Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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A FILOSOFIA DEVE SER ENSINADA A QUAISQUER IDADES?

O POTENCIAL DESTRUTIVO QUE uma filosofia pode carregar consigo ajuda em muito a explicar porque a Filosofia sempre foi tratada com cautela desde os seu primórdios. Há um motivo bem arrazoado para não haver crianças nem adolescentes ao redor de Sócrates, mas apenas homens maduros. Há um motivo bem arrazoado para Platão não ter a porta de sua academia aberta ao público em geral. As tradições orientais sempre alertaram para a necessidade de um mestre que conduza o iniciante em seus aprendizados. Quando um novo universo de pensamentos é apresentado, o perigo está tanto no apresentador quanto no iniciado, este precisa ouvir aquele com compromisso de obediência e aquele precisa mostrar os perigos a este; qualquer um que falhe em sua atribuição condena o iniciado ao desastre. As plantas venenosas precisam ser etiquetadas, é preciso alertar sobre os abismos nos quais a queda é fatal, é preciso advertir-se sobre a profundida das águas. Filosofia não é coisa para crianças ou mentes imaturas: pode-se envenenar a alma de uma pessoa escolhendo-se a dedo algumas filosofias perniciosas e dois ou três dos seus autores; a morte da alma é lenta, mas garantida, o veneno não tem sabor, mas cumpre o que promete.
     Dessa forma, é uma displicência descomunal a maneira como as ciências humanas são tratadas por grande parte das universidades. Há uma rigidez que cobra exatidão e disciplina de áreas que formam profissionais que com seus erros podem causar vítimas fatais, como um cirurgião, que com seu erro pode matar o paciente, ou como um engenheiro, que com seu erro pode condenar um prédio ao desmoronamento, matando vários moradores. Tem-se a ideia de que os alunos de ciências humanas não precisam ser tão rigidamente treinados porque ao saírem da sala de aula com seus diplomas não vão construir edifícios nem manusear bisturis em blocos cirúrgicos. Por isso, estão os alunos livres para criticarem tudo o que bem quiserem, para construírem suas próprios concepções filosóficas, para darem opiniões sobre qualquer assunto, para criarem sugestões revolucionárias, para conceberem ideias de como mudar o mundo..
     O quadro é ainda mais amplo. As universidades não se propõem a ensinar os alunos a filosofar, ou, no melhor dos cenários, não dão a atenção devida a esse aspecto, mas tão somente ensinam, antes, coisas sobre a Filosofia, ou seja, sua historicidade, seus autores, suas bibliografias, análises textuais e as maneiras de como transmitir essas ideias a alunos (no caso das licenciaturas). Ainda assim, há alunos que, ao se apossarem de seus diplomas, alimentam dentro de si a ilusão de que por conhecerem coisas sobre a Filosofia ou por estarem habilitados a ensiná-la a adolescentes, estão formalmente investidos de uma autoridade intrínseca para se manifestarem criticamente sobre todo e qualquer aspecto da sociedade. Isso quando não chegam ao extremo de verem a si mesmos como filósofos, colocando-se no mesmo patamar de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Leibniz e Edmund Husserl, comprovando que nada entenderam sobre a Filosofia em si mesma, ignorando por completo que filósofo não é um título acadêmico. Ora, o que Platão aprendeu com Sócrates foram apenas coisas sobre Filosofia? O que Aristóteles aprendeu com Platão na Academia durante vinte anos foi apenas a ler diálogos? De forma alguma, eles foram ensinados e treinados para serem filósofos, foram talhados para viver, praticar e fazer Filosofia.
     A Filosofia não deveria ser tratada com tamanho desdém. Mesmo não ocupando profissões que colocam vidas em risco, ensinar Filosofia, mesmo que seja a simples comunicação de pensamentos de filósofos, exige cautela e responsabilidade, e sem os devidos alertas e advertências, essa ocupação pode levar ao envenenamento e à morte. Um médico e um engenheiro estão capacitados para impactar o mundo positivamente e realizarem grandes feitos; se porventura cometerem algum erro em seus ofícios, esses erros serão bem pontuais e restritos à abrangência de suas ações. A filosofia, por sua vez, não tem a mesma praticidade e aplicação material, todavia, quando um erro é cometido nessa área, ele não se reduz a um ponto nem fica restrito em seu alcance, é extensível a todos os cantos do mundo e a todos as épocas que virão depois. Se uma filosofia assassina for absorvida pela cultura filosófica então, ela será lembrada, cultivada e ensinada, geração após geração, até o fim dos tempos. O mundo pode ficar marcado com uma ferida purulenta que nunca mais vai deixar de sangrar quando a Filosofia é usada com displicência ou deliberadamente como ferramenta para fazer o mal. Foi o que aconteceu, por exemplo, no caso do nazismo, no caso do comunismo e em todas as revoluções que banharam nações em sangue; mas também continua acontecendo neste exato momento, quando filosofias mefistofélicas estão fazendo vítimas usando como ferramentas o relativismo, o existencialismo ou o niilismo, condenando o mundo atual a uma epidemia de depressão, à perda do sentido da vida e a uma onda nunca antes vista de suicídios.
