Diogo Mateus Garmatz
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MARTIN HEIDEGGER II - A FENOMENOLOGIA DO SER
 
HEIDEGGER, Martin. O Ser e o Tempo. Parte I. Tradução Márcia Sá Cavalcante Shuback. São Paulo: Editora Vozes, 2005. § 1-8, p. 27 -71.

     Martin Heidegger, um dos ícones da filosofia do século XIX, marcou seu nome na história da filosofia como um personagem histórico multifacetado, sendo, em um primeiro momento, um católico fervoroso, depois, um filósofo genial, até que, por fim, aderiu ao nazismo, ficando conhecido como “o filósofo nazista”, justamente por ter mantido estreitas relações com o regime nazista de Adolf Hitler, valendo-se do seu prestígio como filósofo para difundir o nazismo pelo mundo. Mas, e principalmente, seu nome figura no rol dos maiores filósofos da humanidade pela obra que legou ao mundo: “Ser e Tempo”. A filosofia heideggeriana tem seu gatilho disparado quando, em meio à efervescência da fenomenologia husserliana, as questões metafísicas são trazidas à tona, especialmente no que concerne à questão do ser, tão abordada pelos pré-socráticos e por todos aqueles que se dedicaram à busca pelo conhecimento no decorrer da história. Na visão do filósofo alemão, a questão metafísica, especialmente a ontologia carecia de uma recauchutagem, e foi a essa árdua tarefa que ele dedicou grande parte de sua vida, optando por uma vida simples de camponês em uma cabana, na região da Floresta Negra, no sul da Alemanha, para, ali, se dedicar à escrita de “Ser e Tempo”.
     Há algo de magnífico e especial na filosofia de Heidegger, tanto que, até hoje, psicólogos se dedicam a conhecê-la, sendo praticamente indispensável que um estudioso da psique humana conheça a ontologia heideggeriana. Partindo da visão ontológica do ser, Heidegger assevera que o ser não pode ser conceituado tal qual um objeto, porque o ser é uma essência, assim como os escolásticos acreditavam. Passando pela filosofia de Aristóteles, Heidegger apresenta o ser como sendo pura potência em sua essência. Assim sendo, o ser não pode ser esmiuçado, ou dissecado, nem exaurido em sua explicação. Mas as coisas mudam de figura quando esse “ser” se encontra com o tempo, quando é lançado na existência, quando o ser se manifesta em um indivíduo dentro da sequência histórica, porque é aí, segundo Heidegger, que o ser sofre a decadência da sua essência, vê suprimidas as suas potencialidades e se encontra cercado por todos os lados de pressões que fazem dele uma construção do meio, levando-o para bem longe daquilo que sua essência realmente é.
     É o contexto existencial do ser manifesto no tempo que gangrena a essência ontológica desse ser, e é justamente essa ideia que revolucionou muitas vidas que tiveram contato com essa filosofia, porque muitas pessoas que se encontravam tristes e pormenorizadas em suas existências, perceberam que foram afastadas de suas essências pelo agir do tempo, pela sociedade e pelas ideias correntes de suas respectivas épocas. Pessoas que quando ainda crianças tinham sonhos e almejavam um futuro de acordo como que idealizavam, viam, conforme avançavam em idade, a destruição lenta e paulatina desses anseios, levando-os a uma existência que Heidegger denomina de “inautêntica”, recheada de decepções, frustrações, revoltas e inconformismos. É quando se deparam com essa parte da filosofia heideggeriana que muitos se identificam e têm suas vidas impactadas, justamente por perceberem que se tornaram um produto do meio e se afastaram de tudo que, em essência, carregavam em seu ser essencial.
     Não bastasse Heidegger apontar a mazela e a causa da patologia psíquica, ele coloca a cereja em cima do bolo quando casa sua filosofia com a ideia do “ser” em Heráclito, trazendo junto de seu arcabouço filosófico a esperança de que por mais que um indivíduo esteja afastado de sua essência, ele ainda é um mutante, ainda preserva as potencialidades, podendo, a qualquer momento, abandonar comportamentos e dar uma guinada radical na direção oposta a que está sendo compelido. Ora, se Heidegger não chegasse a esse ponto, seria como um médico que encontra a patologia, identifica a causa, mas não prescreve o tratamento. A grandeza dessa filosofia está na sua aplicação prática, pois muitos foram os que, conhecendo o pensamento heideggeriano, desistiram de viver uma vida angustiada e partiram, com toda coragem e determinação, em busca da maior aproximação possível de suas essências, daquilo que realmente eram, rejeitando, assim, toda inércia social e força externa que os faziam ser o que não eram e o condenavam a uma vida amarga. Há quem pense que não há nada pior do que ser uma coisa que você não é; viver sufocado, forjado de acordo com o pensamento vigente, é o que faz o ser se transformar em uma coisa, em um objeto, em algo que pode ser explicado, pormenorizado, colocado em uma caixa, chegando ao extremo de uma sociedade fabricar indivíduos em série, moldados de acordo com as conjunturas que imperam.
