Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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O SIGNIFICADO DA VIDA
 
HÁ UMA HISTÓRIA NO capítulo 7 do evangelho de Lucas que mostra uma pessoa perdendo o significado de sua vida e tendo posteriormente esse significado devolvido pela intervenção milagrosa de Jesus. Essa história pode ser contada por meio de conjecturas, para que dela sejam extraídas percepções e conclusões que transcendam o texto literal:
     O cenário que se descortina é Naim, uma cidadezinha situada entre o vale do Armagedom e o monte Hermom, um lugar lindo, com uma vista arrebatadora, tanto que o significado de Naim é deleite, beleza, aprazível. Olhando-se para a porta de uma das casas dessa cidadezinha, antes mesmo de qualquer observação sobre o estilo arquitetônico, ela logo se abre, e por ela saem correndo um jovem casal. Estão indo em direção às campinas que tem uma vista para o vale do Armagedom. O gramado onde namoram tem o verde como cor preponderante, com vários traços de amarelo, vermelho e branco, formando um mosaico colorido entre as florezinhas do campo. Enquanto namoram, tendo por fundo uma paisagem encantadora, não percebem um par de borboletas que batem asas sobre suas cabeças como se estivessem espelhadas no ar, pois a paixão que dominava os dois jovens namorados tornava cativa a atenção deles, o único lugar para onde olhavam era para os olhos um do outro.
     De repente, uma fina chuva começa a cair, forçando o casal a sair correndo, assim como ali chegaram. A moça chega a casa primeiro, o moço, logo em seguida. Quando o moço bate a porta atrás de si e escora nela as costas, ele vê sua amada enxugando os cabelos. Ele se aproxima e lentamente leva a mão ao rosto dela dizendo: “Nossa! Como tu és linda!”. Surpresa, a moça responde: “Até parece que tu não me conheces há tanto tempo!”. É claro que o jovem já conhecia e namorava a moça há um bom tempo, mas o que ele sentiu naquela tarde foi algo que ainda não havia experimentado, foi justamente ali que ele tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre. Quando a moça olha para o chão com sua timidez, o moço levanta seu rosto com a ponta dos dedos, olha firme em seus olhos e diz: “Tu não fazes ideia do quanto eu te amo! Eu quero passar o resto dos meus dias ao teu lado, quero envelhecer e olhar para o lado vendo a ti em minha companhia! Tu queres casar comigo?” A moça sorri, enche os olhinhos de lágrimas e pula no pescoço dele gritando: “Sim! Sim! Sim!”.
     O tempo passa. O casal já não é mais composto por dois jovens, mas por um homem e por uma mulher maduros. Certo dia quando o homem volta para casa depois de um dia cansativo de trabalho, ele percebe que algo está diferente. Depois de trocar de roupa e se lavar, ele volta à cozinha e sente o cheiro de uma refeição especial que está sendo preparada. Curioso, ele levanta a tampa da panela para ver o que está sendo preparado e, quem sabe, beliscar uma prova, mas antes mesmo de conseguir enfiar os dedos na panela recebe um tapinha na mão e ouve como repreensão: “Tira a mão daí, quando estiver pronto, tu irás saber e irás comer, é só sentar e esperar, ora!” Ao homem nada mais resta senão esperar. O jantar é servido e, enquanto se delicia, o homem percebe o perfume que vem de sua mulher, nota o cuidado que ela teve com o cabelo naquele dia, repara o arranjo dos talheres, o alinhamento da toalha na mesa; tudo denuncia que aquele dia não era um dia como outro qualquer. Após a refeição, a conversa flui naturalmente à mesa, até que a mulher surpreende o esposo: “Eu tenho uma coisa pra te contar. Tu irás ser pai. Eu estou esperando um filho!” O homem perde o fôlego, reage com uma mistura de riso e lágrimas e se atira sobre sua esposa com beijos e abraços apertados. Ora, em Israel, o número de filhos era sinal e medida do quanto uma pessoa era abençoada por Deus; um filho era tido como uma benção das mais especiais. A noite se encerra com uma conversa interminável sobre, por exemplo, o nome que o bebê vai receber, os planos para o futuro, o quarto do bebê. Dormir mesmo só depois que a madrugada chega, a euforia enxota para bem longe o sono, ainda mais quando começam especulações alegres de como vai ser a aparência da criança, se vai se parecer com o pai ou se vai puxar à mãe.
