Diogo Mateus Garmatz
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A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA: UMA MARAVILHA DO MUNDO ANTIGO
 
     Quando se levanta na Macedônia o exército liderado por Alexandre, o grande, e se inicia a marcha em direção ao Oriente, isso não se dá de forma acidental ou aleatória, mas, mais uma vez sob a providência e anúncio de antemão do Deus dos hebreus. Daniel registra o império grego como um leopardo e cita Alexandre como um rei valente. Mais uma vez é Deus quem está no comando e não há nada que Alexandre possa fazer para escapar de seu destino.     
     Depois de várias batalhas vitoriosas em sua incursão pelo Oriente Médio, o Príncipe Guerreiro lançou seu olhar às portas de Jerusalém. O historiador judeu Flavio Josefo relata em sua obra, A história dos hebreus, que o sumo sacerdote de Jerusalém, Jado, depois de temer ante o pavor da aproximação de Alexandre, fora por Deus alertado em sonho que espalhasse flores pela cidade, vestisse vestes sacerdotais, que seus acompanhantes vestissem vestes brancas e abrisse todas as portas da cidade, sem temer a Alexandre, porque este os protegeria a todos.
     Josefo registra ainda que ao chegar o conquistador à cidade, o sumo sacerdote o recepcionou com vestes cerimoniais, com seu éfode azul adornado de ouro e ostentando uma tiara na cabeça com uma lâmina, também de ouro, onde o nome de Deus estava escrito.
     Diante da procissão que o recepcionava, Alexandre adorou o nome que estava escrito na lâmina de ouro e cumprimentou o sumo sacerdote, o que trouxe estranheza aos que acompanhavam o imperador, pois todos, até ali, sempre viram os conquistados se prostrarem diante do novo imperador, mas nunca o tinham visto reverenciando quem quer que seja das nações conquistadas.
     Alexandre, por sua vez, quando confrontado por Parmênio sobre sua realeza e a incompreensível prostração ante ao sumo sacerdote judeu, explicou com estas palavras, segundo Flavio Josefo:
 
Não é a ele, ao sumo sacerdote, que adoro, mas ao Deus de quem ele é o ministro, pois quando eu estava ainda na Macedônia e imaginava como poderia conquistar a Ásia, ele me apareceu em sonhos com essas mesmas vestes e exortou-me a nada temer. Disse-me que passasse corajosamente o estreito do Helesponto e garantiu que Deus estaria à frente de meu exército e me faria conquistar o império dos persas. Eis por que, jamais tendo visto antes alguém revestido de trajes semelhantes a esses com que ele me apareceu em sonho, não posso duvidar de que tenha sido por ordem de Deus que empreendi esta guerra, e assim vencerei Dario, destruirei o império dos persas, e todas as coisas suceder-me-ão segundo os meus desejos.[1]
 
     Mais atraente se torna essa história quando Josefo conta que, ao ir Alexandre até o templo de Salomão acompanhando o sumo sacerdote, foi-lhe mostrado o livro de Daniel, e o próprio sumo sacerdote disse que era a ele, Alexandre, que o profeta se referia quando falava de um Príncipe grego que destruiria os persas!  Esse momento deve ter feito os olhos de Alexandre brilhar, seu coração disparar e seu peito se encher de euforia e coragem! O corte do nó górdio na Frígia não passava de uma brincadeira diante do que estava diante de seus olhos e do que lhe chegava aos ouvidos! Josefo oferece ainda mais um brinde aos seus leitores com o relato histórico de que assim como os hebreus tiveram o Mar Vermelho aberto diante deles quando em fuga do exército de Faraó no Egito, assim também ocorreu com o exército macedônico quando estavam diante do Mar da Panfília. Quais não eram, então, o poderio e a obstinação desse exército, se o próprio Deus lutava com eles, assim como lutava ao lado do exército de Israel (que significa “aquele que luta com Deus”, não “com” no sentido de contra, mas no sentido de companhia, aquele que luta ao lado de Deus, junto dele), somando-se a isso o fato de o comandante supremo das tropas ser um homem que conhecia seu destino e o abraçara com toda sua alma, que acreditava que a vitória era certa e que nada nem ninguém ficaria em pé diante dele: Alexandre, o Grande!
     Para cumprir seus planos, Deus mais uma vez escolheu em sua soberania quem seria sua ferramenta, como escreveu Paulo em Romanos 9:15, 16:
 
Compadecer-me-ei de quem eu me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isso não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que se compadece.
 
