os altos índices de suicídio em países que não sofrem com desemprego, com fome ou com violência, em países que desfrutam de um amplo acesso à tecnologia de ponta, onde justamente essa tecnologia amplia o tempo livre e torna desnecessário o esforço humano. Há até bem poucos anos, se alguém quisesse falar com outro alguém, deveria procurá-lo em sua casa, poderia não encontrá-lo e ter de voltar em outra oportunidade e, por mais que isso possa parecer cansativo ao homem moderno, a humanidade viveu assim por milênios, até que, há poucas décadas, o telefone digamos “facilitou” a vida, de forma que hoje pode-se falar com quer que seja sem se levantar do sofá da própria casa. Jerry Mandel escreveu sobre isso:[4]
 
A tecnologia privou-nos da necessidade de fazer uso de nossas capacidades de sobrevivência. Desenvolvemos um sistema de bem-estar o qual garante que podemos sobreviver sem fazer nenhum esforço no próprio interesse. Do momento em que apenas 15% da força de trabalho de uma nação poderia, de fato, prover às necessidades de toda a população graças ao emprego de tecnologia, devemos então enfrentar dois problemas: quais 15% deveriam trabalhar e como os demais enfrentarão o fato de não serem necessários, com a consequente perda do sentido de suas vidas.
 
     É o significado que estrutura emocionalmente uma pessoa, que determina como ela reage diante do conforto e do sucesso e diante da dificuldade e da derrota. É notável, por exemplo, a diferença da reação diante da morte entre pessoas que têm uma espiritualidade ativa, uma religiosidade na vida e as que são materialistas e descrentes de qualquer vida após a morte. Estas entram em desespero, ficam aterrorizadas, desmaiam de pavor e precisam até serem sedadas; aquelas sentem conforto, tranquilidade e nutrem a certeza de que o que acabou foi apenas a existência terrena. O homem não é, definitivamente, uma mera construção que o reducionismo moderno faz dele, o homem transcende em muito a simples matéria, a simples quantificação, ele é um ser espiritual, transcendental. Há uma história contada por Frankl na obra que vem sendo referenciada que ilustra bem o que tem sido feito do homem moderno:
 
...um rabino foi consultado por dois fiéis. Um sustentava que o gato do outro havia roubado e comido dois quilos e meio de manteiga, enquanto o outro negava. “Tragam-me o gato”, ordenou o rabino. Eles o trouxeram. “Agora tragam a balança.” Trouxeram-lhe a balança. “Quantos quilos de manteiga o gato comeu?”, perguntou ele. “Dois quilo e meio, rabino”, foi a resposta. Então o rabino pesou o gato e viu que ele tinha exatamente dois quilos e meio. “Aqui está a manteiga” falou o rabino, “mas onde está o gato?”.
 
     Viktor Frankl já observou há tempos que os corações andam ardendo em busca de sentido e que uma das principais causas de desespero e angústia atualmente é justamente o que os existencialistas e niilistas queriam: uma vida sem propósitos, uma existência sem significado, vazia e jogada ao acaso: “... vejo no status de best-seller do meu livro não tanto uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro”.[5]
Eis que é a posse de um sentido para a vida que pode fazer a diferença entre a vida e a morte, principalmente para aqueles que enfrentam uma profunda crise de depressão.
 
Há casos de indivíduos que cometem suicídio levados pela depressão e há casos de outros que conseguem vencer o impulso suicida por amor de uma causa ou de uma pessoa. Esses últimos estão demasiadamente comprometidos, por assim dizer, para que possam suicidar-se.[6]
 
