Diogo Mateus Garmatz
O que fazemos em vida ecoa na eternidade
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MORRENDO E APRENDENDO
 
     Refletir sobre o aprendizado no decorrer da minha vida não é uma tarefa tão difícil assim, afinal, se tem uma coisa que fiz, faço e vou morrer sem ter acabado de fazer, é aprender. Cheguei a esse mundo sem saber caminhar, falar, sem nenhum senso de tempo e completamente vulnerável. Aliás, vulnerável é eufemismo; o ser humano é um dos raros animais que nasce sem saber caminhar, na dependência total de seus genitores. E essa dependência se estende pela vida afora, não deixando de existir, mas sendo minimizada e convertida em outras formas de vulnerabilidade. Engana-se quem pensa que o crescer traz segurança e independência; somos fracos, temerosos, ignorantes, e dotados de tremendas limitações: O ser humano só enxerga em um espectro de luz, não enxerga em infravermelho nem em ultravioleta; só escuta sons acima de 20 e abaixo de 20.000 Hertz; vive presos em três dimensões físicas, sendo a quarta dimensão o espaço-tempo, que parece linear sendo no entanto relativo; se a temperatura do corpo baixar de 28 graus Celsius ou passar de 42, morre. Mesmo o que parece ser a maior força do ser humana, acaba por revelar limitações: o cérebro tem capacidade para processar 400 bilhões de bytes por segundo, mas só temos consciência de 2 mil deles, ou seja, a maior parte de nossos pensamentos e até mesmo decisões ocorre no inconsciente.
     Nascemos com uma única certeza, a de que vamos morrer...eu vou morrer… você vai morrer, e não há livre arbítrio que mude esse determinismo. O homem é pó, e a ciência ratifica o escrito bíblico (GÊNESIS 3:19), pois os mesmos elementos químicos encontrados na terra são encontrados no corpo humano. Se somarmos o valor dos elementos que compõem o organismo humano, sendo eles 1 kilo de cálcio, 580 gramas de fósforo, 38 litros de água, 200 gramas de sal, 4 gramas de ferro, 16 kilos de carbono, entre outros, o valor não passa de r$ 150,00. A durabilidade dessa estrutura é em média de no máximo 90 anos, condenado a logo retornar ao pó. Fernando Pessoa escreveu: “O homem é um cadáver adiado.” (1982). O corpo humano ao morrer caminha a passos largos à putrefação, já aos 30 minutos após a morte, os olhos afundam para o interior do crânio, 24 horas depois o rosto fica irreconhecível, em dois dias o corpo incha e fica até três vezes maior, três dias depois, bolhas de gás se formam embaixo da pele, e no quarto dia, fluidos vazam e escorrem pelos buracos do corpo, e o mau cheiro se torna sufocante. Há, em todo esse processo, a grande probabilidade de em cerca de duzentos anos a pessoa cair no esquecimento (em uma previsão bem otimista), por não haver mais ninguém vivo que a tenha conhecido, ou que faça menção do seu nome, o que acaba por riscar o nome dessa pessoa da história, de tal forma que será como se ela nunca houvesse existido. Estamos fadados ao esquecimento.
     Cabe ainda uma pincelada sobre os medos internos que o ser humano traz intrínsecos à sua existência, o desconhecimento do mundo espiritual, as dúvidas sobre o pós-morte, o sentido da vida, a busca pela felicidade e as dores inevitáveis que uma existência traz.
    Dentre tantas dependências na existência humana uma delas é a aprendizagem. Não há como o ser humano se desenvolver sem o aprendizado. Viver é aprender. E é sobre essa dualidade que tem se debruçado minha existência. De forma bem partícula percebo que meu aprendizado veio acontecendo de forma empírica, como na teoria de John Locke (1963). O empirismo por vezes me foi algoz, me trouxe cálices de dor e sofrimento para beber sem nem mesmo perguntar se eu os queria e me embriagou de introspecção e quebrantamento. É inegável que a maioria do que eu sei sobre a vida aprendi depois de passar por uma profunda decepção comigo mesmo, depois de quebrar a