     Não há nessa análise nenhuma dramaticidade descabida e nenhuma retórica vazia de significado. O exemplo do Japão corrobora essa ideia: Em 1998, os casos de suicídios no Japão aumentaram drasticamente em relação ao ano anterior, principalmente devido a uma conjunção bem específica de circunstâncias: a cultura samurai, assim como o estoicismo, vê no suicídio uma saída honrosa para uma realidade vergonhosa. Pois bem, uma crise financeira deixou muitos pais de família desempregados; não conseguir sustentar a própria família os encheu de vergonha e desonra. O resultado dessa conjunção podia ser facilmente percebido pela movimentação nos cemitérios. Em 2002, o Ministério da Saúde japonês decidiu implementar medidas preventivas que envolvessem aspectos não só de saúde mental, mas também psicológicos, sociais, culturais e econômicos, percebendo que a profunda desesperança e perda de sentido da vida tinham causas que transcendiam em muito os fatores sanitários, percebendo que as causas deveriam ser combatidas em frentes muito diferentes das que até então ficavam restritas à atuação medicinal. Contudo, tais medidas não foram além de recomendações, com parcos resultados efetivos. Foi em 2005, quando o assunto começou a ser tratado como tema multiministerial que o assunto virou uma das principais diretrizes do Estado japonês. O problema passou a ser enfrentado diretamente pelo Gabinete do Primeiro Ministro e, no ano seguinte, o parlamento aprovou a Lei de Prevenção do Suicídio. O suicídio já não era mais uma questão restrita à saúde pública, mas abrangia todos os aspectos da vida do cidadão japonês, desde a educação e a cultura até o urbanismo e o lazer. Em 2012, as taxas de suicídio já alcançavam níveis históricos, os mais baixos registrados em 22 anos!
     Os japoneses se deram conta de algo fundamental: todas as guerras e revoluções aconteceram e acontecem primeiro no campo das ideias para só depois se materializarem em campos de batalha. Muito antes das metralhadoras alemães MG-42 fatiarem uma multidão de soldados aliados nas praias da Normandia, o nazismo já estava concebido como uma ideia, como uma filosofia. Filosofia é coisa séria e exige tanta responsabilidade quanto a exigida para se pilotar um avião, não é coisa para ser alcançada irresponsavelmente a pessoas imaturas, irresponsáveis e inclinadas ao mal. Ensinar Filosofia implica habilitar formalmente pessoas que irão depois desenvolver ciências, correntes filosóficas e teorias políticas ou, no mínimo, irão espalhar as ideias que tendenciosamente lhe foram ensinadas e, ainda que tudo isso pareça puro exercício teorético e abstrativo, há milhões de vidas que podem ser dizimadas quando um erro é cometido nessa atividade ou quando ideias assassinas e venenosas são postas em taças e oferecidas como se fossem os mais finos licores.
     A Filosofia sempre andou lado a lado com a história, hora esta determinando aquela, hora aquela ditando esta. É claro que nem todas as ideias presentes no decorrer da história podem ser chamadas de Filosofia, algumas estão mais para antifilosofias ou mesmo “misosofias”, mesmo assim, todas articularam-se com a história em consequências intrincadas. Segundo Mário Ferreira dos Santos, para que uma filosofia seja mesmo Filosofia, é necessário que se atenda a três requisitos: ter um “ponto arquimédico”, um discurso coerente e uma ética coerente a esse discurso, o que de fato não se vê em muitas ideias tratadas como Filosofia.
     Quando a Grécia Antiga era ainda composta de cidades-Estado, independentes e autônomas, a Filosofia era voltada para uma vida dentro dessas cidades, a vida nas Pólis, o que deu origem ao termo “Política”. Quando Alexandre solidifica seu império e há uma transculturalização entre os costumes e pensamentos da Pérsia, da Babilônia, do Egito, da Índia, enfim, de todos os cantos do império, a filosofia que surge não é mais voltada ao regionalismo de uma cidade, mas voltada a todo o mundo então conhecido. O homem deixa de ser um cidadão da cidade para ser um cidadão do mundo, um “cosmopolita”. O helenismo é o resultado da integração entre os povos promovida por Alexandre. Umas das principais filosofias surgidas nesse período foi o estoicismo, filosofia que via o destino como parte de uma ordem cósmica, ensinava a viver uma vida feliz diante de qualquer realidade que assalte o ser durante sua existência, além de abordar como nunca antes nem depois o tema da morte como um destino inescapável. Talvez o fato de Alexandre ter morrido tão jovem, apenas três anos após ter erguido seu vasto império, tenha influenciado esse pensamento estoico.
     O estoicismo tinha tudo para ser uma grande filosofia, mas não a é; não só por seu panteísmo, mas principalmente por sua maneira de enxergar o suicídio. Os principais filósofos estoicos se suicidaram: Cleantes enforcado, Sêneca cortou os próprios pulsos, Zenão, o pai do estoicismo, suicidou-se por abstinência alimentar. Há em uma carta de Sêneca, Sobre a Providência Divina, um trecho onde um deus se dirige à humanidade, um trecho onde o autor expõe com clareza essa particularidade estoica, a ideia de que diante de um sofrimento sobremaneira esmagador e insuportável o suicídio é uma saída viável, natural e até mesmo honrosa:
 