     Em meio ao caos do mundo moderno, buscar transcender a terrificante experiência diária é um desafio constante que tortura quem assim o queira. Um mundo sem transcendência, sem espiritualidade, sem sublimação, sem significado e sem sentido, proporciona e torna todos inclinados para aquilo que Paulo chamava de “obras da carne”: ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções, invejas, embriaguez, orgias, libertinagem (Romanos 8:5). É essa relação terra-terra que achata os dias na mais esmagadora e torturante forma de vida. Mesmo ansiando subir um grau na forma de existência, a experiência diária é como dezenas de pares de mãos que insistem em puxar de volta ao chão quem quer que intente uma sublimação, tal qual um caranguejo que tenta fugir do balde e é agarrado pelos outros.
     Há meios de convivência tão maçantes que o único assunto capaz de entrar na roda de conversas é aquele referente a outras pessoas. O que sente quem tem seus calcanhares agarrados enquanto tenta escapar? No espírito, é como um travesseiro sendo posto sobre o rosto, sufocando e causando desespero. Na mente, é como uma mão apertando o pescoço. Ou apertando o cérebro mesmo, obrigando-o a uma forma pequena, impedindo-o de crescimento e expansão. No corpo, é uma tortura constante, um balançar irritante, uma opressão tão acachapante que provoca vontade de chorar, como um pássaro que é sabedor da existência de um horizonte infinito e da brisa que o pode tocar enquanto plaina em direção à linha desse horizonte, mas que se vê preso dentro de uma gaiola. Em meio a uma existência terrificante e deprimente, a linha que separa uma vida contemplativa de uma sufocante é muito tênue. O tempo todo, dardos inflamados são disparados contra as almas que insistem em transcender a vivência materialista, carnal e terrificada. A mesquinharia, a baixeza e a futilidade encontram fundo na vivência de um dia a dia prático, imediatista, onde quaisquer exercício mental ou tentativa de transcender o banal é visto como um delírio sem sentido algum, como um conhecimento sem a menor utilidade prática ou como uma atividade que não oferece nenhuma recompensa em troca.
     O nivelamento é sempre feito por baixo: fracassados ensinam quem os cerca a fracassar, a mediocridade se torna invisível, imperceptível. Mesmo as formas de vida mais pequenas se veem como exemplos de conduta e moralidade tão altos a ponto de enxergar a si mesmas como exemplos a serem seguidos. A estupidez é amálgama do fracasso.
     O desprezo à sublimação do espírito esmaga o ser em uma forma de vida laboriosa, penosa e escrava. Depressão é ainda pouco diante de uma realidade que devora almas e trucida espíritos. Como manter a sublimação do espírito em um mundo caótico que esmaga o ser com sua fealdade, mediocridade e baixeza é um desafio diário. As ocupações práticas sugam energia sem preencher o espaço deixado, a transcendência e o exercício de uma vida dedicada à cultura do espírito, ao contrário, oferecem energia. A espiritualidade, a arte, a Filosofia, a alta cultura, elevam o ser a dimensões mais altas.
 
A FALTA DE SENTIDO na vida se relaciona com outros males além do suicídio, os quais não deixam de estar imbricados, seja nos sintomas e causas, seja no contexto geral do mundo moderno no qual tais males se proliferam. É sabido que um dos maiores males que acometem os seres na presente época é a depressão. Sua etiologia varia, no caso da depressão endógena, a depressão é uma psicose de origem somática, com causas advindas de fatores bioquímicos (desregulação hormonal) e orgânicos (hereditariedade) e, no caso dessa psicose em particular, a falta de sentido na vida se apresenta como um sintoma.
     Já as neuroses podem ter como causa fatores psicogênicos (psicodinâmicas, condicionamento, aprendizagem), sociogênicos e noogênicos (de nous, atividade do intelecto ou da razão, capacidade de ordenamento, de dar sentido, intuição que capta verdades fundamentais. Difere do pensamento lógico, científico ou discursivo). No caso da depressão neurótica, a etiologia é noogênica e a falta de sentido na vida é uma das causas. A falta de sentido pode trazer como sintoma não só a depressão, mas também a toxicodependência e a agressividade. Ouça-se, em bom momento, um psiquiatra e também psicólogo sobre o assunto:
 
Junto aos fatores noéticos e psicológicos, também os somáticos estão envolvidos na etiologia das doenças mentais. Ao menos na etiologia das psicoses (mais do que nas neuroses) a bioquímica e a hereditariedade têm certa importância, ainda que a maior da sintomatologia seja de caráter psicogênico.[7]
 
     Em seu estágio mais avançado, a depressão leva ao desejo de suicídio, quando não ao seu cometimento. Viktor Frankl identificou que a maioria das pessoas que procuravam seu consultório à procura de psicanálise tinha uma característica em comum, bem específica e peculiar: haviam perdido o sentido da vida. Haviam já encontrado Caronte e cruzado o portão onde estava escrito: ”Deixai toda esperança, vós que entrais”.[8]
     O neuropsiquiatra e psicólogo austríaco fundou a escola psicoterápica vienense da Logoterapia e da Análise Existencial. Viktor Frankl, que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, quando lá estava, se ocupou de conversar com os outros prisioneiros e constatou que o que os mantinha vivos, o que lhes dava forças para continuarem lutando, era uma razão para viver, um motivo para continuar lutando. Assim se lê no prefácio da edição americana de 1984 do Best-seller de Viktor Frankl, Em Busca de Sentido, escrito pelo professor de psicologia de Harvard Gordon W. Allport:
 
