Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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O VENENO METAFÍSICO DO MUNDO MODERNO
 
     O estado do mundo atual é periclitante. É um buraco pérfido, imundo e mortal para onde a humanidade foi empurrada pelas costas por ideias corrosivas e venenosas como o racionalismo cientificista, que nega qualquer realidade transcendental e espiritual, o relativismo, que nega a existência da verdade, o niilismo, que terrifica e materializa a existência, o ateísmo e o neoateísmo, que negam a existência de Deus e afastam a civilização de toda e qualquer espiritualidade, o subjetivismo, que coloca no pensamento a construção da realidade e da verdade, o existencialismo, que destrói o significado e o sentido da vida e coloca no homem uma liberdade que melhor se define como libertinagem, enfim, todas as filosofias levantadas na modernidade como novidades representantes do estado mais evoluído da mente humana. Tais ideias não tiveram necessariamente suas origens na modernidade, mas foram plantadas e germinaram como erva daninha na porta de entrada do mundo contemporâneo, e bastando deter nelas por poucos segundos o olhar, logo se percebe que elas têm as mãos sujas de sangue, o rosto desfigurado e saliva espumosa escorrendo pelo canto da boca.
     É interessante que o marco para o que os historiadores chamam de Idade Contemporânea, a época em que o mundo atual vive, seja a queda da Bastilha, um episódio de um movimento revolucionário onde cabeças rolavam pelas praças de Paris com uma banalidade absurda.
    
Para a sorte dos revolucionários, havia entre os membros da Constituinte um médico, Joseph-Ignace Guillotin, e foi justamente ele que, em uma expressão de fidelidade e comprometimento com a causa, trouxe um toque de “humanidade” à Revolução. Guillotin colocou à disposição do movimento revolucionário seus conhecimentos em medicina, adaptando uma antiga ferramenta de execução para que ela ficasse mais eficiente e cumprisse seu objetivo da forma mais “moderna” possível. Daí o nome guilhotina,[1] uma singela homenagem a um célebre revolucionário como forma de reconhecimento por sua minuciosa contribuição que, não obstante pequena e reservada a meros detalhes, era carregada de uma profunda noção de “humanidade” e eivada de uma louvável “cientificidade”. O instrumento de morte se tornou de tal modo popular na França revolucionária, que pequenas guilhotinas de brinquedo eram dadas como presente para as crianças. Mais amável se tornava o presente se junto com ele viesse já um passarinho para ser decapitado. Ora, seria mesmo uma crueldade não dar à criança a oportunidade de ver seu brinquedo funcionando. Pensando nisso, o sábio e iluminado espírito da época se pôs carinhosamente a imaginar maneiras de agradar as criancinhas francesas; não demorou muito até que bonecas fossem preenchidas com um líquido vermelho, assim, quando a guilhotina de mentirinha decapitasse a boneca, a criança poderia se maravilhar vendo o sangue escorrendo pelo pescoço da infeliz.
     No Período do Terror da Revolução Francesa, houve dias em que mais de cem decapitações aconteceram em Paris; considerando o dia de 24 horas, isso significa que a guilhotina desceu sobre um pescoço a cada quinze minutos! Se se levar em conta que durante a madrugada não havia execuções, esse intervalo fica ainda menor. Assim, quem quisesse assistir à cena de ver uma cabeça sendo separada da espinha, poderia se dirigir à praça da cidade e não esperaria mais do que dez minutos até que tivesse essa oportunidade. De quebra, poderia ainda acabar cruzando com algum revolucionário comendo carne humana em alguma calçada, não por fome, mas por selvageria mesmo. Claro que tudo iria depender do fio da guilhotina, pois mesmo com as adaptações precisas feitas pelos médicos “humanistas” da Revolução, o fio da lâmina cansava com o excesso de trabalho, o que poderia não ser uma cena muito agradável de ser assistida, pois por vezes, embora muito raras, a lâmina precisava ser baixada mais de uma vez até que o corte fosse terminado, afinal, alguns pedaços de pele e carne apegados a vértebras, músculos e nervos, eram insistentes em continuar prendendo a cabeça ao pescoço. Mas quando a cabeça era seccionada e caía no cesto, o espetáculo estava garantido: agora alguém poderia agarrar a cabeça decapitada pelos cabelos ainda com sangue pingando e levantá-la para mostrar à multidão; era uma convulsão de êxtase e histeria. Mas poderia ficar ainda melhor? Ah, sempre pode ficar melhor! Os melhores eventos eram aqueles nos quais ao invés de a lâmina descer sobre o pescoço de simples cidadãos comuns, eram exibidas as cabeças de padres, reis e rainhas; a exibição da cabeça recém separada do corpo da rainha Maria Antonieta, por exemplo, foi celebrada com gritos de euforia e a multidão foi ao delírio! Ironicamente, toda essa sangria foi em nome de uma luta por igualdade, ou, como diriam os franceses, “Egalité, Liberté, Fraternité”. Mais tarde, um dos líderes mais sanguinários da Revolução Francesa, Maximilliem Robespierre, acabou também experimentando do próprio veneno viperino, o fio da guilhotina. Ele mesmo que entoava o lema jacobino de que “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”!
 