cara, depois de sentir o gosto do sangue na garganta, e experimentar a crueldade da flecha do tempo, que ao cortar o espaço assovia um som que decifrado significa que o tempo não volta. Há coisas que os livros não ensinam, há coisas que enciclopédias não comportam, há coisas que professores não elucidam, canetas não escrevem e papéis não recebem. Há coisas, que apenas uma lágrima pode ensinar. Enquanto era ensinado sobre conhecimentos necessários à escolarização, percebi professores usando teorias variadas, dentre elas, a das fases do desenvolvimento cognitivo de Piaget (1932). Tal teoria me pareceu por demais eficaz, e também efetiva, pois me apresentava na fase certa o conhecimento que eu deveria e poderia absorver. Foi observando a aplicação dessa teoria que percebi que o conhecimento é um processo, uma construção, algo que não se começa pelo teto, mas pelo alicerce. É interessante notar que o próprio Deus encarnado, na hipóstase, foi um ser em construção processual, conforme vemos na Bíblia Sagrada: “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.” (LUCAS 2:52).
     Quando no ensino médio, conheci uma professora, uma inesquecível professora, que marcou minha vida de tal modo que esta se divide entre antes e depois de conhecer aquela (nesse ponto contenho minha intensa vontade de citar seu nome e lhe dar o devido reconhecimento e prestar as devidas honras). Foi essa pessoa que olhou para um aluno revoltado e displicente vendo nele algumas inteligências, e se dedicou a desenvolvê-las. Tenho certeza que ela se apoiava na teoria de Howard Gardner das inteligências múltiplas, que fala sobre os oito tipos de inteligência (1993). Ela apostou em mim e acreditou em mim quando nem mesmo eu acreditava, investiu em mim quando o futuro que se vislumbrava à minha frente era desastroso e digno de desprezo. Foi ali que eu adquiri prazer pelo conhecimento, paixão pelos livros, e sede pelo desconhecido. Aprender o que eu não sabia era uma enorme prazer, uma grande satisfação, quase que um orgasmo (sem nenhuma referência pejorativa, embora eu estivesse mesmo na puberdade), que não me saciava, antes, me fazia querer repetir e querer sempre mais. Depois de ter sido aluno dessa nobre professora eu nunca mais fui o mesmo, o que ela fez comigo foi revolucionário, ela mudou minha vida (mudou sim, saiba que isso não é uma hipérbole). Se eu tivesse feito o que essa mulher fez, eu teria ganho a vida, teria cumprido minha missão, teria dado razão à minha existência, teria deixado minha mãe orgulhosa, teria a certeza que quando deixasse essa vida teria deixado minha marca e não teria passado por aqui em vão.
     Mas nenhuma teoria me chamou mais a atenção pela identificação do que a de Peter Jarvis. Foi quando vi a “vida” tomando uma forma, quase que se transformando em uma entidade, parecendo mesmo com um ser orgânico, que havia me tomado pela mão ao nascer e estava me conduzindo até minha sepultura, me mostrando as flores ao lado da estrada e me contando segredos que só ela sabe. Jarvis sintetizou a experiência humana, me mostrando minha limitação e me ensinando que não cabe a mim qualquer orgulho ou presunção, pois eu nunca atingiria um conhecimento tal que não precisasse mais aprender, pois enquanto vivesse eu estaria aprendendo, e só haveria uma maneira de deixar de aprender: morrendo. É em Jarvis que vejo o modo como eu aprendo hoje. Para ele, o aprendizado ocorre quando há uma ruptura entre o mundo que vivo e observo e o meu ser interior, o que ele chama de disjunção. O trabalho de Jarvis atravessa a pedagogia, passando pela filosofia, chegando até a metafísica, pois indica que é o tempo que forma o ser, através da existência e da experiência (2006). Quando experimentamos algo novo, isso gera uma disjunção, e nos leva a nosperguntarmos o porquê das coisas, nos leva à introspecção e à análise e experimentação dessa nova sensação