O escritor e psiquiatra Viktor Frankl costuma perguntar a seus pacientes quando estão sofrendo muitos tormentos grandes e pequenos “por que não opta pelo suicídio?” É a partir das respostas a esta pergunta que ele encontra, frequentemente, as linhas centrais da psicoterapia a ser usada. Num caso, a pessoa se agarra ao amor pelos filhos; em outro, há um talento para ser usado, e, num terceiro caso, velhas recordações que valem a pena preservar. Costurar estes débeis filamentos de uma vida semidestruída e construir com eles, um padrão firme, com um significado e uma responsabilidade... [9] [é ao que se propõe a Logoterapia].
 
     Mesmo nas condições mais extremas, vendo pessoas morrerem de fome, crianças, mulheres e velhos sendo executados a todo o momento ou caindo pelos cantos de inanição, sentindo o cheiro de carne queimada que vinha das chaminés e testemunhando até casos de canibalismo, havia algo que fazia com que os prisioneiros não esmorecessem. O desejo de reencontrar um familiar quando tudo acabasse, de abraçar um parente distante, enfim, havia algo que dava sentido a esses prisioneiros. Quando Frankl foi libertado e retomou suas atividades, inventou o método da Logoterapia, reconhecido e mundialmente adotado na psicanálise. Frankl contou que quando constatava que o paciente havia perdido a razão de existir lhe fazia a seguinte pergunta: “Qual é a coisa que só você e absolutamente mais ninguém pode fazer?”. O tratamento consistia em fazer, num primeiro momento, o paciente reconhecer que a vida tem um propósito, e num segundo momento, ajudar o paciente a encontrar o propósito de sua própria existência, um sentido para sua vida. Frankl não desenvolveu seu método baseado somente em livros ou com cobaias, ele mesmo viveu o que propunha como saída, segundo escreveu Allport:
 
Prisioneiro durante longo tempo em campos de concentração, onde seres humanos eram tratados de modo pior do que se fossem animais ele se viu reduzido aos limites entre o ser e o não-ser. O pai, a mãe, o irmão e a esposa de Viktor Frankl morreram em campos de concentração ou em crematórios, e exceto sua irmã, toda sua família morreu nos campos de concentração. Como foi que ele — tendo perdido tudo o que era seu, com todos os seus valores destruídos, sofrendo de fome, do frio, e da brutalidade, esperando a cada momento a sua exterminação final — conseguiu encara a vida como algo que valia a pena preservar?[10]
 
     Antes de Frankl, Jung já havia reconhecido como causa das angústias de seus pacientes a falta de um sentido para a vida:
 
A raiz do problema consiste em ir o indivíduo egocêntrico alheando-se progressivamente da fonte espiritual da vida: a nossa dificuldade, no fundo, é de caráter religioso. Quase todos os seus pacientes acima da meia-idade, conta-nos Jung, padecem de falta de propósito ou sentido, causada por falta de convicção religiosa ou de vida espiritual. O ego e acha aprisionado entre a sua própria parede estreita, e a fonte da vida vai secando.[11]
 
     A Logoterapia se fundamenta em três alicerces: liberdade de vontade, vontade de sentido e sentido da vida. A liberdade de vontade diz que o ser humano pode ter o controle de sua vida, respeitados os limites das possibilidades. A vontade de sentido é tida como a principal força motriz de uma vida, a busca pela realização dos objetivos, a motivação pela qual se acorda de manhã e se põe os pés no chão. Por sua vez, o sentido da vida é uma realidade objetiva, não um aspecto psicológico, sendo que cada situação clama ao ser para que ele realize o seu propósito e dê sentido a cada momento. O que a Logoterapia propõe aos pacientes é que eles sejam autônomos para darem significado a todos os momentos da vida, porque, como dizia Nietzsche, “Quem tem por que viver pode suportar qualquer como.”.
     Seria necessário manipular tendenciosamente a Filosofia frankliana para trazê-la para perto da ideia de um destino. Honestamente, não foi a existência do destino que Frankl defendeu, mas, como existencialista que era, foi a liberdade do homem em dar sentido à sua vida, muito embora em sua principal obra ele tenha por diversas vezes falado em destino, tendo inclusive escrito um tópico com o título O destino – Um Presente, onde se lê nas primeiras linhas:
 