Voltaire, quando bradava “esmagai a infame”, negava estar incitando quem quer que fosse à violência física contra a Igreja Católica. Mas, quando os revolucionários de 1789 saíram incendiando conventos, destripando freiras e decapitando bispos, era esse grito que ecoava nos seus ouvidos e saía pelas suas bocas.[2]
 
     A presunção iluminista chamava a época que a antecedeu de Idade das Trevas, colocando na Igreja o rótulo de obscurantista, absolutista e anticientífica. Para se denegrir e legitimar a perseguição à Igreja, era conveniente construir estereótipos que desfigurassem a maneira como era vista a vida na Idade Média, fazendo com que o Iluminismo, assim, fosse ainda mais “iluminador”, não pela sua própria luz em si, mas pela densidade das trevas que ele se pôs a iluminar. A estratégia é simples, passa pela proporcionalidade inversa: Para se alavancar o caráter e a dignidade de uma pessoa, não é preciso enobrecê-la em quantidade ou qualidade, basta compará-la com outras pessoas e desmoralizar essas que servem de parâmetro para a comparação. Há um historiador holandês, Johan Huizinga (1872-1945), que escreveu uma obra fundamental sobre o Período Medieval, O Outono da Idade Média, onde ele detalha como era a vida cotidiana naquela época. Consultando-se as mais de seiscentas páginas da obra de Huizinga, vê-se o quão gritante é a dissonância entre o estereótipo que foi criado pelo Iluminismo e o que o registro histórico conta acerca do Período Medieval:
 
Os grandes fatos da vida — o nascimento, o matrimônio, a morte — eram envoltos, por obra dos sacramentos, no esplendor do mistério divino. Mas também os menores — uma viagem, uma tarefa, uma visita — eram acompanhados de mil bênçãos, cerimônias, ditos e convenções. Contra as calamidades e as privações, havia menos lenitivos do que agora; e elas eram mais opressivas e cruéis. O contraste entre a doença e a saúde era maior; o frio severo e a escuridão medonha do inverno eram males mais pungentes. Honra e riqueza eram desfrutadas com mais intensidade, mais avidez, pois destacavam-se da pobreza e da degradação circundantes com maior veemência do que hoje. Um manto de pele, um fogo brilhante na lareira, bebidas, pilhéria e uma cama macia ainda conservavam aquele alto apreço pelos prazeres da vida, que o romance inglês soube perpetuar vividamente.
E todos os elementos da vida mostravam-se abertamente, com alarde e crueldade. Os leprosos chacoalhavam suas matracas e saíam em procissão, os mendigos lamuriavam-se nas igrejas e expunham suas deformidades.
Assim como o contraste entre o verão e o inverno era mais severo do que para nós, também o era o contraste entre a luz e a escuridão, o silêncio e o ruído. A cidade moderna praticamente desconhece a escuridão e o silêncio profundos, assim como o efeito de um lume solitário ou de uma voz distante.
E, numa sequência ininterrupta, as execuções. O fascínio cruel e a compaixão grosseira diante do patíbulo eram um elemento de peso na dieta espiritual do povo. Era um espetáculo da moral. Para crimes hediondos, a justiça inventara punições horríveis; em Bruxelas, um jovem incendiário e assassino foi acorrentado a uma estaca giratória no meio de um círculo de feixes de madeira em brasa. Com palavras comoventes, ele se apresentou como exemplo ao povo e tanto “enterneceu os corações, que todos se desfizeram em lágrimas de compaixão, e seu fim foi considerado o mais belo que jamais se vira”. Em 1411, o senhor Mansart du Bois, um armagnac, decapitado em Paris durante o regime de terror dos duques da Borgonha, não somente perdoou de bom grado o carrasco (como este lhe rogara, seguindo a tradição), como ainda pediu que lhe desse um beijo: “havia uma multidão, e quase todos choravam lágrimas cálidas”.
Quando o santo dominicano Vicente Ferrer vem pregar, o povo, os magistrados, o clero — dos bispos aos prelados — recebem-no com cânticos de louvor. Ele viaja com um séquito numeroso que todas as noites, depois que o sol se põe, circula em procissão com cantos e flagelações. A rotina de trabalho é interrompida quando ele faz seus sermões. Era raro que não levasse os ouvintes ao pranto; e, quando falava do Juízo Final, das penas infernais ou da Paixão de Cristo, tanto Ferrer como os ouvintes choravam tão copiosamente que ele era obrigado a se calar por um bom tempo, até que o pranto cessasse. Malfeitores se jogavam ao chão perante os presentes e confessavam em lágrimas seus grandes pecados.[3]
 
