Diogo Mateus Garmatz
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MARTIN HEIDEGGER III - A ONTOLOGIA HEIDEGGERIANA
 
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Parte I. Tradução Márcia Sá Cavalcante Shuback. São Paulo: Editora Vozes, 2005. § 1-8, p. 27 -71.

     Hedidegger foi um filósofo contemporâneo, conforme a divisão histórica da filosofia, que pensou ideias muito atuais, densas e complexas, complexidades essas que em nada soam pejorativas, aliás, Martin Heidegger marcou a história da filosofia com sua obra de tal forma que há pessoas que testemunham terem suas vidas mudadas depois de conhecerem o pensamento heideggeriano. Aliás, cabe aqui uma retificação, Heidegger não foi um filósofo, ele é um filósofo, e digo isso para reverberar o que ele mesmo escreveu, consoante à sua própria filosofia, registrando que o ser só “é” enquanto existe em essência, no sentido ontológico, ou, quando morre, retornando assim à sua essência, pois, quando é inserido no mundo e no tempo e enquanto vive, ele é um ser com todas as possibilidades de ser o que todas as potências inerentes a ele o permitem ser (quando escrevo potência, é no sentido mais aristotélico da palavra potência possível), no entanto, esse ser trazido à existência é entificado e encoberto pelo contexto histórico e temporal. Para ele, ninguém é organizado, ou ansioso, ou alegre, mas sim, está alegre, está ansioso, ou está organizado, ou está portando qualquer outro predicado, uma vez que o ser ainda pode, potencialmente, mudar esse status a qualquer momento, porque ainda está inserido no fluxo temporal do eterno devir, podendo retornar ao seu verdadeiro ser e à sua verdadeira essência a qualquer momento. É interessante observarmos que na riqueza do nosso idioma conseguimos distinguir facilmente entre “ser” e “estar”, já que o mesmo já não ocorre com o idioma inglês, por exemplo, que tem o mesmo verbo para as duas ações, o verbo “to be”.
     Começando por olhar a obra de Heidegger como alguém que olha para o horizonte em busca de amplitude contextual antes de a trazermos para perto e, sob as lentes de nosso microscópio, nos ater nas primeiras páginas, notamos que o filósofo alemão começa sua empreitada considerando que a investigação metafísica caiu em esquecimento, evocando a necessidade de revitalização da questão ontológica. Heidegger descreve que há uma obscuridade na questão do “ser”, mesmo depois de ter sido tratada por Aristóteles, Tomás de Aquino e Duns Scott, e, ainda, retrabalhada por Hegel em sua lógica. O ser é inabarcável e não pode, portanto, ser entificado, coisificado, de forma que a lógica formal falha quando se debruça a conceituar o ser.
     Heidegger não vê com bons olhos o fato de o problema ontológico, a definição do ser, a conceituação dessa ideia, serem tratados quase que como um axioma, um princípio auto-evidente que dispensa justificação, como se o simples pronunciar do seu signo oferecesse, junto dele, a definição cabal de seu significado. A fenomenologia de Edmund Husserl, o qual foi o mestre de Heidegger e também a quem ele dedica a obra “Ser e Tempo”, foi fundamental para que o filósofo da Floresta Negra se valesse do método fenomenológico em sua investigação, método esse que apregoava o retorno à coisa em si. O ser, portanto, tem um caráter ontológico, é anterior à existência, não podendo ser explicado, tampouco abarcado, e, se fosse conceituado, seria, então, reduzido a um mero ente.
     Heidegger pondera que a ciência só pode tratar como ente objetos que podem ser apreendidos em suas características e predicados, que podem ser parametrizados, conceituados, o que não acontece quando se mira o olhar ao ser, uma vez que ele “é” em pura essência e existência. Por essa razão é que objetos como uma caneta ou mesmo uma pedra, podem ser tratados como entes, uma vez que seus predicados são abarcáveis e não há nenhuma potencialidade em uma pedra para vir a se tornar outra coisa senão uma pedra. Não há perspectiva de mudança nos entes apreensíveis, ao contrário dos seres que, presos ao fluxo temporal, veem a possibilidade de mudança como uma característica bem presente e empírica do seu dia-a-dia. Ao olhar para um ser humano, que é um ser manifesto no tempo, o que se observa nele é o “eterno devir”, cunhado pelo filósofo pré-socrático Heráclito, que dizia que não podemos nos banhar em um mesmo rio duas vezes, porque quando voltamos a esse rio, tanto o rio, quanto nós, já não somos os mesmos. Essa ideia é difundida por muitos estudiosos da área de educação, que tratam o homem como sendo um ser em desenvolvimento, nunca acabado, mas que morre aprendendo e, ainda assim, morre ignorando muito mais coisas do que tudo o que pôde aprender em vida.