Da maneira com que uma pessoa assume o seu destino inevitável, assumindo com esse destino todo o sofrimento que lhe impõe, nisso se revela, mesmo nas mais difíceis situações, mesmo no último minuto de sua vida, uma abundância de possibilidades de dar sentido à existência.[12]
 
     Mas se há alguma estrada onde destino e Logoterapia se cruzam é quando, justamente, se trata de um sentido para a vida. Pessoas que vivem por viver, afundadas nos mais obscuros recônditos do niilismo existencialista são as mais propensas a distúrbios psicológicos. Quem perde o sentido da vida, perde a razão de existir, perde o motivo para continuar respirando, perde a força de lutar, perde o sorriso no rosto e pode, no mais extremo dos casos, tirar a própria vida.
 
O SENTIDO DA VIDA está intrinsicamente ligado à finalidade existencial do ser, às respostas para as perguntas que acertam em cheio quem experimenta o vazio existencial: por que eu vim ao mundo? O que eu estou fazendo aqui? Trazendo para este ponto o conceito já explicado e examinado da Extarquia, será ela a referência na busca da finalidade existencial. Uma analogia entre a finalidade existencial e uma semente parece agora bem oportuna: Uma semente de uma árvore não pode ser outra coisa, nada impedindo seu desenvolvimento natural, senão uma árvore, sendo que a semente é uma árvore em potência, aristotélicamente falando. Da mesma forma, uma pedra ou um ovo não podem ser uma árvore, é necessário que a árvore em potência já seja, também, uma árvore em essência, antes de vir à existência.
     Sendo a semente uma árvore em potência e em essência, ela só atingirá a sua finalidade existencial se estiver no lugar certo, nas condições favoráveis e de acordo com as leis que sustentam as possiblidades de sua existência. Uma árvore só atinge sua finalidade quando suas raízes se alimentam dos nutrientes do solo e suas folhas se alimentam da luz solar; não se planta uma árvore em cima de um metal, tampouco há vegetação nas nuvens. Jesus mesmo considerou esse princípio em uma parábola:
 
Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram. Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda. Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes. Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram. Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um.
Mateus 13:4-8
 
     Assim como a semente é lançada no solo para que seja o que é em essência e potência, assim também o ser é lançado no tempo certo, no lugar certo, na época certa, com a exata Extarquia para que ele atinja a finalidade de sua existência, sendo a potência desse ser parte da sua essência já dantes sustentada, aliás, eterna. Aristóteles chamava essa propriedade de télos, do grego fim, objetivo, finalidade. Na Filosofia aristotélica a potência se movimenta em direção ao seu télos.
     Assim como a semente não pode vir a ser outra coisa senão uma árvore, assim também o ser não será outra coisa senão o que a Extarquia condiciona e determina que seja, bem como, ele não alcançaria jamais a finalidade de sua existência sem uma Extarquia que preparasse as condições para esse fim. Não fosse assim, ficaria o ser perdido em uma realidade acidental desprovida de qualquer propósito. No entanto, observando-se a realidade, nada se vê nela sem finalidade, nada existe por acaso, apenas por existir, tudo tem um propósito, uma utilidade, uma finalidade, um télos. Até mesmo as criações humanas, como os objetos que cercam as pessoas no dia a dia, tudo que é fabricado, é fabricado para um fim, e não é diferente com a existência de um ser, a existência não é sem propósito e sem finalidade. Tomás de Aquino no capítulo 1 do livro III da Suma Contra os Gentios escreveu:
 
Ora, as coisas produzidas pela vontade do agente, cada uma delas é ordenada por ele para o fim, pois o bem e o fim são o objeto próprio da vontade. Por isso, as coisas que procedem da vontade ordenam-se para o fim. Mas cada coisa atinge o seu fim mediante a sua própria ação, ação essa que deve ser dirigida para o fim por aquele que deu às coisas os princípios de sua ação.
 