     O mais infame aspecto da campanha de difamação erigida pelos iluministas se refere à Inquisição, como se a Igreja caçasse “cientistas”, pesquisadores e estudiosos para queimar, simplesmente por discordar deles. Ora, a Inquisição durou quatro séculos em mais de vinte países diferentes e condenou cerca de 20 mil pessoas. Em uma época em que pessoas eram condenadas à morte sem nenhuma chance de defesa, a Inquisição veio justamente para dar ao acusado a chance de se defender, de expor sua versão dos fatos. Mais ainda, a Inquisição só tinha jurisdição sobre membros da Igreja Católica, e ao acusado era dada a oportunidade de confessar seu erro e corrigir sua heresia, sendo que, se assim o fizesse, ele era perdoado e nada lhe acontecia. Somente se o acusado se recusasse a uma retratação e insistisse na heresia, ele era entregue ao braço secular do Estado para que esse, e não a Igreja, executasse a pena capital. O mundo contemporâneo se mostra estarrecido com a Inquisição, mas faz vista grossa para o fato de que em um único ano da Revolução Francesa (1793-1794) cerca de 20 mil pessoas foram assassinadas, sendo a maioria esmagadora guilhotinada. Um único ano, um único país. Isso supera proporcionalmente em muito os quatro séculos da Inquisição que instalou tribunais em mais de vinte países. Assim se vê o sucesso da campanha difamatória empreendida pelos iluministas, não é por ignorância que tais fatos são escamoteados, é por pura malícia mesmo. Atualmente, o assassinato foi banalizado, só no Brasil, em apenas um ano, chegou-se a registrar mais de 60 mil homicídios! Mesmo assim, os quatro séculos em que funcionou o Tribunal da Santa Inquisição na Idade Média são tidos como a terrível Idade das Trevas, como se hoje o mundo fosse tão iluminado pelo racionalismo quanto um sol, a ponto de se ter que olhar para ele espalmando a mão como sombreira para não se ter os olhos ofuscados por tão irradiante brilho!
     Outro evento erroneamente atribuído à Idade Média é a Caça às  Bruxas, que aconteceu já na Idade Moderna e nada tem a ver com o Tribunal da Santa Inquisição. O livro Malleus Maleficarum, conhecido como O Martelo das Bruxas, foi escrito em 1487 por Heinrich Kramer e James Sprenger. Ele prescreve como identificar, capturar e exterminar uma bruxa, receitando a fogueira como morte eficaz para que ela não volte à vida. O Malleus foi proibido pela Igreja Católica, inserido no Codex Librorum Pohibitorum, e seus autores foram excomungados da Igreja. Mesmo assim, o Martelo das Bruxas foi impresso várias vezes e continuou sendo usado por séculos, especialmente pelos calvinistas reformados. Enquanto na Inquisição a confissão resultava em perdão e evitava a pena capital, na Caça às Bruxas a confissão era arrancada por meio das mais variadas e terríveis torturas, seguindo as recomendações e receitas  do próprio Malleus Maleficarum, o que dificilmente dava chances para que alguém escapasse das labaredas das fogueiras.
     Poderiam então as Cruzadas conferir escuridão á Idade Media?  Seriam os cruzados assassinos conquistadores que levavam a morte e a destruição a lugares distantes em nome da Igreja, da Fé e de Cristo? A resposta é que as cruzadas não foram um ataque gratuito aos povos islâmicos. Os muçulmanos já haviam, séculos antes das cruzadas, precisamente desde o Século VIII, tomado quase toda a Península Ibérica, depois de já terem dominado o norte da África, escravizando os europeus. Jerusalém estava em posse dos muçulmanos e eles haviam proibido o acesso e a visita de qualquer cristão aos lugares sagrados. A expansão árabe tratou primeiro de espalhar a escravidão entre os negros da África subsaariana, onde escravizaram cerca de 17 milhões de negros. O antropólogo senegalês Tidiane N’Diaye escreveu recentemente um livro intitulado Le Génocide Voilé (O Genocídio Ocultado), onde desvenda um assunto até pouco tempo evitado, a escravização muçulmana. Segundo o antropólogo, os escravos eram castrados e apenas 1 a cada 5 sobreviviam ao procedimento. Segundo N’Diaye, que também muçulmano, era justamente nisso que residia o genocídio, pois essa operação determinava a extinção da raça negra nos países para onde eram levados como escravos.