Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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A VIOLÊNCIA DA AGRESSÃO SOFRIDA POR CRISTO
     Deveria ser um privilégio para um vivente conhecer qual o destino de sua existência, qual a razão de ter nascido, qual o sentido de sua vida, não fosse ele morrer de forma violenta, dolorosa e paulatina. Ora, não era difícil e nem haveria o porquê não aceitar destinos como os de Nabucodonosor, Ciro e Alexandre, que passavam por grandes conquistas militares e impérios que entraram para a eternidade. Mas o destino de Jesus não era derrotar Roma, não era somar fortunas, não era ser um imperador, nem fazer sucesso em sua pátria. Não. Era morrer agonizando. Mesmo assim, ele se entregou a esse destino voluntariamente. Ele mesmo se entregou, ninguém o matou, nem Satanás, que, aliás, não o queria morto (Mateus 16:22, 23), nem os judeus, que tentaram inutilmente tirar-lhe a vida (Lucas 4:29; João 8:59), nem os romanos, que não teriam poder algum se não fosse por Deus dado (João 19:10, 11; Lucas 13:31, 32). Mas foi ele mesmo que se entregou: “Por isso, o pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma toma de mim, mas eu de mim mesmo a dou. Tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la.” (João 10:17, 18).
     Qualquer outro homem diante da ciência de um destino tão negro à espreita desejaria nunca ter nascido, o que diferencia Jesus de qualquer outro homem que tenha pisado este chão. Quando chegou o momento de beber o cálice amargo do seu destino, ele o fez com um voluntarismo que intriga qualquer compreensão!
 
É COM A CHEGADA DO crepúsculo, ao sentir o terror o cercar e uma agonia profunda explodindo dentro de si, que seu corpo reage, não com uma parada cardíaca nem com um acidente vascular cerebral, que poderiam ocorrer nessas situações extremas, mas com uma hemaditrose, uma opressão tão esmagadora que o leva a suar sangue, chegando ao ponto de orar assim: “Pai, se possível passa de mim esse cálice...” (Lucas 22:42). O destino batia à porta e toda a história da humanidade e do mundo seria diferente se esta oração parasse nesse ponto. Mas, em uma reação extraordinária, ele abraça seu destino e bebe o cálice de fel: “Todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.”!
     Ao ser abordado por soldados no jardim do Getsêmani, ele não reagiu, se entregou voluntariamente (João 18:6), e mesmo quando Pedro tentou dar início a uma reação, ele mostrou que tinha o poder para escapar do que lhe aguardava, se assim o quisesse: “Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:53).
     Ele não foi capturado, ele se deixou ser levado, era ele quem estava no controle, o tempo todo. Ao ser levado para o açoite, os soldados romanos não precisaram forçá-lo a prender suas mãos no cepo, mas ele mesmo estendeu as mãos, aceitando seu destino, e voluntariou-se para o início do massacre. O instrumento a ser utilizado no açoite é o azorrague, um chicote feito com doze tiras de couro, as quais tinham em suas extremidades pedaços de ferro ou de ossos. Quando o pesado braço do soldado se ergue e corta o ar, descendo o azorrague nos lombos de Jesus, esses pedaços de ferro e ossos se encravam na carne dele. Quando o soldado traz de volta seu braço, pedaços de carne voam pelos ares, e o rosto do algoz fica salpicado de sangue.
     Foram trinta e nove golpes desferidos contra Jesus, que multiplicados pelas doze tiras do azorrague, chegam a quatrocentos e sessenta e oito ferimentos. Alguns golpes depois, Jesus já está de joelhos, abraçado ao cepo, banhado em sangue. Muitos condenados nem chegavam à crucificação, caíam mortos ali mesmo, sobre uma poça de sangue, pois a violência dos golpes deixava expostos e visíveis os órgãos internos, os quais em algumas vezes eram atingidos, em outras, eram as lascas das pontes das costelas quebradas que perfuravam os pulmões.
     Os dedos de Jesus se contorcem e suas mãos se enrijecem, a dor é lancinante, ele está à beira de um colapso nervoso, cada chicotada é um sobressalto de dor! Suas costas estão como um bife batido por uma dona de casa com um martelo de amaciar carne. É por isso que Isaías escreveu que “Ele foi moído por causa das nossas iniquidades.” (Isaías 53:5b)! Uma coroa de espinhos é enfiada em sua cabeça, espinhos africanos de 12 centímetros, espinhos mais duros do que os da acácia, usados por alguns marceneiros rústicos da época como pregos, de tão pontiagudos e firmes que eram. O escalpo, o couro cabeludo, é uma das regiões mais irrigadas de sangue do corpo humano, e o sangramento que começa agora ensopa seu cabelo, escorre pelo rosto o deixando irreconhecível. Dão a ele um patíbulo, a parte horizontal da cruz, um pedaço de madeira de cinquenta quilos ligeiramente cortado para pendurar criminosos e, por isso mesmo, sem nenhum acabamento e cheio de farpas. O patíbulo lhe é posto nos ombros já machucados pelos açoites, as farpas da madeira esfolam e massacram suas costas dilaceradas e dá-se início uma caminhada em direção ao Gólgota. O sangue da cabeça não para de escorrer e se junta agora, devido ao esforço, com o sangue das feridas de suas costas, começando a escorrer por suas pernas até chegar aos seus calcanhares, de forma que, enquanto caminha, o chão por onde ele passa fica marcado com seu sangue, enquanto praticamente se arrasta em direção à crucificação. É por isso que Isaías escreveu que “pelas suas pisaduras nós fomos sarados.” (Isaías 53:5d)!