     É por isso que a Extarquia é a força que dirige ao fim, fim esse que foi estabelecido pelo agente criador, de sorte que é o próprio ser que caminha na direção desse fim. Ao experimentar, assim, a sensação de livre arbítrio, o ser caminha por si mesmo para o fim para o qual foi criado, de acordo com a Extarquia que restringe e delimita as possiblidades de suas ações e o arrasta para o seu destino, como o movimento de uma semente na direção de sua potência, desenvolvendo-se no tempo até tornar-se uma árvore.
     A vinda à existência de um ser não é um evento acidental, desprovido de qualquer propósito, sem nenhum significado e sentido. A vida humana é sustentada por Deus, trazida à realidade por ele, e tem sua finalidade e significado ditados por aquele que é o sustentador de toda a realidade. Há um propósito em cada existência e estar aqui é não só um privilégio que Deus, em seu amor, concedeu, mas uma honra. É um privilégio ter sido pensado e sustentado pelo próprio Deus, que traçou desde a eternidade um plano para cada vida. Os planos absolutos de Deus não podem ser frustrados, tudo o que ele planejou para cada existência se realizará, ainda que não sejam compreendidos os caminhos pelos quais a vida conduza os seres. Deus sempre está no controle. Deus nunca abandona ninguém ao léu nessa jornada. Tudo o que Deus planejou para uma existência, cedo ou tarde, a seu tempo, se concretizará. “Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” (Isaías 55:9). “Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que esperais.” (Jeremias 29:11).
 
O DESTINO DE UMA existência não é algo a ser romantizado, não é intrinsecamente algo nobre e glorioso, ele pode residir em um pequeno gesto, em uma pequena atitude ou em uma palavra em determinada curva da vida, mas que será determinante para mudar a vida de alguém, a vida uma família, a vida de uma nação ou mesmo a história da humanidade, ou talvez também nada disso, talvez seja algo completamente anônimo e sem notabilidade alguma para o resto do mundo. Seja qual for o destino que a vida reserva, seja qual for a dor que a vida traz, a vida sempre vale a pena ser vivida, afinal, não é por acaso que alguém vem à existência, não é por acaso que os destinos se cruzam, não é por acaso que este livro chegou a tuas mãos.
     Quanto à oposição entre destino e livre arbítrio, se o destino fosse um único aspecto da realidade, ele não seria percebido, não receberia nem mesmo o nome de destino. Ainda que com as demonstrações feitas neste livro o livre arbítrio tenha adquirido uma concepção bem mais limitada, é ele, justamente o oposto do destino, que torna o destino perceptível. Só é possível discutir sobre o destino admitindo-se, já nas bases mesmas do problema, a existência do livre arbítrio, por mínimo que seja. Tais aspectos da realidade não são excludentes; eles são articulados.
     O destino existe adjunto à essência do ser. Para que ele se manifeste na existência, o ser precisa vir a existir, e uma vez existindo, o ser toma decisões e faz escolhas, sob certo aspecto valendo-se do seu arbítrio, e é justamente essa liberdade que o ser experimenta que está contida dentro do seu destino e também o conduz diretamente para os fatos mais remotos de sua finalidade existencial, ao mesmo tempo em que a Extarquia condiciona cada momento de sua existência.
     Observar a Extarquia, as pistas que a vida deixa pelo caminho, as ideias que fazem o coração arder, as inclinações naturais da alma, os sorrisos que a vida dá, tudo pode dizer muito sobre qual é o destino de uma existência. Como diria José Ortega y Gasset no livro Meditações de Quixote, “Eu sou eu e minha circunstância”, ou seja, a realidade que cerca o ser não deve ser desprezada, não importa o quão feia, pequena ou insignificante pareça, antes deve ela ser vista como um aspecto constituinte do próprio ser. Abraçar o destino que se apresenta aplaca o vazio de uma vida sem sentido, e, ainda que ele traga consigo dias de lágrimas, há um significado para continuar seguindo em frente. Era a esse apego às circunstâncias que Nieztsche chamava de Amor Fatis, o amor ao destino. É claro que há nesse pensamento uma aproximação ao pensamento estoico, justamente no sentido de viver uma vida serena diante das coisas que não podem ser mudadas, diante do destino traçado pelo Logos Divino que ordena todo o universo com um propósito. Foi essa filosofia que levou grandes homens a abraçar e amar seus mais variados destinos, homens como Marco Aurélio, imperador romano, Sêneca, senador romano, amigo do apóstolo Paulo e conselheiro de Nero, e Epicteto, um escravo, que resolutamente a partir dessa condição construiu sua filosofia. As obras deixadas por esses grandes homens pretendem ensinar um modo de viver uma vida feliz diante de qualquer destino.
     Eis uma tarefa individual, cada ser precisa encontrar por si mesmo o seu destino, até mesmo porque é temerário apontar o destino de alguém, essa é uma busca pessoal, da mesma forma como o logoterapeuta não pode apontar ao paciente o sentido de sua vida, como Frankl dizia:
 