     Chega o dia do nascimento do bebê, o homem está ao lado de sua esposa neste momento. A cada contração ela sente uma dor tão aguda que a faz estremecer. O homem comete a burrada de segurar a mão dela, quando a próxima contração acontece, ela aperta sua mão tão forte que quase lhe quebra os ossos! De repente, um choro rasga o ar e vem à luz o filho do casal.  A família agora está maior, o pai precisa trabalhar mais para dar o melhor para o filho, enquanto a mãe amamenta e dá todo o amor que o filho merece. Vêm os primeiros passos, as primeiras palavras. Conforme o filho cresce, o pai lhe dá a melhor educação que pode, lhe ensina valores morais, a tradição de seu povo e lhe conta histórias sobre os heróis de Israel. Quando já adolescente, o menino já está absorto na rotina de uma família normal de Israel. Com a juventude, o menino segue os passos do pai e se encaminha para ser um homem trabalhador, um pai de família digno, sempre vendo no pai um exemplo a ser seguido, alguém que lhe ensinou a ter hombridade, caráter, dignidade e honra. Para o menino, seu pai é seu melhor amigo, um companheiro com o qual ele pode contar para o que der e vier.
     Mas, o fatídico dia chega. O pai daquela família morre. A mulher tem que se despedir do grande amor da sua vida, tem que interromper todos os planos, sonhos e projetos que traçaram juntos. Tem que chegar ao guarda-roupa e escolher a roupa com a qual o seu grande amor vai ser enterrado. Durante o cortejo, o consolo que recebe vem principalmente do seu filho que, mesmo sentindo a morte do pai, sente seu coração partido vendo sua mãe em desespero. Nos dias que se seguem, quando chega a hora em que a porta se abria e seu amor adentrava a casa depois de um dia de trabalho, a mulher olha para a porta como se, de repente, ela fosse abrir e ele fosse entrar em casa mais uma vez, demora alguns segundos até que ela perceba que isso nunca mais vai acontecer. Quando ela senta à mesa com seu filho, há um lugar vazio, na cama há um lugar marcado que grita a ausência de alguém. É agora o jovem filho do casal que provê o lar, é ele quem trabalha e traz o sustento para casa, seguindo tudo o que aprendeu com seu pai. O cuidado daquela mulher agora é integralmente dirigido ao filho, é a roupa dele que ela cuida, é a refeição dele que ela prepara a tempo de que ele coma antes do trabalho e quando volta cansado. Quando a mulher olha para o filho à mesa devorando a refeição depois de um dia fatigante de trabalho, ela diz: “Tu me lembras muito o teu pai. Se ele estivesse aqui, estaria orgulhoso de ti, do homem que tu te tornaste.” As roupas do pai de família falecido continuam no mesmo lugar no guarda-roupa, a mulher não tivera ainda coragem de mexer nelas, por muitas vezes o jantar é interrompido com lágrimas e é o filho que precisa consolá-la e colocá-la na cama quando mais calma. Com um beijo na testa ele reforça a ela o quanto a ama, promete que estará sempre ali para protegê-la, cuidá-la e enche-la de orgulho. Há um lugar vazio no coração daquela mulher que nada consegue suplantar. Somente o passar do tempo e a dedicação total e integral dela ao seu filho conseguem paulatinamente ir conformando a mulher e aplacando um pouco de sua dor. Ela recebe o filho depois de um dia de trabalho com carinho, oferecendo a ele o máximo de conforto que pode. Ela vê no filho muito do pai, no jeito de falar, nos gestos, nos modos, até na maneira como deixa a túnica em cima da cama quando chega cansado. Tudo isso faz com que seu filho se torne o seu universo, a sua razão de viver, o seu mundo começa a girar em torno do jovem, ele é uma forma de continuar expressando o amor por seu amado, porque ela sabia que tudo que fosse feito pelo bem do rapaz deixaria o amor de sua vida feliz, se vivo estivesse.