     Alexandre foi escolhido pela vontade soberana de Deus e seu destino estava traçado mesmo antes de seu nascimento. Não foi à toa que em apenas três anos conquistou um império que ia da Europa à Ásia, chagando até a índia e às montanhas do atual Afeganistão. Coincidentemente, ele saiu da Macedônia com 30 anos de idade e veio a falecer na Babilônia aos 33, assim como Jesus, que começou seu ministério aos 30 anos de idade e foi crucificado aos 33. Homens com destinos tão triunfantes realizaram atos tão gloriosos que mudaram o mundo, e isso em apenas três anos! Quando se fala da história de algumas cidades do Oriente Médio, a pergunta que se ouve é “Antes ou depois da conquista de Alexandre?”. Quando a história é separada em datações, é dividida entre antes e depois de Cristo (A.C. / D.C.). Quando o destino de alguém é mudar o mundo, o tempo não pode detê-lo. O tempo é que tem que se curvar.
     Como aluno de Aristóteles, o jovem guerreiro era um amante das artes, da cultura e do conhecimento e sua marcha triunfante serviu para espalhar a cultura helenística por todo o Oriente. Alexandre foi não só recebido com pompas pelos sacerdotes judeus em Jerusalém, mas foi também aclamado como Faraó no Egito, foi senhor e dono dos espólios de guerra persas e, na Babilônia, sentou no trono de Nabucodonosor. Não era apenas um soldado, era um aluno de um dos maiores filósofos que já pisaram esta Terra, era um homem de visão, e, por onde passava, fundava cidades que levavam o seu nome, tendo fundado dezessete “Alexandrias”, sendo uma das mais famosas a Alexandria construída no Egito, às margens do Mediterrâneo.
     A Alexandria fundada por Alexandre no Egito é famosa por ter abrigado uma das sete maravilhas do mundo antigo em seu porto, o Faros, o grande farol de Alexandria, que rivalizava, à época, em maravilhosidade com a grande pirâmide de Gizé.
     Segundo o historiador e escritor John Romer, essa maravilha era a mais prática das sete enumeradas em listas antigas, pois até a construção do farol, a navegação nas águas turbulentas e traiçoeiras do mar Mediterrâneo e a atracagem no porto raso de Alexandria eram muito perigosas, as cidades ainda não tinham iluminação nem os arranha-céus modernos e os marinheiros não enxergavam nada a mais de sete quilômetros na linha do horizonte até quase irem bater na praia.
     Para saber se estavam próximos do litoral os marinheiros jogavam uma linha no mar com uma pedra amarrada na ponta, se a linha voltasse suja era sinal de lama de rio, significando que a costa estava próxima. Isso muda com a construção do imponente farol, que tinha mais de cem metros de altura e podia ser visto a mais de cinquenta quilômetros em alto mar, uma verdadeira revolução tanto nas cidades quanto na navegação.
     A beleza do farol não estava apenas em sua praticidade, mas na imponência de sua construção! Sua base era quadrada, depois octogonal e com o topo redondo, com colunas na torre que o faziam brilhar tanto para o sul e norte, quanto para o leste e o oeste. Todos esses 120 metros de altura do mais fino mármore traziam consigo toda a fineza de acabamento do período helenístico, em que artesãos erguiam suas arquiteturas e trabalhavam nos mais ninuciosos detalhes com ferramentas tão pequenas que mais pareciam artífices talhando joias!
     Faros era o edifício mais alto do mundo em sua época; na sua torre havia uma caldeira onde uma pira alimentada por óleo e cercada com placas de vidro era acessa. Os vidros refletiam tanto a luz da fogueira à noite quanto a luz do sol durante o dia. Ele ainda marcava o caminho do sol no céu, a direção dos ventos e até as horas! Lendas medievais e muitas outras histórias eram contadas dizendo que ele tinha uma lente mágica que focalizava a luz para destruir as velas dos navios inimigos, mas isso não passa de lenda. Outras contam que o arquiteto, ao pensar em qual material utilizaria para não sofrer corrosão com o sal do mar, construiu sua base sobre blocos gigantes de vidro.
     O farol não era a única maravilha de Alexandria, uma cidade multicultural formada por egípcios, gregos e judeus. Havia muralhas, palácios faraônicos, jardins paradisíacos, mausoléus imponentes dos generais alexandrinos e dos fundadores da cidade, templos arrebatadores, a tumba do próprio Alexandre, além de estátuas magníficas e toda sorte de maravilhas que se pode imaginar.
     Porém, algo ainda mais grandioso nessa cidade rivalizava com a majestade do farol, um projeto que sintetizava a glória da cidade, como se o farol fosse apenas uma sinalização que apontasse para este tesouro: a Biblioteca de Alexandria! Essa façanha audaciosa do pensamento humano reunia ali as mentes mais brilhantes do mundo antigo, e fez surgir ali o sentido da palavra cosmopolita, cidadão do mundo.