Mas acontecem muitos sobressaltos tristes, horríveis, duros de se aguentar.
Como não podia afastar-vos deles, armei vossos espíritos contra todos: suportai bravamente. Nisto vós estais à frente de um deus: ele está à margem do sofrimento dos males, vós, acima do sofrimento.
Desprezai a pobreza: ninguém vive tão pobre quanto nasceu. Desprezai a dor: ou ela terá um fim ou vos dará um. Desprezai a morte: a qual vos finda ou vos transfere. Desprezai o destino: não dei a ele nenhuma lança com que ferisse o espírito.
Antes de tudo, tomei precauções para que ninguém vos retivesse contra a vontade; a porta está aberta: se não quiserdes lutar, é lícito fugir. Por isso, de todas as coisas que desejei que fossem inevitáveis para vós, nenhuma fiz mais fácil do que morrer.
Coloquei a vida num declive: basta um empurrãozinho. Prestai um pouco de atenção e vereis como é breve e ligeiro o caminho que leva à liberdade.
[...]
A isso que se chama morrer, esse instante em que a alma se separa do corpo é breve demais para que se possa perceber tão grande velocidade: ou o nó apertou a garganta, ou a água impediu a respiração, ou a dureza do chão arrebentou os que caíram de cabeça, ou a sucção de fogo interrompeu o respirar; seja o que for, voa. Por acaso enrubesceis?
Passa rápido o que temestes tanto tempo!
 
     Infelizmente, as imbricações Filosofia-História e ideias-consequências são desprezadas quando se apresenta aos jovens uma filosofia. É em uma fonte de morte que os jovens têm bebido, é esse cálice infernal que tem sido a eles oferecido como sendo o topo do processo evolutivo e o ápice do conhecimento humano. São os jovens as principais vítimas do vazio existencial, principalmente devido à decadência das tradições, algo que eles veem com grande satisfação e não hesitam em promover, como comprovado por estatísticas.
 