É claro que um logoterapeuta não pode dizer a um paciente o que é um sentido, mas pode ao menos demonstrar que na vida existe um sentido, que ele é acessível a qualquer pessoa e, o que mais conta, que a vida conserva seu sentido em qualquer situação. Ela permanece literalmente cheia de sentido até seu último instante, até o suspiro final.[13]
 
     Eis exatamente o que o destino com sua soberania é: um sentido para a vida, o sentido, o propósito da existência, a finalidade. Toda a investigação feita até aqui foi mais do que tentar identificar a existência do destino, foi uma busca pela razão de existir, uma busca pelos meios de se encontrar um significado para a existência. É isso que o destino traz, finalidade, propósito e sentido. Como disse Ortega y Gasset,
 
Todo ser é feliz quando cumpre seu destino, ou seja, quando segue a vertente de sua inclinação, de sua necessidade essencial; quando se realiza, quando está sendo o que verdadeiramente é. Por essa razão dizia Schlegel, invertendo a relação entre prazer e destino: “Para o que gostamos, temos gênio”. O gênio, ou seja, o dom supremo de um ser para fazer algo, sempre traz consigo uma fisionomia de supremo prazer... o destino de cada um é, ao mesmo tempo, sua maior delícia.[14]
 
     O sofrimento e as dores da vida sempre estarão presentes, mas não do modo pessimista como visto pelos existencialistas, mas como um contrário heraclidiano, que permite que a felicidade e a alegria sejam percebidas. Se a felicidade fosse perene, ela seria imperceptível, porque não haveria um contrário, um sentimento opositivo para tornar a percepção possível. Assim, o que se experimenta na vida não é a felicidade plena e constante, mas, momentos felizes, não é a alegria permanente, mas, momentos alegres. Assim como também não é o sofrimento pleno que se experimenta de forma perene e permanente na vida, mas sim, momentos de dor! E é justamente isso o que acaba por fazer dos momentos felizes algo que se quer eternizar, momentos nos quais a prece que se faz é para que o tempo pare. Quem olha para um bebê e recebe dele um olhar de volta com um sorriso, sabe bem a riqueza que contém um momento e como a alegria e a felicidade, na maioria das vezes, estão nas coisas mais banais do dia a dia, coisas que não são planejadas, mas que acontecem de repente.
     Quando Frankl percebeu que havia perdido tudo e não lhe restava mais nada além de sua “existência nua e crua”, ele fez a seguinte descrição:
 
Primeiro surge uma fria e distante curiosidade de saber o próprio destino. Depois surgem estratégias de preservação do que resta da vida, apesar das chances de sobreviver serem pequenas. Fome, humilhação, medo e profunda raiva das injustiças são dominadas graças às imagens sempre presentes de pessoas amadas, graças ao sentimento religioso, a um amargo senso de humor e até graças às visões curativas de belezas naturais – uma árvore ou um pôr-do-sol.[15]
 
[1]Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017.Pág. 52.
 
[2]Ibidem. Págs. 41,42.
 
[3]Ibidem. Pág. 99.
 
[4]Ibidem. Pág. 23.
 
[5]Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Prefácio do autor. Tradução de Carlos C. Aveline. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017. Prefácio do autor.
 
[6]Frankl, Viktor E. Um Sentido Para a Vida: Psicoterapia e Humanismo. Tradução de Vitor Hugo Silveira Lapenta. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2005. Pág. 60.
[7]Ibidem. Pág. 21.
 
[8]Aleghieri, Dante. A Divina Comédia. Inferno. Canto III, 9.
 
[9]Frankl, Viktor. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Prefácio de Gordon W. Allport. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017.
 
[10]Ibidem.
 
[11]Smith, Wolfgang. A Sabedoria da Antiga Cosmologia. Tradução de Adriel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes. Campinas-SP: Vide Editorial, 2017. Pág. 167.
 
[12]Frankl, Viktor. Opus Citatum. Pág. 51.
 
[13]Frankl, Viktor E. Um Sentido Para a Vida: Psicoterapia e Humanismo. Tradução de Vitor Hugo Silveira Lapenta. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2005. Pág. 43.
 
[14]Ortega y Gasset, José. O Que É Filosofia? Tradução de Felipe Denardi. Campinas-SP: VIDE Editorial, 2016. Pág. 16.
 
[15]Frankl, Viktor. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Prefácio do autor. Tradução de Carlos C. Aveline. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 02/05/2020
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