     Quando alguém ouve a pergunta “Quem é você?”, na esmagadora maioria das vezes, a resposta que se é apresentada está calçada na profissão dessa pessoa, ou seja, as pessoas identificam seu ser de acordo com seus papéis sociais e se colocam como entes definitivos e abarcáveis. De fato, o ser é uma constante mutação, inapreensível e só poderia ser tratado como um ente se ele pudesse se manifestar em todas as suas formas, em todas suas potencialidades e em todos os seus momentos, passados, presentes e futuros, o que é impossível. Para Heidegger, no entanto, enquanto o ser permanece como uma essência ele traz em si todas as possibilidades, ou potências, potências essas que só são dissipadas quando o ser vem à existência, é inserido num horizonte de temporalidade e se mostra como um ser no tempo.
     Depois de nos familiarizarmos com o contexto geral da obra de Heidegger, podemos começar a folhar as primeiras páginas do seu livro e olhar para o texto em si. Em um primeiro vislumbre, o leitor é impactado pela tecnicidade e pelo rigor filosófico com que o autor escreveu sua obra, a tal ponto de ser uma leitura complicada, difícil e até mesmo cansativa para os leigos em filosofia. As primeiras letras grafadas por Heidegger expressam a necessidade de um revisionismo metafísico da questão ontológica, sublinhando que o ser é inabarcável, de sorte que qualquer um que tente defini-lo ou conceituá-lo falhará nesse intento. Passando pela Filosofia Antiga, especialmente em Platão e Aristóteles, dialogando com a Filosofia Medieval, em São Tomás de Aquino e Duns Scott, até chegar à Filosofia Contemporânea, especificamente em Friedrich Hegel e sua lógica, Heidegger expõe que, embora tantas tentativas no decorrer das mais variadas épocas, o conceito de “ser” ainda carece de melhores explicações.
     Há que se louvar a aplicação rigorosa que o autor imprime à sua obra, especialmente notada quando ele começa a investigação da pergunta “o que é o ser?” buscando conceituar o que significa o próprio ser, antes de se esforçar em respondê-la. Ora, seria temeroso e leviano precipitar-se em responder uma pergunta que não se sabe bem o que é, ou, que pode ter diferentes acepções e significados subjetivos. Heidegger abraça a missão de dissecar o ser antes de mergulhar mais fundo em busca de respostas. Uma das primeiras constatações feitas por Heidegger é de que o ser não pode ser abarcado, definido nem conceituado, e, por isso, tem sua investigação protelada e tratada com desdenho, como se fosse algo que dispensasse explicação, algo que todos soubessem o que é mesmo sem saberem explicar. Ao caminhar em sua investigação, a fenomenologia husserliana é a arma que Heidegger leva na mão, valendo-se dela para extrair do objeto em análise aquilo que ele realmente é, ou seja, um retorno ao objeto em si, procurando tornar claras as fronteiras entre um ente que é um objeto e um ente que é um sujeito.
     Ora, um ente é uma presença manifesta no espaço e no tempo, tal qual um objeto, mas também pode se referir a conceitos que não existem, como sentimentos e seres fantásticos, dessa forma, Heidegger coloca em xeque o ente e o ser, aquilo que existe, aquilo que não existo e aquilo que é, ressaltando a legitimidade de um ente questionar sobre sua própria existência, sobre uma presença questionar seu próprio ser, no caso, o ser pensante homem. É nesse ponto que Heidegger sopra as brasas já agonizantes da ontologia e traz à tona o caráter transcendental do ser, da existência enquanto essência e como possibilidade prévia no logos pré-existente e sempre existente. Em uma rápida revisão das ciências, Heidegger assevera que elas falham na tentativa de abarcar e conceituar o ser.
     O filósofo alemão está nos comunicando que a essência ontológica é anterior ao ente que é alvo de apreciação das ciências humanas, que se detêm no ente já presentificado no espaço e no tempo. É justamente quando o ser se manifesta por presença que as possibilidades daquilo que ele pode ou não pode fazer se manifestam, e essas possibilidades tornadas fáticas pela realidade são tidas pelo autor como um privilégio. Para que qualquer ente venha à existência ele já precisa estar fundamentado dentro das possibilidades universais, pois o que é impossível não se manifesta em presença. Nesse sentido, a própria existência deve preceder a tudo no campo das possibilidades universais, todavia, essa existência não existe como os entes existem, mas como sustentação das possibilidades, e, mais ainda, delimitando as fronteiras entre aquilo que é possível e aquilo que é impossível.
     No segundo capítulo da mais importante obra de Martin Heidegger, o filósofo se empenha em determinar o método pelo qual vai conduzir sua investigação, o que precisa ser descartado e o que precisa ser abraçado para o sucesso de sua empresa. Um terreno a ser cultivado identificado por Heidegger é o tempo, uma vez que é no tempo que o ente se manifesta, sendo por ele, então, o melhor caminho para se estabelecer uma compreensão do ser. Podemos ver aqui o embrião da magnífica filosofia heideggeriana, porque já aqui ele coloca a questão do tempo como temporalidade, e, ainda, separa a manifestação dos entes na temporalidade com suas historicidades e entropias, de suas manifestações no espaço, das propriedades atemporais, como as essências e as possibilidades. Parece ser mesmo esse o germe que fundamentará toda a obra do filósofo, o tempo como caráter fundamental para a ontologia, o tempo como sendo a entidade onde os seres se manifestam, o tempo como possibilidade de compreensão dele mesmo, do ser e da própria existência.