Quanto à função atribuída à decadência das tradições, encontro algumas confirmações de convalidação na tese de láurea defendida na Universidade da Califórnia por Diana D. Young. Ela pôde provar, a partir de testes elaborados estatisticamente, que os jovens sofrem o vazio existencial mais que os velhos. Desde que é sempre nos jovens que se nota um declínio mais pronunciado das tradições, tal resultado sugere a ideia que exatamente o desmoronamento das tradições seja o fator mais importante para explicar o vazio existencial.[1]
 
     Quando se trata de ideias maliciosas com consequências mortais, o enfretamento não deve se dar no campo do debate, com argumentos, com obediência às  regras da lógica, como se a ideia fosse resultado ou ao menos parte de uma investigação em busca da verdade. Deve-se de pronto denunciar o mal e apontar as consequências. Entrar no debate é conferir uma nobreza que a ideia não tem, muito menos aquele que a reverbera. Quem mata não são as ideias como tal, mas quem as divulga e põe em prática. As ideias podem ser abstratas mas as consequências são concretas. Não são necessariamente as ideias venenosas que precisam ser refutadas, suas consequências é que precisam ser denunciadas e freadas. Isso nada tem a ver com atacar uma pessoa por um erro ético ou um tropeço moral, é a propagação pública de culturas genocidas e ideias mortais que faz urgente o enfrentamento.
     Há ideias malignas que por si mesmas dispensam debate ou refutação. Um comunista pode ser trucidado em um debate e ter todos os seus argumentos refutados, ainda assim continuará disseminando suas ideias e quando possível colocará em prática sua cartilha assassina. Quando vinha ao conhecimento de Stalin que alguém na União Soviética estava apresentando oposição ao comunismo, ele não chamava o cidadão para ouvir suas ideias e tentar vencer o debate, mandava-o matar de imediato, afinal, a intenção nunca foi vencer o debate. Muitos dos 20 milhões de mortos pelo regime comunista da União Soviética podem ter tombado com argumentos devastadores ao comunismo na ponta da língua.
     Há certas discussões que podem ser recusadas, outras há que devem necessariamente ser recusadas. Discussões ou debates em torno de opiniões podem ser recusados simplesmente para se poupar energia. Se alguém alega como justificativa para dizer que dois mais dois são cinco o fato de ela ter direito de ter a opinião que quiser, demonstrar-se que dois mais dois são quatro pode ser uma tarefa muito cansativa e irritante, ainda mais quando a mais simples intuição natural já demonstra por si qual é a verdade.
     Uma ação maliciosa, ofensiva e prejudicial, por sua vez, dispensa necessariamente uma exposição de argumentos segundo os rigores da lógica. Alguém que tem sua mãe ofendida não pode se dispor à postura polida e bem educada de apresentar um dossiê com documentos e registros biográficos a fim de demonstrar que o agressor está errado no que afirma. Foi por isso que Jesus não chamou os ladrões do templo e os admoestou com carinho e citações bíblicas que condenavam o mercantilismo da fé; Ele marcou com o chicote os lombos dos mercadores. Churchill não intimou Hitler para um debate sobre o nazismo; ele enviou seus tanques e metralhadoras para combater e parar o exército nazista, não para refutar uma ideia. Em certas circunstâncias, primeiro se prende preventivamente, depois se conhece os argumentos da defesa. Neste contexto, quando é dito que as ideias são assassinas, o que se está dizendo é uma figura de linguagem, especialmente quando se tratarem de ideologias[2]. Neste caso, o mal se efetiva pela ação direta de terceiros através de ações físicas e materiais. Quem matava os judeus não era o nazismo, eram soldados nazistas fardados. Quem matava os ucranianos de fome no Holodomor não era o comunismo, eram os soldados soviéticos. Quem guilhotinava cabeças durante o Período do Terror não eram os ideais da Revolução Francesa enquanto tais, eram os jacobinos e os revolucionários.
 
Calar-se diante do atacante desonesto é uma atitude tão suicida quanto tentar rebater suas acusações em termos “elevados”, conferindo-lhe uma dignidade que não tem. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o “ataque pessoal” quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava  que não se pode debater com quem não reconhece – ou não segue – as regras da busca da verdade. Os que querem manter um “diálogo elevado” com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do “ataque pessoal”, se recolhem ao que imaginam ser um silencio honrado, entregando o terreno ao inimigo.[3]
 