[4] Esses países incluíam todo o mundo árabe, a Pérsia, a Turquia, a Índia e, desde que sobrevivessem à travessia do deserto do Saara, eram também levados para o norte da África, Argélia, Tunísia, Marrocos, Líbia e Egito. Quando se voltaram em direção à Península Ibérica, os exércitos muçulmanos que espalharam o terror na Europa e escravizavam europeus eram já compostos por árabes, mouros do norte da África e por negros da África subsaariana convertidos ou forçados a se converterem ao islã, pois “quem se submetesse ao Islão poderia teoricamente escapar da escravidão”. Quando já em território europeu, os muçulmanos escravizaram os europeus e enviaram as mulheres europeias para alimentar os haréns dos sultões árabes. “O Alcorão nunca proibiu a escravidão. Ao contrário, muitas passagens do Alcorão incentivavam a escravidão de não muçulmanos”. Só depois de séculos de ataques, mortes e destruições como nunca dantes vistos na Europa, é que os estados eclesiásticos tomaram uma atitude para manter viva a herança da civilização greco-romana e para defender  a existência do cristianismo. A Europa já havia testemunhado a selvageria dos vikings, já havia sangrado nas mãos dos hunos, já havia sido dominada pelo Império Romano, mas nada se comparava ao que os muçulmanos faziam. Quanto à conversão à fé islâmica, não havia opção, ou aceitava-se ou perdia-se a vida; na melhor das hipóteses, o infiel tinha de viver à margem da sociedade, na condição de sub-humano, isso se não fosse feito escravo. As cruzadas surgiram como uma resposta à agressão muçulmana, séculos depois de os invasores incendiarem cidades, destruírem igrejas, escravizarem pessoas, assassinarem cristãos e transformarem milhares de europeias em escravas sexuais.
     Quando, tanto os revolucionários e iluministas franceses se voltavam contra a Igreja acusando-a de perseguidora e assassina, omitiam o fato de que antes da oficialização da religião cristã pelo Imperador Teodósio I em 380 d.C., os cristãos eram perseguidos pelo Império Romano, queimavam como fogueiras vivas nos jardins de Nero, eram mortos com cera quente, decapitados com espada, exilados em ilhas selvagens para morrerem, imersos em tonéis com óleo fervente, crucificados, apedrejados, mastigados pelos leões no coliseu. Ainda hoje, cristãos são executados nas mãos de extremistas islâmicos e regimes comunistas. Os cristãos são um dos povos mais perseguidos do mundo, sendo sempre um dos primeiros a serem mortos quando há uma revolução. Eles amargaram, desde seu advento, milhares de vítimas e, ainda assim, não é raro encontrar quem acuse a Igreja de  ser violenta e persecutória.
     Os iluministas omitiam mais: a Igreja Medieval foi a responsável pela criação das primeiras universidades do mundo, ensinando nelas inclusive medicina, o chamado Período da Medicina Monástica, e isso porque a Igreja foi a responsável durante séculos pelos hospitais, chegando a ter em muitas de suas catedrais e mosteiros um hospital anexo,  além de ser a única instituição a manter leprosários. Conforme escreveu o professor Felipe Aquino (2018) em seu livro A História Que Não Foi Contada,  onde surgia um mosteiro, ali também surgiam escolas, hospitais, abrigos para os estrangeiros e postos de socorro para os órfãos e os pobres.
     Quando diante dos ataques dos iluministas  e revolucionários franceses a Igreja ficou em silencio, condenou não só muitos de seus membros à guilhotina, mas permitiu que manchassem de tal forma sua imagem que até hoje o iluminismo é visto como o auge da razão e o medievo como o império da escuridão liderado pelo cristianismo.
 