     A dor que ele sente enquanto caminha leva a uma síncope (delírio causado pela dor), o que o faz cair. A madeira do patíbulo crava farpas em eu dorso. Cansado e com sede, levanta a cabeça esperando enxergar em meio às pessoas que se acotovelam para lhe esbofetear alguém que ele tenha ajudado, alguém que ele tenha curado ou alimentado para dizer “aguente firme, tu não estás sozinho!”, mas não havia ninguém, ao invés disso, o que ele recebe é uma cuspida no rosto. Ele baixa a cabeça e busca forças onde não tem para levantar os cinquenta quilos do patíbulo e continuar caminhando. É por isso que Isaías escreveu que “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si.” (Isaías 53:4a).
     Ao chegar ao local de crucificação, ele é deitado sobre a cruz montada com o patíbulo que ele mesmo trouxe até ali, um soldado se aproxima com um martelo e alguns pregos. Suas mãos são postas nas extremidades e a ponta de um prego lhe é encostado na palma da mão, mão que ele abre voluntariamente para receber o prego, sem que nenhum soldado precise forçá-lo. O prego usado na crucificação em nada se parece com a ideia que vem à mente quando se ouve a palavra prego nos dias atuais, porque era, na verdade, um cravo, um pino de ferro de doze centímetros de comprimento e seis centímetros de diâmetro na cabeça! Um prego muito parecido com os utilizados para fixar os trilhos de ferro aos dormentes de madeira nas ferrovias. Quando o soldado levanta o martelo e o desce sobre o pino perfurando a mão de Jesus, é possível ver o sangue jorrando no rosto do soldado. O barulho de carne sendo esmagada faz com que as pessoas mais sensíveis que acompanhavam a cena tampem os ouvidos! As batidas se repetem em um som perturbador, Jesus se contorce de dor, revira os olhos e sente uma das piores dores fisiológicas que um ser humano pode sentir: o rompimento e dilaceramento dos nervos medianos, ligados diretamente ao sistema nervoso central, fazendo-o rodar a cabeça em delírios de dor. A lesão dos grandes troncos nervosos leva a uma dor lancinante que pode provocar uma síncope, um desmaio em função do choque da dor!
     Ele é erguido com a cruz, seus nervos medianos estão rompidos, ele não pode descansar a cabeça nem se escorar por causa dos espinhos da coroa, respirar é difícil, qualquer movimento provoca uma dor lancinante que o faz delirar de dor. Está obrigado a olhar para baixo e ver a multidão gritando “Desce da cruz agora vai Jesus!” Depois de horas pendurado, com moscas e insetos a lhe zumbir nos ouvidos, atraídos pelo sangue coagulado e sem poder enxotá-los, de repente, ele começa a se mexer, faz um esforço sobre-humano apoiando o peso de seu corpo sobre os pés pregados, movimentando os nervos rompidos e esticados — o que envia ao cérebro uma mensagem de extrema dor — para encher os pulmões de ar. Todos que estavam assistindo esperavam que agora ele fosse praguejar, blasfemar ou até amaldiçoá-los, mas o que sai de sua boca é “Pai perdoa, porque eles não sabem o que fazem!” (Lucas 23:34). Por isso Isaías escreveu que “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como uma ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” (Isaías 53:7). Cornélio, um centurião romano que testemunha tudo isso se vê constrangido a reconhecer: “Verdadeiramente, este homem era o filho de Deus!” (Mateus 27:54).
     Quando mais uma vez ele busca ar para encher os pulmões, agora pela última vez, é para exclamar “Está consumado!”. Com essas palavras ele triunfa como vencedor, triunfa como aquele que abraçou o seu destino e foi com ele até a última gota de sangue. Aos seus pés, alguns zombavam, blasfemavam, outros choravam, lamentavam, outros assistiam indiferentes, mas se havia uma unanimidade nos espectadores era esta: Ninguém entendia o que ele veio fazer. Menos ele, que sempre soube o propósito de seu nascimento, o significado do seu destino e o sentido de sua existência.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 20/03/2020
Alterado em 14/08/2020
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