     É justamente pela manifestação temporal que é possível rastrear não apenas os entes, mas o próprio ser, de sorte que na temporalidade é que se encontra a resposta definitiva para a compreensão do ser. Heidegger vê, ainda, a própria história como um ente, uma vez que ela se manifesta no fluxo temporal com propriedades específicas e que tanto caminha do presente para o passado quanto reverbera do passado condicionando o presente. Considerando que o ser é a sua história, aquilo que o tempo faz dele, como ele foi construído pelas circunstâncias temporais, há que se concordar, também, que, desse modo, a própria história se torna entificada. Ser e tempo nesse sentido estão entrelaçados; investigar o ser é investigar sua história, seu desenrolar no tempo, sua manifestação no fluxo temporal. Quando o ser se manifesta no tempo, o contexto em que ele é inserido cerca esse ser, as tradições, os conhecimentos, as imposições culturais, tudo o que já está pronto no mundo acaba por acertar em cheio esse ser ainda puro, ainda em essência, e o arrasta para longe de sua verdadeira essência, para longe do seu verdadeiro ser, podendo vir até mesmo a fazer desse ser um mero ente passível de observação e análise científica.
     O autor, então, sugere a destruição da história da ontologia, uma vez que tanto René Descartes e mesmo Immanuel Kant (o qual Heidegger reconhece como o que mais avançou nas questões do tempo e da temporalidade), ambos falharam nas especificidades consoantes ao ser, deixando ainda envolto em travas a questão primordial do ser, justamente porque Kant fincou suas premissas no pensamento cartesiano. Isso se deve ao fato de Descartes ter encontrado sua certeza absoluta, o que o levou a procrastinar e protelar uma investigação mais profunda sobre o ser. Outra pedra no caminho da história da ontologia foi o desprezo pela problemática do tempo nas investigações, e isso desde a Filosofia Antiga, todos que se debruçaram a dissecar o ser acabaram por fazer do tempo em que o ser está manifesto um mero ente entre todos os outros.
     Uma vez elucidada as deficiências históricas das filosofias ontológicas, Heidegger se apega à fenomenologia de Edmund Husserl para, com ela, desenvolver sua investigação. Começando por detalhar e mesmo apresentar a fenomenologia como método filosófico, Heidegger acaba por ver nela a ferramenta mais eficaz para o entendimento das coisas como elas realmente são. O autor, a essa altura, destrincha o conceito de fenomenologia, tratando conceitualmente a junção dos termos gregos “fenômeno” e “logos”. O filósofo sublinha que fenômeno é tudo aquilo que se apresenta, dessa forma, os próprios entes são abarcados como fenômenos, sendo eles as coisas que se mostram em si mesmas, aquilo que elas são. Quando trata do termo “logos”, Heidegger recorre aos filósofos gregos e à distinção dos vários sentidos dessa palavra, concluindo que ela é um puro “deixar e fazer ver”.
     Depois de ter examinado os dois termos gregos, o filósofo volta ao termo condensado “fenomenologia” e o entende como deixar e fazer ver as coisas como elas mesmas se mostram, de acordo com as aparências das coisas mesmas, sem nenhum pré-conceito, despindo-se de toda a tradição e carga cultural anterior. Se o ser pode ser encoberto pelas circunstâncias da aparição dele no tempo, como poderia, então, a fenomenologia ser usada como método para o investigá-lo, uma vez que pela própria definição de fenomenologia está pressuposta a aparição do objeto como ele é, em si mesmo? É com essa questão que Heidegger se depara depois de ter decomposto o sentido mais puro de fenomenologia. É aqui que, mais uma vez, entra a temporalidade, que é onde o ser se mostra, permitindo que a fenomenologia olhe para ele e extraia dele as verdades ontológicas.
     Já caminhando para o fim do segundo capítulo, Heidegger expõe que o ser é algo transcendente, anterior à manifestação temporal e à presença espacial, sendo que o ser manifesto, embora possa ser observado pela hermenêutica, somente pela filosofia e pela fenomenologia poderá ser compreendido. Deve-se, portanto, ir além da realidade, da manifestação existencial, até o mundo das essências, ao lugar onde reside a verdadeira ciência, a ciência das possibilidades. Heidegger termina seu segundo capítulo introdutório anunciando qual será o fio condutor de sua pesquisa, analisando o ser manifesto em presença, relacionando o aspecto temporal e tratando diretamente do ser e do tempo, até explorar, pela perspectiva kantiana, a problemática do tempo, criticar o subjetivismo cartesiano e dialogar com Aristóteles, tanto pelos escritos aristotélicos sobre o tempo quanto pela sua ontologia. Assim, Martin Heidegger legou à humanidade sua obra “Ser e Tempo”, conquistou a eternidade e entrou para a história como o maior filósofo do século XX e um dos maiores de toda a história da filosofia.

Palavras-chave: Ontologia. Tempo. Filosofia Contemporânea.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 28/12/2019
Alterado em 28/04/2020
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