Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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NÃO SE PODE FUGIR DO DESTINO
 
     Não há nenhum exagero em dar a Deus a glória de ter um plano absoluto, e não precisar de nenhum plano B, pois sua soberania não se curva diante dos homens, antes, faz os homens se curvarem a ela, sem que possam resistir. É compreensível como o ego do homem fica afetado quando se depara com um destino traçado por Deus sem nada possa fazer para fugir, sem ser indagado ou consultado. Sempre houve no coração do homem um desejo não só de fazer história, de entrar para a história, mas principalmente de ser o autor da história.
     E é aqui, nesta altura, que cabe fazer menção de alguns registros bíblicos de homens que foram comunicados sobre os destinos que Deus tinha determinado tanto para a história, quanto para suas próprias vidas e, ao invés de se curvarem ante a essa soberania, tais quais Nabucodonosor, Ciro, ou Alexandre, tentaram enganar o destino, fugir de si mesmos e chamar para si próprios a autoria dos fatos e a soberania sobre suas vidas. Qual não foi a frustração desses planos malogrados.
     Pode-se começar pela história de um rei de Israel, Acabe, registrada no primeiro livro dos Reis de Israel, no capítulo 22, o qual ao ser alertado pelo profeta Micaías de que seu exército seria derrotado e ele tombaria no campo de batalha, mandou aprisionar o profeta e sustenta-lo a pão e água até que ele voltasse são e salvo do combate.
     Acabe, então, se disfarçou para ir à guerra, com o intento de não ser reconhecido, numa tentativa desesperada de escapar de seu destino.
 Implacavelmente, o relato histórico menciona que, mesmo assim, um simples soldado entesou seu arco a esmo e disparou uma flecha, a qual acertou Acabe justamente na fenda de sua armadura.
     O rei teve uma morte lenta, agonizando em uma poça de sangue no seu carro de combate durante um dia inteiro. Acabe foi atingido em cheio pela flecha do destino! É incrível como o destino se mostra mesmo como uma flecha que sabe direitinho encontrar a fenda de qualquer armadura!
     Abrindo-se um parêntese nas histórias bíblicas, é por demais proveitoso lembrar os mitos gregos, que, não obstante serem mitos, são carregados de sabedoria, e um famoso mito acerca do destino é o de Édipo, O Rei. O personagem desse mito, mesmo antes de nascer, foi alvo de uma profecia de que ele seria a ruína e a desgraça de sua família, matando seu pai e casando-se com sua própria mãe. Seu próprio pai foi quem desencadeou a luta contra esse destino e enviou o menino para longe, com os pés amarrados, para morrer. Encontrado por um piedoso pastor, foi então criado pelo rei de Corinto, Polibio. Quando Édipo teve conhecimento por meio do Oráculo de Delfos do destino que lhe aguardava (matar seu pai e casar com sua mãe), iniciou a fuga de Corinto e de seu próprio destino. Pensando ser o casal real de Corinto os seus verdadeiros pais, lutou ele com todas as suas forças e com todo seu coração para fugir de tão terrível tragédia e alterá-la; mal sabia ele que a própria fuga estava o empurrando para os braços irônicos do destino e que nada ele poderia fazer para mudar aquilo que já estava escrito e determinado.
     Foi justamente em sua fuga que ele discutiu pelo caminho com alguns homens e acabou assassinando um homem desconhecido, seu pai, o rei de Tebas, sem saber que, enquanto sujava as mãos de sangue, o destino o observava com um sorrisinho de lado. Sua fuga o levou até Tebas, sua cidade natal, ainda que ele não soubesse de suas origens reais, onde depois de decifrar o enigma proposto por uma esfinge recebeu como prêmio o reino e a rainha de Tebas.
     Édipo e a rainha de Tebas, Jocasta, se apaixonaram e tiveram quatro filhos. Mal sabia ele que era com sua própria mãe que estava tendo filhos! Vindo tempos de dificuldades a seu reino, ele descobriu que as calamidades somente cessariam se o assassino de Laio, anterior rei de Tebas e seu pai, fosse encontrado. Pôs-se então Édipo na caça do assassino! Foi aí que o cego Tirésias jogou no rosto de Édipo a verdade: Era ele mesmo o assassino de Laio, seu pai, ele mesmo, que havia casado com a própria mãe! O pastor que resgatara o menino Édipo surgiu para ratificar a história e deitar por terra qualquer dúvida ou divergência.
     Todos fracassaram em suas tentativas de burlar o destino, todos foram vitimizados, mesmo oferecendo a mais ferrenha resistência que poderiam oferecer. Jocasta, mãe dos próprios netos, suicidou-se. Édipo, sentindo um frio lhe subir pela espinha, sentiu o mais aterrador e devastador remorso que se pode imaginar e furou os próprios olhos para nunca mais ter que contemplar o quão vil era.
     Assim concluiu-se o mito de Édipo, O Rei: “A vida é breve, e um erro traz sempre outro erro. Desafiado o destino, tudo será destino. E aos mortais não cabe evitar as desgraças que o destino traz”.
     Viktor Frankl conta em seu livro, Em Busca de Sentido, uma história da morte em Teerã, onde o destino aparece ironicamente como incontornável:
 
