Diogo Mateus Garmatz
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EDMUND BURKE,  O PAI DO CONSERVADORISMO
 
     As origens do conservadorismo remontam o século XVIII, época em que Edmund Burke escreveu a obra Reflexões Sobre a Revolução na França, ficando conhecido mais tarde, já no século XX, como o pai do conservadorismo moderno. A teoria política burkiana olha com ceticismo o espírito revolucionário e prima por proteger os costumes e as tradições edificadas e solidificadas ao longo dos séculos. Não é necessária uma análise muito aprofundada ou demorada para perceber o perigo que ronda o espírito revolucionário movido pela ideia de romper com uma sociedade vigente e estabelecida para se construir uma nova erigida em ideais de um mundo prometido como justo e paradisíaco. Especificamente no caso da França, o que se seguiu à Revolução foi o terror, a sangria, a violência; a disputa entre girondinos e jacobinos levou a perseguições políticas em ambos os lados.
 
     “No Período do Terror da Revolução Francesa, houve dias em que mais de cem decapitações aconteceram em Paris; considerando o dia de vinte e quatro horas, isso significa que a guilhotina desceu sobre um pescoço a cada quinze minutos! Se se levar em conta que durante a madrugada não havia execuções, esse intervalo fica ainda menor. Assim, quem quisesse assistir à cena de ver uma cabeça sendo separada da espinha poderia se dirigir à praça da cidade e não esperaria mais do que dez minutos até que tivesse essa oportunidade. De quebra, poderia ainda acabar cruzando com algum revolucionário comendo carne humana em alguma calçada, não por fome, mas por selvageria mesmo. [...] Depois que a cabeça era seccionada e caía no cesto, o espetáculo estava garantido: agora alguém poderia agarrar a cabeça decapitada pelos cabelos ainda com sangue pingando e levantá-la para mostrar à multidão; era uma convulsão de êxtase e histeria. Mas poderia ficar ainda melhor? Ah, sempre pode ficar melhor! Os melhores eventos eram aqueles nos quais ao invés de a lâmina descer sobre o pescoço de simples cidadãos comuns, eram exibidas as cabeças de padres, reis e rainhas. A exibição da cabeça recém-separada do corpo da rainha Maria Antonieta, por exemplo, foi celebrada com gritos de euforia e a multidão foi ao delírio! Ironicamente, toda essa sangria foi em nome de uma luta por igualdade, ou, como diriam os franceses, ‘Egalité, Liberté, Fraternité’. Mais tarde, um dos líderes mais sanguinários da Revolução, Maximilliem Robespierre, acabou experimentando também do próprio veneno, o fio da guilhotina. Ele mesmo que entoava o lema jacobino de que ‘o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre’!”[1]
 
     “Voltaire, quando bradava ‘esmagai a infame’, negava estar incitando quem quer que fosse à violência física contra a Igreja Católica. Mas, quando os revolucionários de 1789 saíram incendiando conventos, destripando freiras e decapitando bispos, era esse grito que ecoava nos seus ouvidos e saía pelas suas bocas.”[2]
 
     Foram as consequências sombrias do que aconteceu na França que levaram Burke a não só criticar o espírito revolucionário, mas, principalmente, a aconselhar seus irmãos de pátria para que não alimentassem tal espírito na Inglaterra, antes, olhassem com prudência e ceticismo para as utopias revolucionárias que prometiam uma nova sociedade erguida sobre as ruínas e as cinzas de tudo o que a tradição os entregou como legado. Com a palavra, o próprio Edmund Burke:
 
     “Ao seguir essas falsas luzes, a França comprou calamidades ostensivas a um preço mais elevado do que qualquer nação gastou ao adquirir as bênçãos mais inequívocas! A França comprou pobreza com o crime! A França não sacrificou sua virtude para o seu interesse, mas abandonou seu interesse para que pudesse prostituir sua virtude. Todas as outras nações começaram a elaboração de um novo governo, ou a reforma de um velho, estabelecendo ou reforçando a observância estrita de alguns ritos religiosos. Todos os outros povos lançaram os fundamentos da liberdade civil nos modos mais severos e um sistema de uma moral mais austera e viril. A França, quando soltou as rédeas da autoridade real, duplicou a licenciosidade de uma feroz dissolução dos costumes e de uma descrença insolente nas opiniões e práticas, espalhando por todos os escalões da sociedade, como se estivesse transmitindo algum privilégio ou oferecendo algum benefício oculto, todas as infelizes corrupções que geralmente adoecem a riqueza e o poder. Este é um dos novos princípios de Igualdade na França.”[3]
 
     Quando Sir Roger Scruton, considerado o maior autor conservador da Inglaterra desde Edmund Burke, escreve já em nossos dias o livro As Vantagens do Pessimismo, era ao ceticismo conservador que ele estava se referindo. De fato, os ingleses têm leis centenárias, têm uma história vinda da Baixa Idade Média, têm valores cavalheirescos, têm a sucessão de coroas reais, têm costumes arraigados no âmago da sociedade, enfim, os britânicos têm o que conservar e têm propriedade para serem, de fato, conservadores. Nessa cultura, as leis devem emergir de costumes já incorporados pela sociedade e não a sociedade ter os costumes impostos pelas leis. O conservadorismo não implica, contudo, um imobilismo inerte, mas admite melhorias, desde que se deem naturalmente pelo movimento espontâneo da sociedade sem nenhuma coerção ou imposição. Sobre o conservadorismo inglês, assim escreveu Edmund Burke:
 