     Ideias que causem consequências malignas também não devem necessariamente ser debatidas, são as consequências que precisam ser evidenciadas e demonstradas para que tanto o mal quanto os propagadores sejam parados. Concordar em debater uma ideia que esteja envenenando pessoas é como ler o manual de instruções de  uma geladeira enquanto uma pessoa encostada nela está sendo eletrocutada. Neste contexto, quando se diz que as ideias venenosas são assassinas, é porque literalmente elas trazem consigo a potencialidade para envenenamento. Neste caso, o mal se efetiva no interior do ser, o mal corrói metafisicamente como ácido a alma do ser sem a necessidade de nenhuma ação física de terceiros vinda do exterior, a não ser, é claro, daquele que  em um primeiro momento formulou a ideia.
     É interessante que a crucificação de Jesus tenha sido apenas a manifestação material e temporal de um evento que já estava determinado desde a eternidade. É o que se lê em Apocalipse 13:8, texto que se refere a Jesus como o “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. Ora, assim como o que acontece no mundo material é apenas um reflexo do que já estava determinado no mundo espiritual, mutatis mutandis, o que acontece no plano histórico, aconteceu primeiro no plano das ideias. Quando armas são empunhadas por homens práticos, a guerra já havia sido determinada pela engenhosidade dos pensadores. Nunca se deve subestimar um filósofo ou um teórico político ou social, eles podem não ter nada de um soldado, podem até ser covardes a ponto de se esconderem embaixo de uma mesa ao ouvirem qualquer estampido, mas ainda assim podem ser determinantes para a deflagração de guerras, genocídios e revoluções sangrentas. Karl Marx morreu velho e gordo antes que pudesse ter qualquer notícia de pessoas morrendo de fome no Holodomor ucraniano ou comendo carne humana nos Gulags soviéticos. Mesmo sabendo o que estava fazendo, talvez ele não tenha imaginado que sua filosofia assassina alcançaria a façanha de fabricar mais de 100 milhões de cadáveres no século seguinte, distribuídos pelos quatro cantos do planeta. O epitáfio no túmulo de Marx denuncia o que sempre foi a sua intenção enquanto elaborava o genocídio em forma de sistema filosófico e arranjos lógicos: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras, enquanto que o objetivo é mudá-lo.” Se vivo estivesse, estaria orgulhoso tanto com o alcance quanto com os números alcançados pelo genocídio comunista.
     O zelo e o cuidado com as ideias que são difundidas e ensinadas, principalmente aos jovens, não devem de maneira alguma serem considerados nem confundidos com censura ou cerceamento da liberdade de pensamento. Sócrates e Platão não eram censores, eram prudentes e responsáveis. Há uma classificação indicativa em obras audiovisuais que indica a faixa etária para a qual determinado conteúdo é inapropriado. Não se ensina fórmula de Bháskara a alunos da quarta série. Ninguém exerce o direito de voto com menos de dezesseis anos. Ninguém dirige um automóvel antes dos dezoito. Há lugares onde a entrada de adolescentes é proibida. Ninguém pode ser eleito a qualquer cargo eletivo antes da maioridade. Há restrições quanto a lugares, quanto ao que pode ser visto, quanto a exercício de direitos, quanto ao que se pode beber, há uma proteção que envolve todos os aspectos do universo do adolescente, mas não há nenhuma restrição quanto às filosofias e às ideias que são apresentadas a essa faixa etária. A um adolescente de quinze anos pode ser apresentada qualquer filosofia, sem qualquer cautela, sem qualquer prudência, sem qualquer restrição. É claro que não há como controlar pensamentos, eles são a máxima expressão da liberdade humana, e quem apresenta as ideias o faz ainda com total aderência à legalidade. Por isso, a prudência no ato de apresentar filosofias aos jovens deve ser antes uma postura moral, uma atitude consciente e responsável, não uma imposição. De fato, nem tudo que é legal é justo e nem tudo que é injusto é ilegal. Se há tantos impedimentos legais que reconhecem a imaturidade dos jovens, como considerar que eles saberão distinguir entre informação e sugestão quando mergulharem em filosofias como a estoica? Como uma geração já à mercê da crise do mundo moderno que experimenta um elevado índice de casos de depressão e suicídio vai digerir a leitura de textos como o do estoico Sêneca, que faz explicitamente apologia ao suicídio?:
 