Estava um persa rico e poderoso passeando certa vez pelo parque de sua casa, em companhia de seu criado. Este se põe a lamentar que acabou de ver a morte ameaçando levá-lo. O criado implora a seu amo que lhe dê o cavalo mais rápido para se pôr imediatamente a caminho e fugir rumo a Teerã, onde ele queria chegar naquela mesma noite. O amo lhe dá o cavalo e o criado parte a galope. Caminhando de volta para casa, o próprio se depara com a morte e passa a interrogá-la: “por que assustaste meu criado dessa forma, por que o ameaçaste?” Respondeu-lhe a morte: “Ora, não ameacei! Nem quis assustá-lo. Apenas me admirei, surpresa com o fato de vê-lo aqui, pois devo encontrá-lo em Teerã ainda hoje à noite!”.[1]
 
     Gritante também é o relato do profeta Jonas que relutou em acatar uma ordem direta de Deus, e mesmo contra sua vontade teve que fazer aquilo que foi determinado que fizesse, embora tenha lutado de todas as formas ao seu alcance e nunca aceitado o seu destino (Jonas 4). Depois de partir na direção contrária a que deveria ir, Jonas foi lançado ao mar e acabou engolido por um grande peixe, vindo a passar três dias na escuridão e nas profundezas das fossas abissais, onde passou pelo mais profundo estado de introspecção de toda sua vida.
     Quando cuspido na praia pelo peixe, Deus lhe repetiu as ordens de que pregasse a mesma mensagem que dantes lhe fora ordenada. Interessante: a mensagem não havia mudado, ainda era a mesma, tampouco Deus enviou outro profeta no lugar de Jonas, não, não mesmo, era com Jonas que Deus contava, Ele jamais cogitou abrir mão desse homem, afinal, fora para isso que Jonas havia nascido, para fazer aquilo que Deus havia determinado que fizesse. Havia algo para ele e absolutamente ninguém mais fazer. Quando Deus escolheu Jonas, ele sabia bem de toda a capacidade dele, para o bem e para o mal, conhecia sua estrutura, sua miséria e sua constituição, Deus jamais se surpreenderia com alguma atitude de Jonas, tampouco jamais se decepcionaria com qualquer mancada, Deus sabia o que estava fazendo e quem era o homem com quem ele decidiu se relacionar.
     O capítulo quarto do livro do profeta mostra que mesmo após cumprir seu destino, ele não o aceitava e continuou ressentido diante de sua missão! O destino não dialoga, não pede licença, o destino atropela e leva a dançar sons que são repulsivos de ouvir.  Embora isso pareça chocante e até perturbador, não foram essas as únicas vezes que Deus interferiu na vontade humana para fazer prevalecer seus desígnios. E ele o fará sempre que em sua soberania assim o decidir.
     Pode ser trazido à lembrança o rei Davi, que em sua tenra idade pastoreava as ovelhas de seu pai e, sendo o filho caçula de oito irmãos, não nutria muitas expectativas com relação ao seu futuro, ainda mais se for levado em conta que a benção patriarcal na cultura judaica sempre privilegiava o filho primogênito. Quando o profeta Samuel foi até a casa de Jessé, pai de Davi, para ungir dentre eles o rei de Israel, Jessé colocou frente ao profeta, como era de praxe, seu filho primogênito, e diante da negativa do profeta, fez passar diante dele todos os seus filhos, um a um. Quando Jessé apresentou o último de seus filhos, ouviu de Samuel que também não era aquele o escolhido. Jessé ficou calado, como se estivesse dizendo a Samuel que aqueles sete jovens eram as únicas opções que ele teria e que dali ele deveria escolher aquele que deveria ser ungido. Mas uma pergunta que saiu da boca do profeta frustrou o pensamento de Jessé: “Acabaram-se os jovens? (I Samuel 16:11).
