Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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VOCÊ ACREDITA EM DESTINO?
 
     Essa é uma questão que acompanha a humanidade há milênios, desde a antiguidade, quando os profetas judaicos escreviam acerca da soberania de Deus sobre a história humana, quando Sófocles escrevia Édipo rei (427 a. C,), e a mitologia grega falava nas Moiras; se estendendo pela Idade Média com Agostinho de Hipona escrevendo sobre o livre arbítrio e debatendo com os pelagianos; chegando à Idade Moderna com os debates entre Martinho Lutero e Erasmo de Roterdã e entre João Calvino e Jacó Armínio. Sim, muitas das vezes, essa questão foi levantada no âmbito teológico, mas encontraremos muitas dificuldades se tentarmos afastar essa questão da metafísica, da teologia ou quisermos ignorar seu caráter transcendental e até mesmo espiritual.
     Há quem opte por acreditar que é senhor de sua própria história e que com suas atitudes e escolhas determina livremente o seu futuro. Talvez pensar assim seja mais confortável, mais plausível e acabe trazendo mais sentido à existência, o que acaba por não ser apenas uma opinião, mas uma forma de encarar a vida, um sistema pelo qual se pode viver. Há quem acredite em destino, e como isso, acabe sofrendo a dor de ver que nem tudo está em seu controle, tendo que enfrentar questões existências ainda mais profundas como por exemplo: quem traçou meu destino? Quem está por trás da minha história? De quem é a mão que segura a caneta que escreve as páginas da minha história? Quais os critérios usados para determinar meu destino? Porque logo eu fui escolhido para tal destino? Nesse segundo sistema, levanta-se ainda a questão da responsabilidade humana sobre as ações, pois se minha história foi pré-determinada não cabe responsabilização por meus atos, todavia, não é minha intenção, agora, tratar desse viés, mas quero tateando a questão existencial em si.
     O cerne da questão reside na pergunta: Somos livres em nossas escolhas ou estamos amarrados a um destino? Muitos relutam em se ver como destinados, alegando não serem marionetes, não serem robôs, mas responsáveis por cada página, cada palavra escrita em suas histórias. É compreensível a resistência; acreditar que existe um destino traçado sem saber qual é esse destino pode afundar a pessoa em uma crise existencial, é daí que também provém a tendência de se evitar tal assunto, a tão comum procrastinação. A questão do destino não vem dizer que estamos livres e soltos nesse mundo para fazer o que quisermos em uma existência acidental e casual, tampouco vem dizer que somos marionetes que devem fazer o que foi determinado para fazermos, sem opção de escolha. A questão do destino vem trazer uma razão para a existência, um sentido para a vida, vem arrancar a banalidade do existir e disparar a busca do que viemos fazer aqui.
     O destino pode ser uma obra de uma vida inteira, mas também pode ser uma pequena atitude em determinado ponto da estrada, pode ser o desempenho de uma profissão, pode ser cuidar uma outra pessoa, pode ser uma fala a alguém que cruza o caminho, pode ser até mesmo algo desprezível, enfim, encontrar nosso destino é por si só uma busca que exige olhar atento e perspicácia ao observar as pistas.
     Cabe salientar que nem todas nossas ações são presas pelo destino, pode haver certa liberdade na vida desde que essas escolhas não interfiram no destino, como quando alguém está destinado a uma determinada obra em vida e tem que escolher a cor do carro que vai comprar, tanto faz se ela escolher verde ou vermelho, isso não afetará seu destino. Ao mesmo tempo é daí que vem a ilusão do livre arbítrio, pois fica dificultoso notar a vida levando o indivíduo ao seu destino, ver a vida conspirando em função do propósito de sua existência. Quem está dentro de um ônibus tem como destino determinada cidade, e esse destino não pode ser mudado pelo passageiro, mas ao mesmo tempo, o passageiro pode escolher se quer levantar e ir ao banheiro ou permanecer a viagem inteira sentado, pode escolher se vai viajar dormindo ou escutando música, pode até escolher entre sentar no corredor ou na janela, pois todas essas escolhas em nada alteram o seu destino, que é a cidade para onde o ônibus está indo. Como eu poderia me considerar livre? Como eu poderia me colocar como senhor de minha existência?
     Ninguém é totalmente livre, e eu direi agora o porquê. O simples fato de virmos à existência já nos dá um destino: a morte. O óvulo quando é fecundado já tem esse fim traçado, se nada interromper o processo de gestação ele não se tornará outra coisa senão uma vida, o que faz dele, em essência, uma vida. Lembro-me de parte de um voto do Ministro Antonio Cezar Peluzo, do Supremo Tribunal Federal, em uma ação que tratava do aborto de fetos anencéfalos, que poderiam vir a óbito minutos depois de nascer: “...o argumento de que o feto anencéfalo seja um condenado à morte. Todos o somos, todos nascemos para morrer.” O Ministro fez referência a Martin Heideger, que tratou do homem como “ser-para-a-morte” (sein zum Tod), e expressou: “a morte desentranha-se como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável.” Ora, o que caracteriza um ser vivo é a propriedade de nascer, cresce e morrer, por isso, ser uma vida é estar destinado a morrer, e desse destino, não há liberdade alguma que possa nos fazer escapar. Tanto o nascer nos condena ao destino morte, quanto nos mostra nosso destino vida, uma vez que ninguém pede para nascer, seja onde for que estejamos antes da concepção, não nos é dado o poder de escolher se queremos vir à consciência ou não. A condição humana é determinada, não cabe nenhuma margem de escolha aqui.