Foi tão pesada a carga de invencionices, chacotas, lendas urbanas e arremedos de pesquisa histórico-filológica que se jogou sobre a Igreja Católica que os padres e teólogos acabaram achando que não valia a pena defender uma instituição venerável contra alegações tão baixas e maliciosas. Resultado: perderam a briga. O contraste entre a virulência, a baixeza, a ubiquidade da propaganda anticatólica e a míngua, a timidez dos discursos de defesa ou contra-ataque, marcou a imagem da época, até hoje, com a fisionomia triunfante dos iluministas e revolucionários. Pior ainda: recobriu-os com a aura de uma superioridade intelectual que, no fim das contas, não possuíam de maneira alguma.[5]
 
     Não deveria causar admiração, portanto, o fato de o século XX prosseguir com a matança banalizada pela Revolução Francesa. O advento de novas ideias revolucionárias, como o nazismo e o fascismo, transformaram o mundo em um grande cemitério a céu aberto, um banquete farto e convidativo para os urubus e os vermes da terra.
     Quando se soma às duas grandes guerras mundiais os mortos pelo comunismo, a quantidade alcança proporções estratosféricas. Mas ainda mais interessante é que nos regimes comunistas o grosso do morticínio aconteceu em tempos de paz! Tempos em que não havia guerra declarada, não estavam nem em campanha de expansionismo nem estavam sendo invadidos por forças estrangeiras. Não, definitivamente, não. Era o regime que matava seus próprios cidadãos desarmados! E o fazia em nome, justamente, da paz! Aliás, no século passado, pouco importava se os tempos eram de guerra ou eram de paz, pois...
 
 É só nominalmente que guerra significa morticínio e paz significa tranquilidade e segurança. As guerras, no século XX, mataram 70 milhões de pessoas. É muita gente. Mas 180 milhões, mais do que o dobro disso, foram mortos pelos seus próprios governos, em tempo de paz e em nome da paz.[6]
 
     O livro negro do comunismo, já nas primeiras páginas, registra os números das mortes causadas por essa ideia assassina:
 
Podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
 
-URSS, 20 milhões de mortos,
-China, 65 milhões de mortos,
-Vietnã, l milhão de mortos,
-Coreia do Norte, 2 milhões de mortos,
-Camboja, 2 milhões de mortos,
-Leste Europeu, l milhão de mortos,
-América Latina, 150.000 mortos,
-África, l,7 milhão de mortos,
-Afeganistão, 1,5 milhão de mortos.
 
O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos. Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. É incontestável que, em valor relativo, o "troféu" vai para o Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz — a fome, a tortura — aproximadamente um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto à Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, porém perfeitamente refletido, lógico, político.[7]
 
     Tantas mortes. Tudo em nome de uma ideologia. Em nome de um regime. Em nome de uma causa. Uma causa que prometia justiça social, esperança, igualdade, um mundo melhor e mais humano...
 
A mais criminosa ilusão da modernidade foi persuadir os homens de que podem enobrecer-se mediante a identificação com uma “causa”, quando na verdade, todas as causas, enquanto nomes de valores abstratos, só adquirem valor concreto pela nobreza dos homens que a representam.[8]
 
     Conquanto o comunismo hoje já não seja mais uma ideologia, mas uma cultura, toda essa mortandade, que vem desde a modernidade e adentra a contemporaneidade, teve suas origens em ideias. Ideias que parem e amamentam assassinos. Mas, tão perigosas quanto as ideia revolucionárias são as ideias metafísicas, há tempos elas vêm matando as almas e espalhando a morte de uma maneira sorrateira, silenciosa e quase imperceptível.
     Os exemplos se esparramam por todo o século XX como um rastro de pólvora que alcança o estopim nos dias atuais e arremessa aos ares cadáveres já em estado de putrefação. Além de todas os embustes metafísicos citados ao longo deste livro, pode-se citar ainda Jean-Paul Sartre, um grande literato e um dos maiores exponentes do existencialismo, autor de O Ser e o Nada (1943), que dizia que “a existência precede a essência”, ou seja, não há nenhum sentido na vida e no mundo, o homem em sua liberdade é que faz o que quiser fazer e constrói a seu bel-prazer a sua essência. Não há nenhuma determinação que conceba uma moralidade, não existe nenhum destino, nenhuma essência sustentada no Logos divino, nem mesmo uma natureza humana existe, até porque como Deus também não existe, logo não existe também nenhum construtor para essa tal natureza humana. O ser, livre e solto, se torna o senhor da história em um mundo sem tutor e sem sentido. Eis o surgimento de mais uma filosofia voltada para o próprio umbigo: pode-se fazer o que der na cabeça, o que dá prazer, nada é proibido, tudo é lícito, a liberdade é que conduz a existência e nada nem ninguém pode deter a manifestação da vontade. Que façam-se ouvidas agora as palavras do próprio Sartre:
 