     Jessé, então, com uma nítida má vontade e descontentamento, revelou que ainda havia um, que estava no campo com as ovelhas. Samuel, desde já, trata de honrar o desprezado e anônimo Davi, avisando que ninguém deveria sentar à mesa sem que esse filho preterido chegasse. Isolado e esquecido na lida pastoral, ninguém apostaria em Davi, nem mesmo seu pai. Porém, o destino não estava limitado pelo anonimato do pequeno pastor. Quando o destino escolhe alguém, não importa o quão interiorana seja a cidade onde habite, o quão paupérrima seja a família onde nasça, o quão isolado e desprezado ele seja, muito menos o quanto se milite para sufocá-lo em suas aspirações. Mesmo que ninguém acredite nele e ele mesmo não vislumbre esperança para seu futuro, tudo vai conspirar para que ele seja descoberto, posto em evidência e cumpra com os propósitos para os quais nasceu.
     Há, ainda, outros relatos na Bíblia que mostram Deus agindo diretamente sobre a vontade dos homens, como no caso de Abimeleque em Gênesis 20:6, em que Deus fala (pasmem!) que impediu Abimeleque de pecar, tomando por mulher a Sara, mulher de Abraão, depois de tanto ela quanto Abraão terem dito que eram irmãos. No mesmo livro, no capítulo 50 e verso 20, José esclarece aos seus irmãos que embora eles tivessem intentado mal contra ele, Deus havia intentado para o bem, querendo dizer que mesmo quando seus irmãos o venderam como escravo, Deus estava por trás dessa ação, no controle da situação, e seus planos estavam sendo executados. Isso faz lembrar uma história contada por Rubem Alves:
 
Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.” No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”, o pai repetiu. Passados poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá…” Assim termina a história, sem um fim, com reticências… Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a história de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível, dos acidentes. “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.”.[2]
 
     O autor brinca com as tragédias e com as alegrias da vida que encontram a     quem quer que seja em uma tarde qualquer de uma quinta-feira chuvosa em uma das esquinas da vida. Embora não seja a intenção do autor levar a pensar sobre o destino, é interessante meditar como episódios que parecem trágicos podem ser apenas uma página triste antes do desfecho glorioso de um livro, um momento tenso de um filme antes de um final arrebatador — o “Deus Ex Machina” das tragédias eurídipicas —, o trabalhar do destino na sua sina de levar o indivíduo em rota de colisão a ele, ainda que seja o arrastando.
 
[1]Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. Porto Alegre-RS: Editora Vozes, 2017. Pág. 43, 44.
 
[2]O vídeo onde Rubem Alves conta esta história pode ser acessado no Youtube, no canal Provocações Filosóficas, sob o título: Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá: https://www.youtube.com/watch?v=2cQ7nfce3Lg
A entrevista completa contou com a presença de Darcy Ribeiro e pode ser vista no Youtube, no canal da TVPUC com o título Diálogos Impertinentes — A UTOPIA, no link: https://www.youtube.com/watch?v=Xp6VW1jwnRM.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 14/08/2020
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