     Bem falava Shopenhauer ao se referir ao homem como um animal instintivo, dominado pela vontade da vida, pois até mesmo a escolha de um parceiro para a constituição de uma família envolve aspectos inconscientes, ligados instintivamente a critérios que visam unicamente a perpetuação da espécie. Para o filósofo alemão é a vontade instintiva que decide por nós e não nossa razão, argumentando ainda que se pudéssemos escolher o parceiro pela razão, jamais escolheríamos a mesma pessoa que escolhemos para constituir família, antes, escolheríamos outra totalmente diferente. Até mesmo escolhas que não afetam nosso destino, deixam de ser livres quando consideramos experiências passadas e decidimos com base nelas, afinal, se assim não fosse, nossa capacidade de aprendizado estaria seriamente comprometida. Isso é observado quando uma pessoa traída decide não mais se casar, por medo de reviver traumas e angústias que trouxeram sofrimento e dor. Raras são as escolhas e decisões puramente livres e sem qualquer condicionante ou determinante.
     Uma vez existindo nesse mundo, experimentamos o que eu chamo de EXTARQUIA. Extarquia é o conjunto de condicionantes e determinantes que condicionam as escolhas, determinam a história e dissipam as possibilidades em uma única realidade existencial, podendo ela ser inata ou residual. A extarquia inata se manifesta em fatos e condições que fogem à nossa escolha desde a concepção, como por exemplo o fato de nascermos, o fato de não escolhermos a época, o país, a família, a cor da pele, o sexo, a classe social, o idioma falado e o contexto histórico. Ela tem impacto direto na vida que teremos, pois está intimamente amarrada ao nosso destino. A extarquia residual é as condições que abarcam o ser durante sua existência, como doenças, tragédias, fatalidades, acontecimentos aleatórios, e também o que muitos chamam de sorte, ou boa sorte, mas que têm em comum o fato de fugirem à nossa escolha. É quando a vida nos atropela; seja de forma negativa, seja de forma positiva.
     É pela extarquia que nosso destino se concretiza, nos levando diretamente em rota de colisão ao propósito existencial. É inegável que os condicionantes e determinantes da extarquia condicionam nossa história: alguém nascido em nossa época não será um imperador romano: esse império já deixou de existir há mais de um milênio, da mesma forma, um imperador romano não seria um tripulante de uma nave espacial: essa tecnologia só seria alcançada muitos séculos mais tarde. A extarquia está tão ligada ao destino que até o próprio Deus quando adentrou a história humana observou sua força, por óbvio, Deus não é ilógico. O apóstolo Paulo sobre isso escreveu: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho…” (GÁLATAS 4:4). A plenitude dos tempos a que Paulo se refere revela que Deus não enviou seu Filho ao mundo em um momento aleatório ou casual, mas em um momento certo, ideal, planejado, se valendo do contexto histórico para cumprir seus propósitos. À época, o império romano dominava grande parte do mundo conhecido, o grego era uma língua universal, assim como o inglês é hoje, havia estradas que cortavam todo o império, construídas ainda no império persa, ligando a Ásia à Europa, também havia a Pax romana, que imitava a postura persa de não destruir os países conquistados deportando seus moradores, mas os preservava com suas religiões e costumes, ao contrário do que antes fizeram os assírios e babilônicos.
     Todo o contexto social e histórico foi considerado para condicionar e determinar o momento do nascimento de Jesus. Nada foi por acaso, nada foi acidental, tudo serviu a um propósito, tudo apontou para um destino, para cumprimento de um plano. Há também fortes argumentos teológicos que mostram com rígida densidade que Deus é que comanda a história humana, e não o homem, “E ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos.” (DANIEL 2:21), se assim não fosse, Deus não seria Deus, mas um mero expectador da história da humanidade, fadado a agir por reação, fadado a ser a todo momento surpreendido pelo drama humano e refazer seus planos de acordo com o protagonismo dos homens. Todavia, por serem tais argumentos fundamentados na Teologia, eles ficam condicionados à confissão de fé do leitor para sua aceitação e credibilidade, e, por isso, me limito, por ora, no uso deles.