     Depois de ter participado do impacto que a obra de Martin Heidegger causou no mundo contemporâneo e as implicações que ela teve nos mais variados campos sociais, quero, agora, deter toda minha atenção na parte introdutória da obra-prima de Heidegger, o livro “ser e tempo”, especificamente nos dois capítulos que compõem a introdução desse clássico da filosofia.
     O filósofo começa colocando que a metafísica precisa ser revisada, principalmente no que concerne a questão do ser, assunto que sempre foi mal resolvido e, também, ignorado, sob o pretexto de que era uma questão vencida e de que, por isso, não necessitava de maiores aprofundamentos.
     Diante das ruínas que se encontram as investigações a respeito do ser, Heidegger verifica pelo menos três causas para que o assunto seja tão renegado: a primeira causa se deve ao fato de o “ser” ser um conceito universal, a segunda reside no fato de o “ser” ser um conceito indefinível, inexplicável, impossível de ser abarcado pelos signos e pelos parcos recursos linguísticos aos quais temos acesso, e, por fim, a terceira causa descrita por Heidegger se localiza no fato de o “ser” ser tratado como algo auto-evidente, como algo que não precisa ser explicado, que traz junto do simples pronunciar de sua fonologia toda a carga semântica e cognitiva que ele contém em sua essência. Todas essas causas são tidas pelo autor como deficiências cognitivas históricas, que se arrastaram por toda a história da filosofia, sendo deixadas de lado, ora por ingenuidade, ora por julgarem a questão desnecessária.
     É a partir dessa constatação que Heidegger vai se dispor a investigar o ser, não sem antes deixar claro que qualquer ciência que o homem tenha criado é incapaz de abarcar o que é o ser. Isso se deve, segundo o autor, ao fato de as observações científicas se dirigirem a objetos já manifestos na realidade, o que é conhecido como “conhecimento por presença”, com foco nos seus atributos manifestos, enraizando tudo que apreendem dos entes em premissas ônitcas, ignorando a ontologia dessses entes e aquilo que os objetos trazem de transcendental em si mesmos. Ainda assim, Heidegger observa que o caráter ôntico dos entes pode servir de ponto de partida para o aprofundamento da investigação do que é o ser. O que se faz necessário, para Heidegger é tratar da questão do ser pelo prisma ontológico, tendo em mente que ele não é um mero objeto, mas está fundamentado no “logos” eterno, sendo que sua essência precede sua existência. Antes de um ser se tornar real, de adentrar o mundo existencial, ele já teria que estar fundamentado naquilo que ele chama de “possibilidades”.
     Justificando a falibilidade do ramo filosófico conhecido como ontologia, tanto na Filosofia Antiga, Quanto Na Filosofia Medieval, Heidegger argumenta que é preciso demolir o que foi construído até ele, e mesmo quando chega à Filosofia Moderna com Descartes e Kant, ele ratifica que o intento de tratar da questão do ser com sucesso não foi alcançado. Uma vez se encontrando nesse cenário que mais se parece com um areal movediço, pouco restaria para Heidegger se agarrar e prosseguir caminhando em sua investigação filosófica. Todavia, havia um outro nome na filosofia de seu tempo que causava estrondo com suas descobertas e mudava para sempre a história e o modo de se fazer filosofia: Edmund Husserl.
     Não é à toa que o próprio Heidegger dedica a Husserl sua obra-prima, foi com ele que Heidegger conheceu o método fenomenológico e é com esse método que o autor conta para prosseguir com sua obra. Uma vez considerada a fenomenologia de Husserl, Heidegger apresenta o tempo como a peça chave para a solução da problemática que está enfrentando. Embora o tempo massifique o ser que vem à existência, é também o tempo que permite que os entes sejam conhecidos, ainda mais quando o método usado é a fenomenologia, pois é no tempo que os seres se apresentam como fenômenos e podem ser elucidados. Assim, Heidegger não se valerá apenas do ser em si para desvendar aquilo que ele é, mas levará em consideração a aparição desse ser no tempo, algo muito parecido com o que Eisten fez quando unificou o espaço ao tempo, descobrindo que um está diretamente ligado ao outro, afetando-se eles mutuamente em uma estrutura cósmica inexorável.
     Depois de discorrer sobre o que vem a ser fenomenologia em sua obra, indo ao cerne dos vernáculos gregos “fenômeno” e “logos” e extraindo deles suas verdadeiras essências e mais puros significados, Heidegger anuncia, finalizando a introdução de sua obra, quais serão os fundamentos de seus argumentos e por quais vias ele caminhará em busca de respostas concernentes à questão do ser. Heidegger levará em conta o conhecimento que se obtém do ente por meio de sua presença, para, daí, imbricá-lo à temporalidade, com o claro intuito de fundir o ser e o tempo em uma análise fenomenológica. Seu pensamento filosófico ainda será mais aprofundado e densificado com observações à filosofia kantiana, principalmente no que diz respeito ao tempo e à temporalidade. Mostrará, por fim, toda sua genialidade e maestria eviscerando a ontologia de René Descartes, e, então, com precisão cirúrgica, finalizará sua “pietá” evocando a filosofia aristotélica.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 28/12/2019
Alterado em 28/04/2020
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