     “Graças à nossa teimosa resistência à inovação, graças à lentidão fria do nosso caráter nacional, nós ainda carregamos a marca dos nossos antepassados. Nós não perdemos (creio eu) o modo generoso e digno de pensar do século XIV, nem nos tornamos selvagens por força de sutilezas. Nós não somos os convertidos de Rousseau; não somos os discípulos de Voltaire; Helvétius não fez qualquer progresso entre nós. Os ateus não são os nossos pregadores; os loucos não são os nossos legisladores. Nós sabemos que não fizemos nenhuma descoberta, e pensamos que não há descobertas a serem feitas na moral, nem em muitos dos grandes princípios do governo, nem nas ideias de liberdade, que foram compreendidas muito antes de termos nascido, tão bem quanto serão após o bolor estar acumulado sobre a nossa presunção e o túmulo silencioso tiver imposto sua lei à nossa petulante loquacidade. Na Inglaterra, ainda não fomos completamente estripados de nossas entranhas naturais; nós ainda sentimos dentro de nós, e valorizamos e cultivamos esses sentimentos inatos que são os guardiões fiéis, os supervisores ativos de nosso dever, os verdadeiros adeptos de toda moral liberal e viril. Nós não fomos eviscerados e amarrados, a fim de que possamos ser preenchidos, como pássaros empalhados em um museu, com palha e trapos e reles tiras de papel borradas com os direitos dos homens. Preservamos o conjunto dos nossos sentimentos ainda nativos e inteiros, sem a sofisticação do pedantismo e da infidelidade. Temos corações reais, de carne e sangue, batendo em nosso peito. Nós tememos a Deus; olhamos com admiração para os reis, com carinho para os parlamentos, com dever para os magistrados, com reverência para os sacerdotes, e com respeito à nobreza.”[4]
 
     O conservadorismo não é, definitivamente, um culto à estagnação nem uma forma de preconceitualismo, o que ele defende é que as alterações nos costumes de uma sociedade aconteçam sem a imposição de ideologias ou movimentos progressistas, considerando que para a mudança de um costume realmente se efetivar pode se passar séculos.
     O fato de Edmund Burke se basear na filosofia aristotélica-tomista demonstra o quanto a tradição serve de alicerce para sua teoria política, pois ele remonta milênios de pensamento político e filosófico da humanidade, partindo da antiguidade, passando pelo medievo, alcançando a modernidade e fazendo-se ouvir na contemporaneidade. A sociedade, para o conservadorismo, deve se modificar organicamente, sem revoluções abruptas e violentas. O filósofo inglês coaduna seu pensamento político com o direito natural e preconiza que os cidadãos sejam livres dentro dos limites que não firam a liberdade dos outros cidadãos. Embora tal teoria política tenha influenciado a construção dos Estados Unidos como uma grande nação, além de fornecer subsídio para outros países europeus resistirem às constantes erupções revolucionárias da época, é na Inglaterra que o conservadorismo tem seu berço, sua raiz, e é ela o seu maior condão. O conservadorismo é tão íntimo da cultura inglesa que quando pensamos em Inglaterra, as ideias que nos vêm à mente são a pontualidade britânica, o famoso chá das cinco, além de ter como imagens que mais fidedignamente remetem ao país os ônibus de dois andares, as cabines telefônicas vermelhas e os guardas reais com seus chapéus feitos com pele de urso negro, nos mostrando de forma explícita que o conservadorismo é coisa levada a sério pelos ingleses.
 
     “O povo da Inglaterra não vai imitar as modas que nunca experimentou, nem voltar àquelas que, após experimentar, julgou perniciosas. Ele olha para a sucessão hereditária legal de sua coroa como um dos seus direitos, não como um de seus erros; como um benefício, não como um agravo; como uma garantia para a sua liberdade, não como um sinal de servidão. Ele vê a estrutura da sua comunidade, tal como está, como algo de valor inestimável, e concebe a sucessão sem perturbações da coroa como uma promessa de estabilidade e perpetuidade de todos os outros membros da nossa Constituição.”[5]
 


Referências:

[1]  GARMATZ, Diogo Mateus. A Soberania do Destino: Uma Busca Pelo Sentido da Vida. Porto Alegre: Gráfica e Editora RJR, 2020. Pág. 276.

 
[2] CARVALHO, Olavo de. O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota. 27° ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2017. Pág. 414.
 
[3] BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução na França. Tradução de Marcelo Gonzaga de Oliveira e Giovanna Louise Libralon. Campinas: Vide Editorial, 2017. Pág. 73, 74.
 
[4] Ibidem. Pág. 139,140.
 
[5] Ibidem. Pág. 57.
 
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 28/12/2019
Alterado em 14/02/2021
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