Na vida é como no teatro: não interessa a duração da peça, mas a qualidade da representação. Em que ponto tu vais parar, é questão sem a mínima importância. Pára onde queres, mas dá à tua vida um fecho condigno.
O sábio prolongará a sua vida enquanto dever, e não enquanto puder.
A vida agrada-te? Então, vive! Não te agrada? És livre de regressar ao lugar de onde vieste!
Nada de melhor concebeu a lei eterna do que, embora nos dando apenas uma entrada na vida, ter-nos proporcionado múltiplas saídas.
Um homem corajoso e sábio não deverá fugir da vida, mas sim sair dela.
Não há razão para pensar que apenas os grandes  tiveram a força necessária para romper as barreiras da servidão humana, não há motivo para pensar que um tal acto só está ao alcance de um Catão, que para exalar a alma abriu com as mãos a ferida que o punhal deixara estreita. Tem havido homens da mais baixa condição que num ímpeto de coragem alcançaram o porto seguro da morte: impedidos pelas circunstâncias de morrer tranquilamente, sem possibilidade de elegerem livremente o instrumento do suicídio, lançaram mão do que encontraram e, pela sua coragem, transformaram em armas objetos por natureza inofensivos. Não há muito, um dos Germanos destinados aos combates com as feras, enquanto se faziam no circo os preparativos para o espetáculo da manhã, retirou-se para satisfazer uma certa necessidade corporal – a única oportunidade que teve para estar sozinho, longe do olhar dos guardas; então agarrou num daqueles paus com uma esponja atada na ponta que se para limpar as imundícies e enfiou-o pela garganta abaixo, morrendo por asfixia. [...] podes ver como, para morrer, o único obstáculo que se nos põe é a vontade! Sobre o acto tão determinado deste homem cada um pode pensar o que quiser, desde que se assente neste ponto: é preferível o suicídio mais imundo à mais higiênica servidão.[4]
Para qualquer lado que dirigires o teu olhar, verás o fim dos males: vês aquele precipício? Dele se desce para a liberdade. Vês aquele mar, aquele rio, aquele poço? No seu fundo acha-se a liberdade. Vês aquela árvore?... dali pende a liberdade. Observas o teu pescoço, a tua garganta, o teu coração? Representam tantos outros meios de libertação da escravidão. Mostro-te saídas muito penosas, que exigem grande coragem ou força? Perguntas qual é o caminho da liberdade? Qualquer veia do teu corpo.[5]
UM RELATÓRIO ANUAL PUBLICADO em setembro de 2019 pela Organização Mundial da Saúde confirmou a eficácia do veneno metafísico que vem sendo servido ao mundo moderno: entre a faixa etária de 15 a 29 anos o suicídio é a principal causa de morte. As causas são variadas, o próprio relatório da OMS aponta o alcoolismo, a depressão, impulsos em momentos de crise, incapacidade de lidar com os problemas da vida, como o fim de relações, escassez de recursos, dívidas, dores agudas e doenças.[6] Todas essas causas apontadas pelo relatório são superficiais, no sentido de que falta profundidade: elas apontam a manifestação do mal, o florescimento de algo já enraizado na alma, não as suas origens, não as raízes.
 
 

[1]Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017. Pág. 24.
 
[2]O padre Paulo Ricardo explica o que é ideologia da seguinte forma: “A palavra "ideologia" carrega em si mesma um caráter negativo. Ela foi utilizada pela primeira vez por Napoleão Bonaparte, para acusar seus opositores. Posteriormente, ainda de maneira pejorativa, Karl Marx se apropriou da palavra definindo-a como "uma roupagem de ideias", ou seja, um modo de transformar aceitável algo que nunca seria tido como tal normalmente. A ideologia é um erro a respeito de princípios. Para se implantar uma ideologia é necessário alguns itens: a) que haja um erro de princípio; b) que haja uma classe de pessoas interessadas no erro; c) um grupo de ativistas, pessoas que estejam dispostas a trabalhar para que esse erro seja disseminado; d) um sistema educacional deteriorado para que a ideologia funcione.” Esse conteúdo é parte de um vídeo intitulado “O que é uma ideologia?”, que pode ser acessado no seguinte endereço: https://padrepauloricardo.org/episodios/o-que-e-uma-ideologia.
 
[3]Carvalho, Olavo de. O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota. Organização Felipe Moura Brasil – 27a ed. Rio de Janeiro-RJ: Editora Record LTDA, 2017. Pág. 418.
 
[4]Séneca, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Lisboa: Gulbenkian, 1991.  Págs. 328, 264, 267, 94, Carta 70, 19-21.
 
[5]Séneca apud Mondolfo, 1973. Pág. 161.

[6]O relatório pode ser conhecido no site das Nações Unidas Brasil no seguinte link: https://nacoesunidas.org/um-suicidio-ocorre-a-cada-40-segundos-no-mundo-diz-oms/.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 14/08/2020
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