Eu emerjo só e com pavor no rosto do único e primeiro projeto que constitui meu ser: todas as barreiras, grades, colapsam, aniquiladas pela consciência de minha liberdade; eu não tenho, nem posso ter, recurso a qualquer valor contra o fato de que sou eu que mantenho valores no Ser; nada pode assegurar-me contra mim mesmo; arrancar-me do mundo e da minha essência pelo nada que eu sou, eu tenho de imaginar o sentido do mundo e minha essência: eu decido, sozinho, injustificável, e sem desculpa.[9]
 
     Sobre Sartre e seu existencialismo, assim escreveu o filósofo inglês Sir Roger Scruton, falecido poucos meses antes da publicação desta obra, considerado um dos maiores autores conservadores desde Edmund Burke:
 
Ao mesmo tempo, os escritos de Sartre são charmosos, mefistofélicos, seduzindo o leitor com um tipo de graça diabólica em direção ao altar do Nada, onde tudo que é humano é lançado às chamas. Nada vive na prosa de Sartre, exceto a negação, mas esta negação é multiforme, lírica e atraente. Ela pode jorrar em lances de surpreendente beleza, ou rosnar ameaçadora; às vezes, é como o clarão de uma bomba atômica sobre toda a humanidade, mas repentinamente se torna obscura, secreta e sem sentido.[10]
 
     Há ainda o exemplo do argelino Albert Camus, que com sua Filosofia do Absurdo já havia descrito a existência como um absurdo e feito o paralelo entre a existência e o “Trabalho de Sísifo”. Quando os deuses foram ofendidos por Sísifo, segundo a mitologia grega, eles o condenaram a um penoso e repetitivo trabalho, carregar uma enorme e pesada pedra até o alto de uma montanha na terra dos mortos. Acontece que, uma vez concluído o trabalho, a pedra sempre insistia em rolar até o ponto onde estava antes e, assim, lá se ia Sísifo de novo, e de novo, e de novo, sofrendo, cansando, enlouquecendo. O trabalho de Sísifo é um trabalho repetitivo e sem sentido, assim como a vida descoberta sem nenhum significado intrínseco. Segundo Camus, a vida é mesmo absurda e sem nenhum sentido. O absurdismo enxerga um paradoxo entre uma humanidade que busca sentido e um mundo que não tem nenhum sentido em si mesmo a oferecer.
     Tanto Camus quanto Kierkegaard chegaram ao ponto de construir uma filosofia que ela sim deveria ser chamada de absurda. Como alguém dedica seu intelecto a compor sinfonias que mais servem para alegrar a dança de demônios no quinto dos infernos é uma pergunta que merece atenção. Parece que há uma produção em série do que se pode chamar “armas mefistofélicas”, construtos feitos com o objetivo deliberado de envenenar almas e preparar cortejos fúnebres, projetos idealizados nas entranhas do inferno, sob o olhar atento de bestas demoníacas sedentas por almas humanas.
     É incrível que Albert Camus por si mesmo constate como solução ao absurdo da vida três soluções, dentre as quais está, em primeiro lugar, o suicídio, que, segundo o filósofo absurdista, é uma fuga do absurdo. Embora Camus não considere a opção pelo suicídio como uma saída efetiva e aceitável para o paradoxo existencial, ele reconhece, sem esboçar o menor constrangimento, que este é um caminho para o qual está propenso quem se identifica com o absurdismo. Camus pode até se camuflar em seu cinismo, mas ele sabia muito bem que — ao formular e difundir uma filosofia que nega a existência de qualquer sentido na vida — acabaria por ter, como um dos resultados inevitáveis, o suicídio daqueles que bebessem em sua fonte. Fica cada vez mais difícil negar a estreita relação entre tais filosofias e o desespero que impera nas almas do homem contemporâneo.
     Uma segunda saída é a religiosidade ou espiritualidade, tal saída é vista por Camus e Kierkegaard como expressões de ingenuidade e pobreza de razoabilidade, uma ilusão criada por covardes, algo que alguém com um mínimo de intelecto apurado rejeitaria de pronto. Isso explica um pouco do ar de superioridade que exalam os materialistas e ateístas, os quais olham de cima para baixo com um nariz sempre em riste e uma das sobrancelhas levantada para quem cultiva uma espiritualidade ou admite a crença em Deus. Acreditar em uma realidade para além do material, impalpável, intangível e transcendental é uma fraqueza, uma falta de virilidade intelectual. Só os mais evoluídos são capazes de transpor tais mediocridades e encarar a vida sabendo que ela é absurda, com resignação e coragem; isso explica porque o absurdismo chama quem assim age de “herói”! Eis o absurdismo em sua crueza: Aquele que opta pela transcendencia é um fraco. Aquele que abraça o absurdo existencial é um herói.
     A terceira via para o paradoxo é, então, aceitar o absurdo da vida e aproveitá-la ao máximo com uma liberdade amoral, onde nada é proibido e tudo é permitido. O absurdo do absurdismo é escancarado. O próprio Kierkegaard vê na terceira saída uma “loucura demoníaca”. Talvez a constatação de Kierkegaard não seja a expressão de uma consciência pesando, mas a característica mesma de ser uma filosofia que não carece de escamoteamento, não carece de firulas, maquiagens ou disfarces; a desfaçatez e a falta de escrúpulos do Zeitgeist (espírito da época) já havia dado total aval para tal caldo, já não se fazia mais necessário nenhum subterfúgio, nenhuma camuflagem. Quando os demônios são trazidos para o mundo dos homens, fica difícil discernir se o inferno é aqui, ali, lá ou acolá; assim, quando o veneno é oferecido, já não se precisa mais disfarçar o gosto amargo, o cheiro de enxofre, a fumaça negra, a mão esquelética que segura o cálice nem a o selo “Made in Inferno”.