     No entanto, essa pobre mulher estava condenada a sentir uma dor ainda maior. Seu filho é trazido a ela sem vida. Depois de gritos de horror e desespero, ela ainda tem que refazer o que já havia feito quando da morte do amor do esposo, ir até o guarda-roupa escolher a roupa com seu filho será enterrado e acompanhá-lo em procissão fúnebre até onde ele será enterrado. O estado de choque torna difícil parar em pé. As lembranças que vêm são de quando o menino nasceu, de quando ele mamava em seu peito olhando nos seus olhos, de quando ele dava os primeiros passos enquanto seu pai o guarnecia em segurança. Ela se lembra dele chorando com medo, dele chamando por ela com uma voz que podia reconhecida mesmo que ele estivesse em meio a uma multidão de vozes, se lembra dos medos que só seu abraço podia acalmar. Mas o que a faz se derramar por dentro é lembrar que, da última vez, quem a consolou foi ele, quem a abraçou enquanto acompanhava seu esposo até a sepultura foi ele. Ela sabe que quando voltar para casa ele não vai mais estar lá, na mesa sobrarão agora dois lugares, não haverá nem mais razão de preparar o jantar, não vai mais encontrar aquela túnica jogada em cima da cama. A partir de agora, como viúva sem filhos, irá depender de esmolas, de doações e da caridade dos outros. A partir de agora o nome da família do seu amado estava extinto.
     Seu mundo desmoronou, acabou a razão de viver, a vida perdeu o significado, não há mais nenhuma razão para acordar de manhã e colocar os pés no chão. A dor de sepultar um filho é uma das maiores dores que um ser humano pode experimentar, é antinatural: o natural da vida é os filhos enterrarem os pais, mas um pai enterrar um filho é uma monstruosidade. Mesmo a mera intenção de imaginar um filho dentro de um caixão já causa uma repulsa no espírito que torna essa imagem inconcebível, algo se revolta dentro da alma e se recusa a pensar no evento. Se há algo que traz conforto a um moribundo é o fato de ter os seus filhos vivos para segurarem nas alças do seu caixão, porque isso significa que seus filhos sobreviveram a ele. Mais ainda, significa que ele está para sempre livre da possibilidade de passar pela dor de enterrar um filho. Todo pai anseia morrer antes de seus filhos. Há mães que predem seus filhos e continuam a lembrar deles em cada aniversário que completariam se estivessem vivos, falando sempre: “Se hoje ele estivesse vivo, estaria fazendo X anos”. A foto na mesa de cabeceira ao lado da cama nunca mais sai dali. A pessoa fica para o resto da vida decepada, amputada de um pedaço de sua alma. Há sempre um ar de tristeza, um desacorçoo. A casa quem sempre foi limpa e organizada já não é mais a mesma, a comida dantes tão temperada já não tem o mesmo sabor, nada mais é como antes, a vida perde a cor.
     Enquanto a viúva de Naim segue em procissão até o lugar onde deixará seu filho para nunca mais vê-lo, alguém a interrompe e a pede para não chorar. Mas como não chorar? Se toda a cidade se compadeceu, aquele que a interrompeu não poderia ser diferente, as lágrimas daquela mulher eram por demais eloquentes e ele as havia decifrado. Afinal, há coisas que canetas não escrevem, há coisas que fitas não gravam, que papéis não recebem, que palavras fracassam em exprimir, há coisas que só uma lágrima consegue dizer. Toda a procissão para, Jesus se aproxima do jovem e o faz sentar no esquife. O relato bíblico diz que Jesus “o entregou à sua mãe”. Quando ele pega a mão da mãe e a faz segurar na mão do filho ressuscitado, é como se ele estivesse dizendo àquela mulher: “Eu não estou apenas ressuscitando o teu filho, eu estou devolvendo a tua alegria de viver, estou devolvendo o significado da tua vida!”.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 14/08/2020
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