     Na verdade, ela não era só uma biblioteca, havia ali, além de colunas e chafarizes, também um jardim botânico, um museu, um zoológico com espécies trazidas tanto da Índia quanto da África subsaariana, e até uma sala de dissecação, além de, se não bastasse, um observatório astronômico, o que fazia dela não apenas uma simples biblioteca tal qual são conhecidas hoje, mas um centro de pesquisas científicas, o primeiro de toda a história humana conhecida.
     A glória e o esplendor desse empreendimento, que no seu auge chegou a contar com cerca de um milhão de volumes, beira a descrição de uma lenda, tamanha é a euforia que acomete quem se põe a descrevê-lo. Todos os povos e línguas do mundo foram sondados a procura de livros, excursões partiam aos mais remotos cantos da Terra em uma caçada aos considerados os verdadeiros tesouros da biblioteca: os livros. Navios eram revistados ao aportar em Alexandria e se algum livro fosse encontrado, ele era confiscado e só devolvido depois de copiado e adicionado à coleção da biblioteca. Foi com esse pensamento que setenta e dois rabinos, seis de cada uma das doze tribos de Israel, se dedicaram ali, à sombra do Faros, o magnífico e imponente farol de Alexandria, na empresa de traduzir o Antigo Testamento para o grego koiné, a famosa Septuaginta, a mais antiga tradução da Bíblia hebraica. O astrônomo, astrofísico e cosmólogo Carl Sagan em sua série Cosmos — Uma Viagem Pessoal, De 1980, confessou que se pudesse viajar ao passado, um dos lugares que ele gostaria de visitar seria a biblioteca de Alexandria.
     Derek Flower, autor do livro A Biblioteca de Alexandria, leva seus leitores em uma incursão arrebatadora por entre as prateleiras de rolos assinados pelas mentes mais extraordinárias do mundo antigo. Havia, em meio aos tesouros, rolos de valores inconcebíveis como Os elementos de Euclides com sua obra fundamental sobre geometria. Arquimedes e sua mecânica, só superada por Leonardo Da Vinci. Rolos sobre medicina de Herófilo de Calcedônia. Obras de astrônomos como Aristarco de Samos, que já dizia que a Terra era apenas um de muitos planetas a orbitar o sol. Além de Hiparco, Ptolomeu, Hipácia e Erastótenes.
     A capital mundial do conhecimento humano foi, por mais de sete séculos, Alexandria, reunindo Filosofia, poesia, gramática, história, astronomia, medicina, biologia, além de outros conhecimentos cujas perdas são irreparáveis à humanidade. Enfim, o cosmos mesmo era objeto de estudo, tudo que existe, toda a realidade, todas as formas de conhecimento.[2]
     Mas a breve jornada de Alexandre, que saiu da Macedônia e em apenas três conquistou um império que continha o mundo então conhecido, não serviu apenas para ocidentalizar o Oriente, mas principalmente para orientalizar o Ocidente. Com a morte de Alexandre e a posterior divisão de seu vasto império entre os quatro Ptolomeus, também prevista pelo profeta Daniel, o idioma grego se tornou a língua universal, assim como o inglês é hoje. Enquanto a biblioteca alexandrina caminhava para a destruição, os romanos sangravam nas mãos de um dos maiores generais e estrategistas militares que o mundo já conheceu, Aníbal, de Cartago. Conforme conta o historiador brasileiro Armando Souto Maior,[3] Aníbal atravessou o Mediterrâneo, cruzou os Pirineus e as montanhas nevadas dos Alpes com seu exército, incluindo trinta e oito elefantes de guerra, para atacar Roma pelo norte, de surpresa, perdendo um terço de seus homens somente nessa expedição, e mesmo assim, passando dezesseis anos em campanhas vitoriosas contra Roma. Ironicamente, esse dia a dia belicoso de Roma em combate contra um dos maiores gênios da guerra era o embrião de um dos exércitos mais poderosos do mundo e a incubadora do “Império de Mil Anos”: o Império Romano!
 
[1]Josefo, Flávio. História dos Hebreus. 5ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 1997. O texto citado se encontra na parte 1, “Antiguidades Judaicas”, no capítulo 8: “Alexandre, o Grande, Rei da Macedônia, passa da Europa para a Ásia e destrói o império dos persas. Quando se julga que ele vai destruir Jerusalém, ele perdoa os judeus e trata-os favoravelmente”.
 
[2]Flower, Derek Adie. A Biblioteca de Alexandria. 2ª Ed. São Paulo-SP: Editora Nova Alexandria, 2010. Pág. 22.
 
[3]Maior, Armando Souto. História Geral. Págs. 126,127. 16ª Ed. São Paulo-SP: Editora Nacional, 1975.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 29/12/2019
Alterado em 08/05/2020
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