     Para que eu não fique, então, restrito ao âmbito teológico em minha argumentação, quero trazer à tona um conceito científico que pode ajudar na elucidação do que vem a ser a extarquia. Existe um experimento em física quântica chamado de experiência da fenda dupla, onde os átomos assumem vários comportamentos, agindo como uma onda, uma onda de probabilidades, podendo estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas por mais incrível que pareça, como em tudo na física quântica, quando esses átomos são observados, assumem um único comportamento, agindo como partículas, e assumindo um único ponto no espaço. A fenda dupla mostra o mundo como uma onda de possibilidades. Essa experiência é uma excelente analogia quando comparada com a extarquia, pois embora a existência dê a ilusão de que há uma gama de possibilidades de realidades alternativas e de caminhos a seguir, a extarquia acaba por determinar apenas uma única realidade. Por mais que exista uma infinita amostra de futuros possíveis a seguir em nossa frente, a realidade em que vamos viver será uma só, não vivemos em realidades alternativas, mas em um único e específico fluxo temporal. E nessa realidade que vivemos, vemos as digitais da extarquia, vemos toda sua força.
     Se nos despirmos de nossas defesas e baixarmos os escudos, admitindo as limitações da nossa liberdade e a força da extarquia na nossa vida, passamos a um próximo questionamento: Qual é, então, o meu destino? Essa procura pode se arrastar por uma vida inteira. O que pode ajudar nessa procura são as pistas que a extarquia deixa: as circunstâncias que por mais que tentemos evitar, insistem em se repetir; acontecimentos que vêm nos moldando ao longo dos anos, afunilando as opções de nossas escolhas; nosso instinto, ou ainda, nossa consciência. Encontrar nosso destino é uma tarefa individual, íntima, privada, que ocorre em uma autoanálise, ocorre na introspecção. Fato é que se conhecendo ou não o destino, ele prevalecerá, dele não podendo ninguém fugir. O destino continuará sendo mesmo implacável.
     O homem que tenta fugir de seu destino é como um pássaro voando longe do seu ninho. Já o homem que abraça seu destino é um homem que não teme a morte. O apóstolo Paulo quando encontrou a razão de sua existência produziu pérolas que o imortalizaram. Paulo sobre sua existência escreveu: “Porque para mim, o viver é Cristo e o morrer, é lucro.” (FILIPENSES 1:21). Paulo sabia o que estava fazendo aqui, sabia que seu destino era o que transcenderia sua existência: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira.” (ATOS 20:24). Para ele, abraçar seu destino era mais nobre que a própria vida em si, era mais precioso do que existir. Quando ele sentiu o gelo da morte a lhe rondar, escreveu: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” (2 TIMÓTEO 4:7)
     Talvez nosso destino seja um ato heroico, instantes antes de morrer. Talvez seja amar as pessoas que a vida nos trouxe. Talvez a própria busca pelo destino seja o nosso destino em si. Talvez seja uma única palavra em nosso último fôlego de vida... Talvez não haja glória em nosso sacrifício. Talvez não coloquem uma medalha em nosso peito. Talvez estejamos condenados ao esquecimento. Talvez nosso sepulcro seja abandonado, e não haja flores sobre ele. Talvez Ninguém nos acene quando as cortinas se fecharem. Talvez nossa partida seja regada a dores e lágrimas. Mas o homem que encontra seu destino e o abraça vive sabedor de que sua existência não é vã, que há um propósito em estar aqui.. Não importa qual seja nosso destino, é por ele que estamos aqui, é ele que nos trouxe até esse ponto, é ele que, por fim, trará sentido e conforto à nossa alma. Cada vez que aspiramos e expiramos o ar de nossos pulmões é com um propósito, cada vez que amamos alguém é com um propósito, cada lágrima, cada sorriso, cada adeus, tudo é parte do que viemos fazer aqui. Nossa vida não será pequena, não será medíocre, não será fútil nem banal, quando abraçarmos nosso destino e perdermos o medo da morte, quando abraçarmos o que a vida nos trouxe para viver, e entendermos que, de nossa passagem por aqui, só é eterno aquilo que o destino nos traz para eternizarmos.
     Nem sempre você estará no controle de tudo. Não te desespera, não te cobra tanto assim. E quando estiver cansado, permita que a vida te pegue pela mão e te conduza ao destino que ela mesma preparou para tu, e só para tu viveres. Hoje, se a vida te convidar para dançar, dance. Hoje, se a vida te convidar para brincar de careta com uma criança, brinque. Hoje, se a vida te convidar para deixar uma lágrima escorrer pelo teu rosto, permita-se. Vive cada momento intensamente, eterniza na tua memória tudo o que a vida te trouxer para viver. Tu não és obra do acaso, há um propósito para tua existência, e quando tua hora chegar, poderás sentir a sensação de dever cumprido, o prazer de lembrar que amou, que sorriu, que sangrou, que chorou, que sentiu saudade, que deixou saudade, enfim, experimentou tudo que só um ser que teve o privilégio de existir e saber o que é “vida” pode experimentar.

REFERÊNCIAS

Site Jusbrasil. www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoPeca.asp?id=136389880&tipoApp=.pdf

HEIDEGER, MARTIN. Trad. de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Ser e tempo.11ª ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004, parte II, p. 32. Grifos do original

SCHOPENHAUER, ARTHUR. Do mundo como vontade e representação, p. 27 – Saraiva, 2012.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 19/05/2018
Alterado em 14/02/2021
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