     Quem já não pensou saber da vida, conhecer suas facetas e lidar com as pessoas e, de repente, se viu atropelado por uma experiência nunca antes experienciada, seja ela a perda de um familiar, uma tragédia, uma ruptura brusca de um relacionamento, ou qualquer dessas desgraças da vida que nos sobrevêm em uma terça-feira à tarde. Nunca estamos prontos, nunca conhecemos o suficiente, a vida sempre nos surpreende, a vida insiste em nos atropelar até nosso último suspiro. E é aqui que a pedagogia sorri para a filosofia, quando percebemos que o aprendizado não é estático, mas encontra vida na eterna disjunção da existência. Que admirável beleza enxergamos ao observarmos na obra de Jarvis a questão metafísica da pedagogia! Um fascínio residente no fato de
ser a aprendizagem dinâmica e contínua, o que acaba por deixar o ser em constante evolução e mutação, de formas que esse acaba por não ser o que ele é, mas o que vai vir a ser.
     É o a aprendizado e o conhecimento que nos transforma; cada vez que aprendemos o que não sabemos, que experienciamos algo novo, mudamos como pessoa, temos a oportunidade de ser um ser diferente do qual éramos. O conhecimento nos traz a chance de sermos hoje uma pessoa melhor da que éramos ontem, e pior da que seremos amanhã.
     Ora, não é só o conhecimento que é construído em gradação, mas o próprio ser também o é, o que reafirma o já dantes dito: viver é aprender, uma coisa está intimamente ligada a outra, entranhavelmente amarrada. Por mais que aprendamos, enquanto vivermos seremos uma pessoa inacabada, buscando ser uma pessoa inteira, mas sempre em constante mudança. Tenho a impressão de me conhecer como pessoa, como se meu próprio “eu” nunca mudasse, como se eu fosse sempre“eu”, no entanto, esse “eu” está sempre mudando, num eterno vir a ser, o que me leva a questões clássicas do pensamento humano: Quem sou eu? O que eu sou? O que estou fazendo aqui? Por que eu vim à existência? Quem já se pegou deitado em um quarto escuro, ou mesmo sentado em uma sacada na calada da noite a pensar em sua vida já se fez essas perguntas. Quando eu noto que o meu “eu” não é estático, mas se transforma o tempo todo diante das coias da vida percebo que eu sou um conjunto de vitórias e um conjunto de fracassos; um conjunto de histórias das quais me orgulho e um conjunto de outras histórias das quais me envergonho de contar; um conjunto de motivos parasorrir e um conjunto de motivos para chorar; um conjunto de dias alegres e felizes e um conjunto de outros tristes e sombrios; um conjunto de momentos que insistimos em recordar, pedindo para quese repitam, e um conjunto de momentos que dilaceram nossa alma, que desejamos nunca tê-los vivido, páginas de nossa vida que queremos arrancar, amassar e jogar fora, como se nunca tivessem sido escritas.
     Enfim, eu sou a minha história, eu sou o que o tempo faz comigo, o que a vida me traz pra experimentar, sou o que eu aprendo. Enquanto eu viver serei um eterno aprendiz, e quanto mais viver mais vou perceber que não sei nada, cada experiência nova que a vida me trouxer me faráaprender o que eu não sei, e isso, eu farei até meu último fôlego de vida, quando enfim, em um último ato, experimentarei minha última disjunção, minha última experiência até então inédita, e terei que, por fim, aprender… aprender a morrer. Estou, hoje, vivendo a prendendo. Estou, hoje… morrendo e aprendendo.


REFERÊNCIAS:

GARDNER, Howard. Estruturas da Mente a Teoria das Inteligências Múltiplas. PortoAlegre: Artes Médicas, 1994.

JARVIS, Peter. Adult Learning in the Social Context. Abingdon: Routledge, 1987.

LOCKE, John. Alguns pensamentos sobre a educação. São Paulo: Almedina, 1693.

PIAGET, Jean. A Pscologia da Inteligência. Petrópolis: Editora Vozes, 1932.
Diogo Mateus Garmatz
Enviado por Diogo Mateus Garmatz em 19/05/2018
Alterado em 14/02/2021
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