 
CITAÇÕES E NOTAS:
 
[1] Há controvérsias quanto ao verdadeiro “engenheiro” da peça. Há fontes históricas que atribuem a adaptação do instrumento a Antoine Louis, que também era médico.
 
[2]Carvalho, Olavo de. O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota. Organização Felipe Moura Brasil – 27a ed. Rio de Janeiro-RJ: Editora Record LTDA, 2017. Pág. 414.
 
[3]Huizinga, Johan. O Outono da Idade Média — Estudo Sobre As Formas de Vida e de Pensamento nos Séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos. São Paulo–SP: Cosac Naify, 1997. Págs. 10, 11, 13, 16.
 
[4]O antropólogo relata que: “A história da escravatura islâmica é a maior da história, durou mais de 13 séculos e teve muito mais vítimas do que a escravidão para a América, que durou 4 séculos. E a pior parte é que a maioria dos escravos eram castrados e infelizmente não era permitido terem filhos. Os árabes e os africanos do norte eram racistas. Eles odiavam gente negra. Por isso é que eles não permitiam que os negros tivessem filhos em seus países.” A entrevista onde o antropólogo senegalês Tidiane N’Diaye fala sobre esse fato histórico é parte de um vídeo intitulado “Escravidão Islâmica em África, o Genocídio Oculto”, que pode ser visto no Youtube, com legendas em português, acessando-se o seguinte endereço eletrônico: https://www.youtube.com/watch?v=fm6SNCR-_J0.
 
[5]Carvalho, Olavo de. Opus Citatum. Pág. 417.
 
[6]Ibidem. Pág. 357.
 
[7]Courtois, Stephane. O livro Negro do Comunismo: Crime, Terror e Repressão. Tradução de Caio Meira. Rio de janeiro-RJ: Bertrand Brasil, 1999. Págs. 6, 7.
 
[8]Carvalho, Olavo de. Opus Citatum. Pág. 141.
 
[9]Sartre, Jean Paul. Existencialism and Humanism. 1945.
 
[10]Scruton, Roger. Pensadores da Nova Esquerda. Tradução de Felipe Garrafiel Pimentel. São Paulo-SP: É Realizações, 2014. Pág. 261.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 24/05/2020
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